Cineasta Humberto Mauro ganha homenagem com mostra no Palácio das Artes

'Humberto' exibirá 59 filmes, entre longas e curtas-metragens, na maior exposição sobre o cineasta já realizada no Brasil

por Ana Clara Brant 21/05/2014 08:29

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Reprodução
Humberto Mauro dirigiu 15 longas e cerca de 500 curtas, criando um estilo que serviria de marco estético para o cinema brasileiro (foto: Reprodução)
Para lembrar um dos mais importantes nomes do cinema nacional, Humberto Mauro (1897-1983), será realizada, a partir de quinta, a maior mostra sobre o cineasta já organizada no país. E vai ser justamente na sala que leva o nome do seu patrono, no Palácio das Artes. 'Humberto' vai reunir longas e curtas-metragens do cineasta mineiro nascido em Volta Grande, cuja trajetória passou por Cataguases e pelo Rio de Janeiro a partir dos anos 1920. A maratona de filmes vai até 12 de junho, no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte.

O curador do projeto, o professor e crítico de cinema Rafael Ciccarini, conta que havia um desejo antigo da Fundação Clóvis Salgado de prestar tributo a um representante de peso do cinema brasileiro, já que a instituição havia realizado mostras importantes dedicadas ao sueco Ingmar Bergman, ao inglês Alfred Hitchcock e ao espanhol Luis Buñuel. “O nome de Humberto Mauro surgiu de forma natural. Não havia sido realizado, até então, nada dessa dimensão sobre ele. Em 1984, um ano depois da morte do diretor, houve algo parecido, mas agora o esforço foi ainda maior, mesmo sem qualquer efeméride. Além de ele dar nome a um espaço importante da fundação, Humberto Mauro é um autor decisivo no nosso cinema e que ficou um pouco esquecido”, analisa.

Na cerimônia de abertura, na sexta-feira, será exibida uma leitura multimídia, com execução da trilha sonora ao vivo, composta pelo sobrinho-neto do cineasta, o pianista Gilberto Mauro, em parceria com o baterista Ricardo Garcia. O trabalho, que vem sendo apresentado desde 2006, ganhou o nome de CePiaXiíCatu (Eu coração dou bom), cumprimento em guarani utilizado por Humberto Mauro, em idioma que o cineasta dominava.

Acervo EM
'O canto da saudade', de Humberto Mauro, longa-metragem de 1952, com Mário Mascarenhas e Cláudio Montenegro (foto: Acervo EM)
“Fizemos uma montagem de 45 minutos dos filmes Tesouro perdido (1927), Brasa dormida (1928) e Sangue mineiro (1929), além de seu primeiro filme realizado na Cinédia, Lábios sem beijos (1930), que dialogam e se encontram tematicamente em duas projeções simultâneas. Todos eram mudos e, a partir daí, criamos a trilha em que utilizamos sons tradicionais, com motivos eletrônicos e eletroacústicos, para criar uma universalidade e trazer o filme antigo para a atualidade, propondo algo atemporal. É trilha sonora o tempo todo, ou seja, a música acompanha a cena”, explica Gilberto.

O pianista, que é neto do irmão de Humberto Mauro, Francisco, tinha 13 anos quando o diretor morreu, mas se recorda do bom humor e de como o cineasta gostava de contar casos. “Sempre foi muito brincalhão. Pena que no fim da vida já estava quase surdo. Meu avô não era das artes, como o irmão, mas um inventor. Mas como todos da família, gostava dessa coisa da criatividade, dos mecanismos. Era muito interessante”, acrescenta o músico. Também na abertura, será prestada uma homenagem póstuma a Zequinha Mauro, filho e importante colaborador de Humberto Mauro.

Tupi-guarani Humberto Mauro não foi o primeiro cineasta brasileiro, mas para Ciccarini ele foi o primeiro a ter obra e estilo consistentes. Dos seus 15 longas, apenas oito ainda estão preservados e sete serão exibidos na mostra. Novidade do projeto são os filmes nos quais Mauro trabalhou em outras funções, que também foram incluídos na programação: Como era gostoso o meu francês (Nelson Pereira dos Santos) e Anchieta José do Brasil (Paulo Cezar Saraceni), nos quais colaborou nos diálogos em tupi-guarani; A noiva da cidade (Alex Viany), para o qual escreveu o roteiro e fez uma ponta como ator; Memória de Helena, de David Neves, em que atua como o tio da personagem-título; e Mulher, um dos mais raros da mostra, em que foi responsável pela fotografia.

Os curtas são outro ponto alto. Como lembra Rafael Ciccarini, entre 1936 e 1964 o cineasta mineiro trabalhou no Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE), órgão do governo para o qual dirigiu mais de 500 documentários sobre os mais diversos temas, como cidades históricas, música erudita brasileira, grandes vultos, capitais, educação rural, fauna e flora brasileiras etc. “O interessante é que, mesmo trabalhando para o governo, os vídeos não ficavam com aquele tom oficial, tinham muita qualidade. E um dos principais e mais conhecidos é A velha a fiar (1964), que é quase um primórdio do videoclipe”, destaca o curador.

Além da exibição dos filmes, o público vai poder refletir sobre a obra e discutir o papel decisivo de Humberto Mauro na história do cinema brasileiro. A programação traz palestras com a pesquisadora Sheila Schvarzman, autora do livro Humberto Mauro e as imagens do Brasil, e com o poeta e escritor Ronaldo Werneck, que foi amigo do cineasta e escreveu vários artigos e livros sobre ele. Outros estudiosos e conhecedores da trajetória do cineasta mineiro participarão de debates e sessões comentadas, entre eles os críticos Inácio Araújo e Ewerton Belico, os pesquisadores Hernani Heffner, Paulo Augusto Gomes, Luís Alberto Rocha Melo e Ataídes Braga, a produtora Alice Gonzaga e o cineasta Geraldo Veloso.

Todos os longas exibidos terão pelo menos uma sessão comentada. Nos dias 5, 6 e 7 de junho, um curso com o professor e pesquisador Eduardo Morettin, autor do livro Humberto Mauro, cinema, história, permitirá ao público interessado mergulhar ainda mais no universo do diretor. O encerramento da mostra levará ao Grande Teatro a obra-prima de Humberto Mauro, Ganga bruta, nos dias 10 e 11 de junho. A trilha sonora será executada ao vivo pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Na ocasião, será prestada homenagem ao jornalista e crítico Cyro Siqueira, que morreu este ano.

Divulgação/Cine Humberto Mauro
'O descobrimento do Brasil', de 1937 (foto: Divulgação/Cine Humberto Mauro)
 

Três perguntas para...

Rafael Ciccarini
curador da mostra

Qual a importância de Humberto Mauro para o cinema brasileiro?
Humberto Mauro sempre teve um respeito distante do nosso cinema. O Glauber retomou um pouco isso e escreveu uma frase sobre ele que acho genial: “Esquecer Humberto Mauro hoje – e antes não se voltar constantemente sobre sua obra como única e poderosa expressão do Cinema Novo no Brasil – é tentativa suicida de partir do zero para um futuro de experiências estéreis e desligadas das fontes vivas de nosso povo, triste e faminto, numa paisagem exuberante”. Mauro foi não importante só historicamente, mas também esteticamente. Ganga bruta, por exemplo, é um filme que dialoga em pé de igualdade com os grandes filmes dos anos 1930. É uma obra-prima.

Por que ele ficou tão esquecido?
Isso é um problema do cinema brasileiro. Muitas questões que estamos debatendo em torno do nosso cinema hoje teriam melhores maneiras e formas de lidar se tivéssemos um conhecimento maior dele e de nossa história. Temos que conhecer melhor para seguir adiante. Do contrário, ficamos girando. Boa parte da obra do Mauro está perdida, o que é típico do cinema do Brasil – e 90% estão perdidos para sempre. Custamos a ter uma política de preservação, a ter noção de que isso era importante.

Foi complicado reunir todo o acervo para a mostra?
Até que conseguimos sem grandes dificuldades. A família foi muito solícita. Mas o problema do cinema brasileiro é que o acervo é sempre muito pulverizado. Uma parte dos filmes está num canto, a outra está em outro canto. É sempre assim. Por incrível que pareça, é mais complexo realizar uma mostra de cineasta nacional do que de um diretor estrangeiro.
 
Arquivo
'Ganga bruta', de 1933 (foto: Arquivo)
 
 
PROGRAMAÇÃO

» Quinta-feira
19h45 – Brasa dormida (1928), sessão comentada pela professora e historiadora Sheila Schvarzman
22h – Ganga bruta (1933)

» Sexta-feira
17h – Tesouro perdido (1927)
19h30 – Abertura oficial, com exibição de obra criada a partir da edição de diferentes filmes do cineasta, com execução de trilha sonora ao vivo por Gilberto Mauro, em parceria com Ricardo Garcia.

» Sábado
14h – Curtas-metragens
16h – Palestra: “Humberto Mauro documentarista”, por Sheila Schvarzman, historiadora.
18h – O canto da saudade (1952), sessão comentada pelo crítico Inácio Araújo
20h15 – Debate com Inácio Araújo, Sheila Schvarzman, Geraldo Veloso (cineasta) e Rafael Ciccarini (curador da mostra)

» Domingo
16h – Sangue mineiro (1930)
18h – Curtas-metragens
20h – Lábios sem beijos (1930)

Programação completa: www.fcs.mg.gov.br
 
Assista ao curta 'A velha a fiar', dirigido por Humberto Mauro em 1964:
 

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