Cine Humberto Mauro exibe filme sobre romancista mineiro França Júnior

Dirigido por Denis Curi, documentário resgata a importância da obra do romancista mineiro

por Carlos Herculano Lopes 17/05/2014 00:13

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Branca de Paula/Divulgação
França Júnior estreou na literatura em 1965 depois de ter sido cassado pela ditadura militar (foto: Branca de Paula/Divulgação)
Imortalizado com o romance Jorge, um brasileiro, que venceu o Prêmio Walmap em 1967, o mais importante do Brasil à época, Oswaldo França Júnior (1936-1989) ganha documentário sobre sua vida e obra, dirigido por Denis Curi. O lançamento será hoje, às 14h, no Cine Humberto Mauro, do Palácio das Artes. A produção de 45 minutos tem trilha do compositor Andersen Viana e recupera momentos marcantes da trajetória do escritor, a partir de depoimentos de amigos, colegas de profissão e estudiosos de sua literatura. França Júnior foi um dos mais lidos novelistas brasileiros dos anos 1960 aos 1980.

Embora não tenha conhecido Oswaldo França Júnior, Denis Curi conta que desde a adolescência, quando leu Jorge, um brasileiro, foi um admirador da obra do escritor. “Em certa época, tive muita vontade de filmar Os dois irmãos ou À procura de motivos, que considero livros geniais. Mas como não foi possível, acabei optando por fazer o vídeo, com o qual pretendo ajudar a manter viva a memória do escritor”, diz Curi. O documentário teve como assistente de direção o jornalista Geraldo Elísio Lopes.

Logo no início do filme, que foi rodado em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, o cineasta Paulo Thiago analisa a relação de França Júnior com o cinema. O diretor, que levou Jorge, um brasileiro às telas em 1988, conta que o escritor não interferiu no roteiro, que foi escrito por Alcione Araújo, deixando-o à vontade para realizar sua adaptação. Tendo como atores Carlos Alberto Riccelli e Glória Pires, o filme é até hoje o maior sucesso do diretor e foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas em todo o país.

“França Júnior ajudou muito”, lembra Paulo Thiago sobre a realização do longa-metragem. Para sua mulher, a produtora Gláucia Camargos, o romancista era uma pessoa muito peculiar. “Ele não gostava de atender telefone nem de ouvir música, mas era homem de personalidade extraordinária e um escritor como poucos que esse país já teve. Ter produzido Jorge, um brasileiro foi uma grande honra para mim. O Riccelli já afirmou várias vezes que interpretar o Jorge foi um dos momentos mais importantes de sua carreira”, lembra Gláucia.

No decorrer do documentário, que é intercalado com fotos antigas do escritor com a família e com colegas de literatura, além de cenas do filme e do seriado Carga pesada (também inspirado em Jorge, um brasileiro), podem ser acompanhados vários depoimentos de pessoas que conviveram com o escritor. Entre elas, Olavo Romano, presidente da Academia Mineira de Letras; o diretor de teatro Pedro Paulo Cava; e a professora de literatura Melânia Aguiar, que analisa a força literária da obra do romancista.

O filme tem ainda participação da empresária Márcia Nunes, dona do restaurante Dona Lucinha, em BH, onde existe ainda hoje o Cantinho do França; e também de oficiais que serviram com ele na Aeronáutica. Para Stênio Garcia, França Júnior tinha grande capacidade de captar pequenos detalhes do cotidiano e transformá-los em palavras. “Gostaria de ter convivido mais com ele”, diz o ator, que interpretou o papel de Bino em Carga pesada, na televisão.

O documentário de Denis Curi ajuda a resgatar em boa hora a memória e a obra de França Júnior, mas ganharia maior expressividade com a recuperação de falas do próprio escritor, disponíveis em arquivos e gravadas em vídeo. Atualmente, livros, documentos e fotografias de França Júnior integram o Acervo dos Escritores Mineiros, que fica na Faculdade de Letras da UFMG, no câmpus da Pampulha, com visitação aberta ao público e a pesquisadores.

De acordo com a filha do escritor, a psicóloga Jacira França, toda a obra do pai encontra-se na Editora Ediouro/Nova Fronteira. “Teoricamente, todos os livros deveriam estar em catálogo, mas alguns estão esgotados e estamos em negociação para reeditá-los em breve”, diz.


Escritor por talento e necessidade

Nascido no Serro, no Vale do Jequitinhonha, em 1936, Oswaldo França Júnior ficou órfão de pai quando ainda era criança. Depois do segundo casamento da mãe, a família veio para Belo Horizonte. Moraram também em Sete Lagoas e Lagoa Santa. Como sempre sonhou em voar, estudou na Escola de Preparação de Cadetes do Ar, em Barbacena, e, em seguida, na Escola da Aeronáutica, no Rio de Janeiro. Em 1958, já era cadete. No ano seguinte foi para Fortaleza, onde se especializou em aviação de combate. O golpe militar de 1964 o alcançou vivendo em Porto Alegre.

Como recusou, junto dos outros companheiros da Aeronáutica, a ordem para atacar o Palácio Piratini, na capital gaúcha, de onde o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, tentava comandar a resistência aos militares, França Júnior acabou sendo expulso das Forças Armadas, por subversão.

Sem a segurança da carreira militar, já casado e com filhos, nos primeiros tempos fora da caserna exerceu várias atividades para sobreviver e sustentar a família: teve carrinhos de pipoca, vendeu carros e trabalhou com imóveis.

Em 1965, com o incentivo de Rubem Braga, publicou O viúvo, com o qual deu início à carreira literária, que seria tragicamente interrompida quando, já romancista consagrado, morreu em acidente na BR-381, a Rodovia da Morte (então 262), próximo a João Monlevade, em 1989.

Para Paulo Thiago, a cassação de França Júnior pelos militares talvez tenha sido o único caso no mundo em que a vítima acabou se dando bem. “Foi a partir daí que começou a nascer o grande escritor”, avalia o cineasta.

• obras completas

» O viúvo – 1965
» Jorge, um brasileiro – 1967
» Um dia no Rio – 1969
» O homem de macacão – 1972
» A volta para Marilda – 1974
» Os dois irmãos – 1976
» As lembranças de Eliana – 1978
» Aqui e em outros lugares – 1980
» À procura de motivos – 1982
» O passo-bandeira (Uma história de aviadores) – 1984
» As laranjas iguais – 1985
» Recordações de amar em Cuba – 1986
» No fundo das águas – 1987
» De ouro e da Amazônia –1989


Oswaldo França Júnior, um vídeo
Lançamento do documentário de Denis Curi, hoje, às 14h, no Cine Humberto Mauro, do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro. Entrada franca.

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