'Faroeste' narra a trajetória do bandoleiro Luís Garcia

Filmes de bangue-bangue são mais comuns do que se imagina no Brasil

por Agência Estado 23/04/2014 09:33

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(foto: Divulgação)
Botas com esporas, chapéu e casaco pretos, cartucheiras e revólver no coldre. Nas primeiras imagens, Luís Garcia surge em fragmentos, até caminhar rumo a um espelho, levantar o rosto e nos permitir ver sua face. Como ele será definido mais adiante, "Luís tem bigode mirandeiro, com as pontas viradas para cima. E é zarolho". A peculiaridade de seu visual só não é maior que a do próprio Faroeste, primeiro longa-metragem de Abelardo de Carvalho, cineasta nascido em Minas Gerais e radicado no Rio de Janeiro.

O filme, inédito no circuito, foi visto pela reportagem do jornal O Estado de S.Paulo a convite da produção. O título entrega o universo no qual se articula, mas é apenas o primeiro passo de um projeto mais ambicioso: mesclar, nas paisagens do Centro-Oeste mineiro, o imaginário de um gênero "americano por excelência" (como escreveu o francês André Bazin nos anos 1950) à memória mítica de uma figura real e controversa que por lá viveu entre o fim do século 19 e o começo do século 20.

"Luís Garcia é o personagem mais complexo a ser lembrado na região", conta Abelardo de Carvalho, nascido há 50 anos em Iguatama, pequeno município de 8 mil habitantes e distante 258 km de Belo Horizonte. Nas mesmas redondezas também nasceu o próprio Garcia, assassinado na cidade vizinha de Pains, aos 33 anos, em 1917. "Sempre me fascinou o quanto ele não foi uma figura linear. Envolveu-se com a Igreja e era um bandoleiro, trafegou entre o bem e o mal, enfrentou a religião e morreu como um santo, de pé, pendurado numa árvore", diz. Quando adolescente em Iguatama, Abelardo começou a se enveredar pela trajetória do fazendeiro que profanava túmulos de ciganos em busca de ouro e que pode ter matado dezenas de pessoas antes de ser pego numa emboscada ainda obscura e relacionada a cobiça, ciúme e vingança. "É a história da crise mística de um personagem", resume o diretor.

A vida de Garcia e outros relatos históricos do Centro-Oeste de Minas estão no romance Bestiário, escrito por Abelardo e publicado em 2002. O livro serviu de base para o próprio autor no roteiro de Faroeste - mas ele conta ter se inspirado ainda no fascínio pelas matinês de cinema de sua infância e nas infindáveis sessões de bangue-bangue na televisão. "Nos anos 1970, a gente via muito Tarzan e western na minha cidade, toda cercada por esse ambiente rural, pela roça, pelas fazendas. Quando fui fazer o filme, a ideia de rodar um faroeste foi natural. Apesar de ter me mudado para o Rio quando jovem, é o ambiente que conheço melhor."

A nostalgia de Abelardo impregnou não só o visual do longa (com referências dentro e fora do bangue-bangue, como Sergio Leone, Sergio Corbucci e David Lean, e algo da literatura de Miguel de Cervantes e seu Dom Quixote), mas também a edição sonora, totalmente montada na pós-produção. O procedimento incluiu dublar todos os atores com vozes reconhecíveis de filmes exibidos na TV. O protagonista, interpretado por Wladimir Winter tem a voz de Márcio Seixas, dublador oficial de Clint Eastwood no Brasil; o comandante que o persegue, encarnado no corpo de Ivanir Avelar, fala por Orlando Drummond, voz do sargento Garcia no antigo seriado do Zorro. “Os westerns, para mim e muitos da minha geração, só eram vistos dentro de casa, falados em português e com essas vozes. Eu quis dar esse aspecto ao filme”, diz Carvalho.

A realização de Faroeste foi capitaneada por Cavi Borges e sua produtora Cavideo, onipresente no cinema independente dos últimos anos no Brasil. Sem apoio de editais ou leis de incentivo, o orçamento de R$ 200 mil pareceu tão irrisório quanto milagroso. “Com pouco dinheiro, precisamos tomar medidas para que o custo baixo não transparecesse na tela. Afinal, é um filme de época, com cenas de cavalo, tiro, muitas paisagens e figurinos”, conta o diretor.

A fotografia de Vinicius Brum, por exemplo, utilizou essencialmente luz natural, velas, lampiões e fogueiras, dando aspecto rústico e misterioso às cenas tanto externas quanto de interiores. O longa foi rodado em junho de 2012 nas regiões de Pains e Serra da Canastra, com partes em Barra do Piraí (RJ). Mobilizou 200 pessoas em 40 locações, teve apoio irrestrito de moradores de Pains (vários participaram como atores) e ajuda financeira e logística da prefeitura. Para retribuir, a primeiríssima exibição pública de Faroeste aconteceu num telão no parque de exposições da cidade, no último da 5 de abril, com a presença de 3 mil pessoas. Ainda sem data de estreia nos cinemas, o filme já foi adquirido pelo Canal Brasil.

Pesquisador registra 103 westerns feitos no Brasil


O filme de Abelardo de Carvalho pode até parecer uma raridade, mas bangue-bangues brasileiros são mais tradicionais do que boa parte do público sabe. É o que o pesquisador Rodrigo Pereira vai mostrar no livro Faroeste Caboclo: Filmes de Cangaço e Westerns Made in Brazil, previsto para 2015. Há mais de uma década, Rodrigo radiografa a historiografia do cinema brasileiro em busca de filmes do gênero, chamados por ele de "westerns feijoada". Conseguiu levantar 103 títulos exibidos em circuito comercial a partir de 1917, quando o primeiro bangue-bangue tupiniquim, Dioguinho, de Guelfo Andaló, chegou às telas. O número deve aumentar para 104 se Faroeste for lançado ainda este ano, juntando-se a clássicos como Rogo a Deus e Mando Bala (1972), Gringo, o Último Matador (1972) e Da Terra Nasce o Ódio (1954).

"O ápice da produção se deu entre 1953 e 1983. Nesse tempo, em todos os anos, pelo menos um western feijoada foi exibido nos cinemas, sendo que tivemos dez em 1972 e oito em 1969", conta Rodrigo. O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, é o grande marco do gênero no país e já reunia as características que permeiam as buscas do pesquisador. "Defini o faroeste como o Bem contra o Mal numa terra em vias de se tornar civilizada, num mundo quase moderno, com estradas em construção, linhas férreas e a presença de armas de fogo. Ser ambientado nos EUA não é um critério, até porque sempre houve filmes do gênero que se passavam em outros países", comenta. "Nossos filmes de cangaço, por exemplo, têm a ação no Nordeste e se enquadram na categoria de faroestes."

O autor identifica no filme de Abelardo de Carvalho a essência de um western autêntico e brasileiro. "Estão lá os conflitos do personagem com a autoridade estabelecida, num outro tempo e sob outras leis." Para Rodrigo, Faroeste, ao abordar a vida e a morte de Luís Garcia com atmosfera de lenda, soma-se a dramas biográficos de grandes bandidos do imaginário rural brasileiro, como foram Dioguinho (1917), Lampião Rei do Cangaço (1964) e Corisco & Dadá (1996), entre outros.

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