Jovens cineastas entram em contato com a história da produção nacional no 9º CineOP

Edição de 2014 da Mostra de Cinema de Ouro Pretoconfirma a importância da preservação da memória da cinematografia brasileira

por Walter Sebastião 02/06/2014 08:28

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Leo Lara/Divulgação
Os jovens cineastas Luigi Oliveira e Lisandro Santos e o técnico de som Bruno Barrenha ampliam seu conhecimento em Ouro Preto (foto: Leo Lara/Divulgação)
Ouro Preto – O CineOP transpira afeto pelo cinema brasileiro, como disse alguém: algo que não se vê nem sequer entre quem faz cinema. Sentimento vindo de turma variada – professores, pesquisadores, cineastas jovens e veteranos, diretores de instituições etc. –, gente que, por meio de seminários, projeções e homenagens ao passado da produção brasileira, amplia a noção de patrimônio nacional. Área pela qual, acreditam, o brasileiro deveria ter mais apreço.


O paulista Bruno Barrenha, de 17 anos, o curitibano Luigi Oliveira, de 25, e o gaúcho Lisandro Santos, de 39, apresentaram na Mostra Horizontes, respectivamente, os curtas 'Ida do diabo', 'Hotel Farrapos' e 'Oliutaio'. A questão do passado do cinema brasileiro é tema desafiador para eles, até pela pouca circulação dos filmes e pela falta de informação sobre autores.

Foi graças à irmã, crítica de cinema, e valendo-se de obras disponíveis em locadoras, que Bruno Barrenha, que mora em Rio Claro (SP), tornou-se admirador da obra experimental brasileira. Considerou precioso ver 'Jardim das espumas' (1970), de Luiz Rosemberg Filho, em mostra “com a presença do diretor e de pessoas importantes ao meu lado”. 'Cidades do interior', observa o técnico de som, só recebem blockbusters. “O que traz muita ignorância sobre o assunto”, lamenta.

Luigi Oliveira recorda a sensação de estranheza da primeira vez que assistiu a um documentário sobre trabalhadores rurais, do início do século 20. “Não absorvi bem, era distante para mim, que nasci em época de cinema basicamente colorido. Com o tempo, entendi que era um registro histórico importante. Filmes como 'Deus e o diabo na terra do sol', de Glauber Rocha, trazem novas referências e fazem pensar em outras formas de cinema”, garante.

O animadores andam orgulhosos por ver a história da arte que praticam. Bom exemplo pode ser Lisandro Santos, que não se esquece do filme Luz, anima, ação, de Eduardo Calvet, que colocou na tela história do gênero. Ele assistiu também 'Sinfonia Amazônica', de Anélio Latini Filho (1926-1986), o primeiro longa de animação do país. “Vi o filme com admiração. É produção limitada tecnicamente mas, ao mesmo tempo, algo totalmente desbravador no Brasil. E isso tem valor, é história”, afirma.

 

PALAVRA DE ESPECIALISTAS
Existe preconceito com filmes antigos brasileiros?


. Luciana Corrêa de Araújo
. pesquisadora
“O que existe é pouco conhecimento do passado do cinema brasileiro. Falta não só circulação, mas mais informações sobre os filmes, que permitam maior compreensão. Temos passado de muitas realizações, com filmes bons, ruins, regulares ou geniais. E o melhor é ver de tudo. Eles não só mostram como era a vida em outros tempos como trazem questões estéticas, culturais, sociais muito estimulantes.”

. Luiz Carlos Lacerda
. cineasta e professor de cinema
“O Brasil tem tradição de renegar o passado recente. O jovem só quer saber do feito agora e, de preferência, sobre o contexto dele. Não se consulta o assunto nem no Google. Um aspecto importante do CineOP é ter criado link entre juventude e patrimônio cinematográfico brasileiro. O cinema brasileiro não começou com o Cinema Novo ou com as chanchadas.”

 

Acervo ajuda na formação

 

Luciana Corrêa de Araújo tem 49 anos, é professora de audiovisual em São Carlos (SP) e lançou no CineOP o livro Joaquim de Andrade: primeiros tempos – obra sobre a formação do cineasta carioca, diretor de Macunaíma. Homem com ligações com Minas Gerais, que trabalhou, inclusive, na restauração dos Passos da Paixão de Cristo, em Congonhas, nos anos 1950. A publicação surgiu como pesquisa de doutorado, mas levou a autora a participar de equipe formada pelos três filhos do diretor, que resultou em digitalizaçao dos filmes e, inclusive, edição da obra em DVD.

Resultado feliz movido, como observa Luciana Corrêa, por uma família com história na área de preservação do patrimônio: o pai de Joaquim Pedro de Andrade, Rodrigo de Mello Franco, que morreu em 1988, aos 56 anos, foi um dos criadores e diretor por quatro décadas do Instituto Histórico do Patrimônio Nacional (Iphan). O trabalho, observa a pesquisadora, permitiu a organização de documentos e obras do cineasta, criando condições para a difusão do material realizado. “Joaquim articula visão política, cultural e social do Brasil. Aspectos que, nos filmes dele, estão juntos e relacionados, o que dá grande potência à obra”, conta.

“A preocupação é como fazer o mesmo com as obras de tantos diretores que necessitam desse trabalho ou enfrentam os desafios postos em trabalho difícil, complexo e caro”, observa Luciana. “Precisamos de uma política de preservação do audiovisual que pense a nossa cinematografia de maneira geral”, afirma. Filmes antigos, conta a pesquisadora, tiveram papel na formação do cineasta. Limite (1931), de Mário Peixoto, ecoa em O padre e a moça, de Joaquim Pedro de Andrade. E as chanchadas dos anos 1950 são evocadas em tempos tropicalistas, com Grande Otelo no filme Macunaína (1969).

MEMÓRIA O cineasta Luiz Carlos Lacerda, de 69 anos, integra a geração que começou a fazer cinema na metade dos anos 1960. Ele recorda que, adolescente, numa conversa do pai, João Tinoco de Freitas, produtor do filme Rio 40º de Nelson Pereira dos Santos, ouviu falar de uma cinemateca em São Paulo que estava recebendo filmes antigos para conservá-los. Ainda jovem, frequentou a Cinemateca do Museu de Arte Moderna (RJ) e ouviu discurso de Cosme Alves Netto sobre a necessidade de preservar filmes antigos.

Contato direto com as obras ele só teve ao viajar com o pesquisador Jurandyr Noronha pelo Brasil, “catando preciosidades” para a realização do longa Panorama do cinema brasileiro (1968). Assistiu a filme que era “um mito”: Limite, então mantido longe dos olhos de todos. “Para mim, que achava que vanguarda era o cinema francês dos anos 1930, foi um susto ver um longa tão arrojado”, recorda. Ele guarda, ainda hoje, encanto com as obras de José Medina (1894-1980). “Até ver um filme de Humberto Mauro, só conhecia o passarinho joão-de-barro ao vivo”, brinca, lembrando do gosto do mineiro pelas paisagens do Brasil.

“A maioria dos cineastas da minha geração não conhecia os filmes antigos brasileiros. Eram tempos em que eles não estavam disponíveis, que não tinha nem sequer curso de cinema”, lembra Lacerda. O difuso conhecimento e a relação dúbia da população em geral com o patrimônio, para ele, remetem a muitos fatores, mas também ao fato de que o preservacionismo e a própria noção de patrimônio são recentes no Brasil, e não só na área de cinema. A defesa do patrimônio só foi pensada depois de visita dos modernistas, em 1924, às cidades históricas mineiras. “E, não por acaso, Ouro Preto hoje se volta ao tema, agora no cinema”, observa.

 

* O repórter viajou a convite da organização do evento

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