'Getúlio', que estreia nos cinemas, volta ao passado para questionar Brasil atual

O diretor João Jardim está convicto de que a história se repete

por Mariana Peixoto 01/05/2014 07:00

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Ana Stewart E Bruno Veiga/Divulgação - Arquivo EM/O Cruzeiro
Getúlio Vargas (Tony Ramos) e Gregório Fortunato (Thiago Justino): a fidelidade foi o estopim do escândalo político (foto: Ana Stewart E Bruno Veiga/Divulgação - Arquivo EM/O Cruzeiro)
Nada é por acaso. Assim que o longa-metragem 'Getúlio', de João Jardim, aproximou-se de sua finalização, foram oferecidas duas datas de lançamento. Em agosto, para coincidir com os 60 anos de morte do presidente brasileiro que mais tempo ficou no poder, ou agora, antes de o Brasil “parar” por causa da Copa do Mundo. Jardim imaginou que 24 de agosto – dia da morte do líder gaúcho – seria muito perto das eleições presidenciais, “o que poderia polarizar as discussões”. Definiu-se 1º de maio, data que não é meramente circunstancial. Foi durante a Era Vargas (1930/1945) que Getúlio fez do Dia do Trabalhado seu grande palanque, fazendo com que a aura de protesto desse lugar à celebração.

Até então mais conhecido como documentarista – codirigiu os celebrados 'Janela da alma' (2001, com Walter Carvalho) e 'Lixo extraordinário' (2010, com Lucy Walker e Karen Harley) –, Jardim queria que sua estreia na ficção histórica abordasse a formação do Brasil “até chegar àquilo que a gente é hoje.” O lado documentarista o fez chegar aos 19 últimos dias de vida de Getúlio Vargas (1882-1954), recriados no filme que estreia hoje em 200 salas do país. Decidido o tema, Jardim fiou-se no cinema propriamente dito.

“Gosto de fazer cinema. Com ator ou sem, a construção de um filme obedece a regras dramatúrgicas que me interessam. Aqueles 19 dias eram muito cinematográficos”, explica o diretor, que levou sete anos entre a concepção e o lançamento de 'Getúlio'.

A partir do famoso atentado da Rua Tonelero, em 5 de agosto de 1954 – que feriu o grande inimigo político de Vargas, o jornalista Carlos Lacerda (Alexandre Borges), e matou o major Rubens Vaz –, até o tiro no peito no Palácio do Catete, que fez Vargas “sair da vida e entrar para a história”, Jardim busca reconstituir, passo a passo, os bastidores do poder.

“A gente sempre acha que quem está no poder é quem manda. Mas a pessoa depende de outras para mandar, e essa discussão acaba sendo contemporânea”, comenta o cineasta, sem querer dar nomes aos bois. Jardim esperou um ano para que Tony Ramos estivesse disponível para encarnar o estadista – o ator o fez com fidelidade, mas também com personalidade própria.

Desvinculado dos acontecimentos passados (se é que isso é possível), o espectador pode assistir a 'Getúlio' como um bom thriller político (exemplo raro na cinematografia brasileira) misturado a boa dose de drama pessoal. Praticamente entrincheirado no Catete, Getúlio assiste, quase sempre em silêncio, à sua carreira política ruir a partir de uma série de erros que jamais assumiu. O bode expiatório é Gregório Fortunato (Thiago Justino), o Anjo Negro, chefe de sua guarda pessoal, que entrou para a história como o mandante do atentado. Em meio a isso há a traição do irmão, Benjamim Vargas (Fernando Luís), e a pressão oposicionista pela renúncia. Na intimidade, o presidente contava com o apoio da filha Alzira (Drica Moraes, a melhor interpretação do filme), seu braço direito, e as dores de cabeça provocadas pelo filho Lutero (Marcelo Médici).

Sob outro olhar, 'Getúlio' também agrada pela fidelidade à época. Filmado dentro do Catete, traz alguns preciosismos. O revólver foi o mesmo com o qual Getúlio se matou. O pijama é idêntico, qualquer visita ao museu carioca vai comprovar. Até o colchão é aquele em que o corpo foi encontrado (para filmar a cena fatídica, Tony Ramos se sentou bem no lugar onde está a mancha de sangue). O elenco, bem escolhido, deixa o protagonista brilhar onde lhe é devido. Tony Ramos usou uma roupa que o engordou 30 quilos – a preparação diária lhe consumia duas horas e 15 minutos. Michel Bercovitch, com semblante parecido ao de Tancredo Neves, teve que raspar a cabeça para saber se seria ou não aceito para interpretar o fiel escudeiro do presidente.

O maior acerto de João Jardim foi não dar respostas prontas. Não há didatismo em 'Getúlio', e o cineasta se permitiu certa liberdade. Exemplos claros disso estão na cena em que Alzira amarra os sapatos do pai (diz-se que ele não conseguia fazer isso sozinho, mas não há registro de tal imagem) e quando ela, a pessoa mais próxima a Getúlio, foi a primeira a chegar ao quarto depois do tiro fatal (na realidade, não foi Alzira quem entrou ali logo depois do suicídio). Sonhos do presidente acabam simbolizando as relações mantidas por ele, principalmente a permissividade com relação a Gregório Fortunato.

Por fim, a famosa carta-testamento, como muitos livros didáticos descrevem, é apresentada como um documento de resistência, escrita por um homem consciente de que poderia ser assassinado ou deposto a qualquer momento.

“Se fosse uma carta-testamento mesmo, como a família não teria sido avisada?”, questiona Jardim. O diretor espera que seu filme traga uma reflexão sobre o país. “O Brasil tem uma história que se repete. O que aconteceu foi há 60 anos, e pode continuar a ocorrer se não entendermos como se dão os processos de governar o país”, conclui.

Líder cercado de mistérios

Autor do romance biográfico Getúlio (Record), publicado há 10 anos, o escritor, jornalista e professor gaúcho Juremir Machado afirma que talvez nunca seja esclarecido um dos grandes mistérios sobre a trajetória do estadista gacúcho: quem teria efetivamente sido o mandante do atentado na Rua Tonelero.

“Não há uma resposta definitiva. É muito provável que tenha sido o Bejo Vargas (Benjamim, irmão de Getúlio) ou então o Lutero (filho do ex-presidente). Esse último tinha motivos, mas não personalidade para tal. Já o Bejo tinha a personalidade, mas não os motivos”, comenta.

As pesquisas de Machado se valeram de três perspectivas: documentação histórica em arquivos, jornais da época e os remanescentes, como Alcino João do Nascimento, pistoleiro contratado para o atentado, e Ingeborg ten Haeff, artista plástica alemã que se casou com Lutero durante a Segunda Guerra Mundial.

Para o autor, Gregório Fortunato se tornou bode expiatório pela fidelidade ao presidente. “Gregório aparece como um personagem sempre manipulado por alguém. Fiel a Getúlio, não era uma pessoa com ideias próprias. Acabou realmente com poder, talvez tenha se corrompido um pouco, mas não tinha estatuto intelectual para tomar decisão importante”, acredita.

Para Juremir Machado, o mais importante é entender como Getúlio Vargas decidiu se suicidar dentro de um palácio cheio de gente. Sobre a carta-testamento, o escritor acredita que apenas o bilhete inicial, encontrado com Getúlio ainda vivo e levado a Alzira, foi escrito pelo presidente (o texto é iniciado com “Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte”).

“Maciel (Filho), o escriba dele, redigiu primeiro um discurso que Getúlio pretendia ler em 12 de agosto de 1954, na inauguração da Mannesmann, em Minas. Queria um texto forte, mostrando que o presidente era capaz de qualquer sacrifício. Quando foi se aproximando o final de agosto, Getúlio, muito preocupado, pediu-lhe que aquele discurso fosse transformado em outro. O bilhete e o discurso fizeram a carta, que tem diferentes versões. Uma foi encontrada na mesinha de cabeceira dele, a outra num cofre. São diferentes, mas a essência é a mesma”, afirma Juremir.

Ambígua, aquela carta serviria para qualquer situação. “Mas só o bilhete é dele. ‘Saio da vida para entrar para a história’ é obra do Maciel com o espírito do Getúlio”, conclui o escritor. 

Assista ao trailer de 'Getúlio':

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