Carla Camurati avalia os rumos do cinema brasileiro

Vinte anos depois da retomada da sétima arte no país, que tem como marco seu filme 'Carlota Joaquina - Princesa do Brazil', atriz agora é é produtora de 'Getúlio'

por Mariana Peixoto 11/05/2014 06:00

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Marcos de Paula/AE
"Eu me divirto com todas as artes, seja produzindo, dirigindo ou cuidando da gestão de um bem como o Teatro Municipal" - Carla Camurati, atriz e cineasta (foto: Marcos de Paula/AE)
Sem Embrafilme (extinta em 1990) e Lei do Audiovisual (criada em 1993), os primeiros anos da década de 1990 passaram, para a cinematografia nacional, quase em branco. Até mesmo os mais tradicionais festivais de cinema tiveram que se adaptar à quase inexistência de uma produção efetiva de filmes brasileiros. Gramado, até então um dos mais populares, abriu em 1992 sua programação para longas-metragens de origem latina. Nos três anos seguintes, todos os filmes vencedores eram estrangeiros. Pois nesse cenário nada animador, Carla Camurati, então uma atriz de prestígio no meio noveleiro, resolveu remar contra a corrente.

Ainda que seu filme de estreia, Carlota Joaquina – Princesa do Brazil, tenha chegado aos cinemas em janeiro 1995, quando já havia uma regulação para a produção cinematográfica, foram três longos anos para que ele ficasse pronto. Diretora estreante, ela largou tudo para se dedicar ao projeto. Hoje, duas décadas mais tarde, Carla define de forma singular o processo de produção. “Carlota foi filmado em sete semanas ao longo de oito meses, pois eu só conseguia trabalhar uma semana em cada mês.”

Bem, não foi realmente assim, mas também não muito diferente. O projeto teve início em 1992; no ano seguinte, foram realizadas as filmagens – primeiro, duas semanas, mais tarde, outras três e, no final, uma semana a cada mês –; e, em 1994, o filme foi montado. Vinte anos atrás, com pouco dinheiro e experiência, Carla se virou como podia. “Na realidade, o filme se reinventou dentro dele mesmo. Tudo era refeito”, conta ela. Filme-marco da chamada retomada do cinema nacional, Carlota Joaquina, que mostra a chegada da corte portuguesa no Brasil de maneira farsesca, levou 1,4 milhão de espectadores aos cinemas.

O longa-metragem, que tinha apenas 40 cópias e orçamento de R$ 600 mil, ficou em cartaz no país durante 11 meses. Era outro tempo, tanto por isso os números são tão diferentes dos atuais. Até agora, o filme mais visto no Brasil em 2014, Noé, blockbuster de orçamento de US$ 125 milhões, está na sétima semana em cartaz e o número de sessões vem diminuindo rapidamente. Não é uma questão de comparar, mas de mostrar o quanto o cinema mudou em 20 anos. “O mercado hoje é volátil e Carlota fez história porque atingiu um patamar que o cinema brasileiro não atingia há algum tempo. Hoje, o país olha mais para o audiovisual, o parque exibidor é muito maior, existe a agência reguladora da atividade (Ancine)”, comenta Carla.

Os processos de produção, distribuição e lançamento mudaram, mas há questões que permanecem. “Sempre acho que as pessoas se interessam pela história do nosso país. A experiência me diz isso, a vida mostrou que dá certo. E quando se traceja a história de um país, vendo o DNA do que ele veio a ser, compreendemos uma série de coisas”, afirma Carla. Ainda que o discurso possa ser utilizado para a sua experiência na direção de Carlota, ela está falando, aqui, de outro filme, Getúlio, dirigido pelo marido, João Jardim, e produzido pela Copacabana Filmes, empresa que a própria Carla fundou justamente na época em que estava dirigindo seu primeiro longa-metragem.

Em Belo Horizonte, Getúlio, que mostra os 19 dias que antecederam o suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto de 1954, entrou na segunda semana em cartaz com o mesmo número de salas da estreia. Resultado que espelha a boa acolhida que o filme vem tendo, mesmo lutando num esquema de Davi e Golias (estreou no mesmo dia que o blockbuster O espetacular Homem-Aranha 2). No primeiro fim de semana, foi visto por 155 mil pessoas. Carla só tem a comemorar. “Quando o filme acaba, ele está sendo muito aplaudido, acho que também pela dimensão que as pessoas estão tendo agora do que foi aquele momento para o Brasil. E a questão é que não se mergulha dramaturgicamente na história do Brasil.”

O fato de Getúlio estar caminhando bem na bilheteria é ainda mais aplaudido, porque o cinema brasileiro, nos últimos anos, vem sofrendo com a ditadura da comédia descartável. “Tanto diretores quanto produtores são vítimas de uma situação. O que se precisa entender é que para levantar uma atividade, você tem que fazer isso como um todo. Quando se fala na produção de cinema, seja o americano ou o indiano, que manipulam grandes quantidades de pessoas, fala-se numa indústria que investe em todos os gêneros. Você tem cinema-catástrofe, suspense, musical, drama, ou seja, há uma cartela enorme de possibilidades para o público. O que não se pode é determinar qual prateleira é que vai dar certo.” Por experiência própria, Carla sabe que isso realmente acontece. É só saber fazer.

“Nunca digo nunca”


Depois de Carlota Joaquina, Carla Camurati dirigiu outros três longas-metragens: La serva padrona (1999), o primeiro filme-ópera do país; Copacabana (2001), comédia dramática sobre o envelhecimento; e Irma Vap – O retorno (2006), comédia inspirada nos personagens do teatro. Há oito anos sem dirigir e mais de 10 sem atuar, Carla não volta tão cedo a essas atividades. Desde 2007, é presidente da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cargo em que permanece até o fim deste ano. Num futuro próximo, já tem convites para assumir atividades que também não têm relação com o cinema.

“O teatro é a parte que a gente mais vê, mas nos últimos sete anos assumi uma fundação que tem escola de balé e três corpos artísticos. Quando entrei, não só a parte física estava muito ruim (foi sob a administração de Carla que o Municipal sofreu sua ampla reforma e restauração), mas os salários defasados, contratos desatualizados. Então foi feito um trabalho de gestão grande e não dá para dirigir um filme fazendo tudo isso”, diz ela. Se a função de diretora não permite outras atividades, já como produtora a carga não é tão pesada.

Além de Getúlio, Carla, na Copacabana Filmes, produziu ou distribuiu filmes como Amor? e Janela da alma (ambos de João Jardim), Feminices (de Domingos Oliveira), entre outros. Ainda criou o Festival Internacional de Cinema Infantil (Fici), que no segundo semestre ganha sua 12ª edição. “Eu me divirto em todas as artes, seja produzindo, dirigindo ou cuidando da gestão de um bem como o Teatro Municipal. E quando falo em diversão, é no sentido do prazer mesmo, de dedicar seu tempo e sua vida a uma atividade.” Atriz que na década de 1980 teve seu momento de musa, Carla, aos 53 anos, fala que pode voltar a atuar. “Venho recebendo convites ao longo dos anos para atuar, mas eram coisas que me fariam parar de fazer atividades que eu tinha que continuar. Não tenho uma atitude de dizer nunca mais, não abandonei nada”, finaliza.

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