Cinebiografia do estilista francês Yves Saint Laurent estreia em BH

Personagem volta às telas em breve no novo filme de Bertrand Bonello

por Mariana Peixoto 24/04/2014 07:48

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Paris Filmes/Divulgação
O ator francês Pierre Niney, aos 21 anos, impressiona pela semelhança com o jovem Saint Laurent (foto: Paris Filmes/Divulgação)
O que há por baixo de tecidos raros, cortes impecáveis, acabamento perfeito? Abuso de drogas e álcool, reações intempestivas, relações passionais e uma obsessão desmedida pela perfeição. Mas a genialidade sobrevive a tudo isso. Esse é o retrato que o ator e cineasta francês Jalil Lespert fez de Yves Saint Laurent no longa-metragem homônimo que estreia nesta quinta-feira no Brasil. Morto em 2008, o estilista, que durante décadas foi uma instituição no mundo da moda, ganha também neste ano uma segunda cinebiografia, Saint Laurent, de Bertrand Bonello.

As agulhadas do mundo da moda estão afiadas. O filme de Lespert, dizem seus detratores, seria a versão chapa-branca, já que teve a participação de Pierre Bergé, companheiro de vida e de trabalho de Yves Saint Laurent, cofundador da maison YSL – o projeto de Bonello, em fase de finalização, teria sido rechaçado pelo empresário. Lespert, que esteve no Rio de Janeiro no início deste mês apresentando seu filme no Festival Varilux de Cinema Francês, desvencilhou-se de qualquer polêmica: “Não houve qualquer interferência (de Bergé). Tentei mostrar todo e qualquer aspecto da personalidade dele, seus altos e baixos”, afirmou em entrevista ao Estado de Minas.

Até mesmo os maledicentes hão de concordar que a união de Bergé permitiu a Lespert um dos principais trunfos de Yves Saint Laurent. Foi emprestado ao diretor todo o figurino original – não há nenhuma cópia em cena. O cineasta ainda pôde filmar no próprio estúdio do estilista. A beleza plástica conseguida nas sequências de desfiles e provas de roupas é um dos pontos altos do longa-metragem. O outro é a interpretação do casal central. Aos 21 anos, Pierre Niney encarna à perfeição o estilista, com semelhança física impressionante. Tímido e vaidoso em igual medida, o YSL de Niney consegue atingir tais nuances, incluindo tiques nervosos e tons de fala. Já Bergé coube a um ator experiente da Comédie Française, Guillaume Gallienne, que o interpreta com respeito e emoção.

Yves Saint Laurent dedica-se, basicamente, a pouco mais de duas das sete décadas de vida do estilista, a partir do momento em que ele se torna assistente de Christian Dior, no final dos anos 1950. Com a morte de Dior, torna-se diretor criativo da grife e, já unido a Bergé, acaba fundando sua própria maison de alta-costura. Dos desfiles e das coleções memoráveis – da criação do smoking feminino, dos vestidos inspirados na obra de Mondrian, na inspiração marroquina, no estímulo ao prêt-à-porter – intercala-se uma vida pessoal conflituosa. Bergé é extremamente possessivo (os dois se separaram em 1976, mas mantiveram a sociedade até o fim da vida do estilista) para com amigos e amantes de Saint Laurent. Com crises pessoais que chegam a levá-lo a uma internação psiquiátrica, o estilista se liberta das pressões por meio do álcool e de drogas. A narrativa vai até o final dos anos 1970, início dos 1980.

Ainda que a intenção de Lespert tenha sido mostrar as diversas nuances do gênio criativo, boa parte de seu filme fica restrita à doentia relação do casal central. Não é um retrato bonito. A beleza, por si só, reside nas roupas, que não são passíveis de novas leituras. Já a pessoa Yves Saint Laurent merece muitas mais. Que venha a próxima.



Múltiplos olhares

Em 1º de outubro, estreia na França a segunda cinebiografia de YSL. Saint Laurent, de Bertrand Bonello (L'Apollonide – Os amores da casa de tolerância, 2011, e O pornógrafo, 2001), conta com elenco de estrelas do cinema francês. Gaspard Ulliel interpretará o personagem-título; Louis Garrel será Jacques de Bascher, o amante de Karl Lagerfeld por quem Saint Laurent se apaixona; e Léa Seydoux (a menina do cabelo azul de Azul é a cor mais quente) viverá Loulou de la Falaise, a musa, grande amiga e colaboradora de Saint Laurent.

O estilista nascido na Argélia já ganhou vários documentários, o mais recente deles O louco amor de Yves Saint Laurent (Pierre Thoretton, 2010), que mostra a relação do estilista com Bergé a partir de longo depoimento concedido pelo companheiro e empresário. Há produções mais antigas, como Celebration (Olivier Meyrou, de 2007), Yves Saint Laurent – Le temps retrouvé e Yves Saint Laurent 5 Avenue Marceau, ambos de David Teboul, lançados em 2002.

Antes de YSL, foi Coco Chanel a ganhar cinebiografias quase simultâneas. Em abril de 2009, foi lançado na França Coco antes de Chanel, filme de Anne Fontaine que remonta toda a trajetória da estilista, com Audrey Tautou no papel-título. Em maio do mesmo ano houve a première, no Festival de Cannes, de Coco Chanel & Igor Stravinsky, dirigido por Jan Kounen, cuja narrativa era centrada no relacionamento de Chanel com o compositor russo.



três perguntas para...

JALIL LESPERT
ATOR E DIRETOR FRANCÊS, 37 ANOS

Qual foi a participação de Pierre Bergé no filme?

Antes de começar a filmar, mandei para ele o roteiro já pronto. Não queria que ele trabalhasse comigo antes disso. Mas desde o começo ele soube que este seria o meu filme, com a minha própria interpretação da história. Não sei dizer por que, mas desde o primeiro encontro Bergé confiou em mim. Depois dos primeiros 20 minutos de conversa ele deu o OK. Mais tarde, cheguei a pensar que ele poderia odiar o filme. Mas se isso ocorresse, ele iria me dizer, porque Bergé é preto no branco. Hoje é um senhor com 83, 84 anos e acho que ele não liga mais para o que as pessoas pensam dele.

Como foi filmar os vestidos originais de YSL?

Não há sequer um que não seja original. Não poderia pensar em copiar, pois é praticamente impossível, ainda mais porque muitos materiais não existem mais. Tive bastante sorte porque Bergé abriu completamente as portas da Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent. O pessoal do departamento de conservação escolheu os vestidos certos de cada coleção. Se você me dissesse dois anos atrás que eu me emocionaria com um vestido, diria a você: ‘Qual é, isso é apenas um vestido’. Mas mostrar aquelas roupas uma vez mais, colocar luz nas modelos, foi muito forte tanto para mim quanto para o pessoal que trabalha na fundação. Para as modelos/atrizes, foi muito difícil. Tinham que ficar duas horas sem sentar, tomar água e ir ao banheiro e ainda usando um material por baixo da roupa, pois não queriam que a pele tivesse contato com o tecido. A preparação foi terrível, mas o resultado, mágico.

Como você se sentiu quando soube do filme de Bertrand Bonello?

Estava trabalhando no roteiro quando soube. Tenho que dizer que no começo fiquei muito surpreso e decepcionado. Conheço muito bem o diretor, a mulher dele foi minha diretora de fotografia (Josée Deshaies, que assinou a fotografia de Des vents contraires, 2011, e 24 mesures, 2007, longas anteriores de Lespert). Eles nem sequer me telefonaram para contar, era uma coisa simples de sair para tomar um café. Mas as pessoas fazem o que querem. Estou curioso para ver. Afinal é Yves Saint Laurent. Claro que haverá outros filmes sobre ele, existe uma série de documentários, livros. Mas acredito que as duas cinebiografias serão bem diferentes.

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