Tony Ramos vive Getúlio Vargas no cinemas em filme de João Jardim

Experiente, ator ainda vibra com personagens inesperados como o do presidente

por Mariana Peixoto 16/04/2014 08:35

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Walter Carvalho/Divulgação
Para interpretar Getúlio, Tony Ramos passava por longas sessões de preparação física, mas o maior desafio foi entender o silêncio do presidente (foto: Walter Carvalho/Divulgação)
São Paulo – Em 24 de agosto de 1954, o menino observava a avó materna preparar o bolo de seu sexto aniversário, que seria completado no dia seguinte. Até que uma notícia ouvida no rádio a fez parar. Alguém havia morrido. “Quem morreu, vovó?”, perguntou. “O presidente do Brasil”, ela respondeu. E o menino começou a chorar. Sessenta anos mais tarde, esse mesmo garoto, hoje um senhor de quase 66, encarna o tal presidente com propriedade e respeito. “Sei quem foi Getúlio. Nacionalista, homem extremado, um ditador que foi, contraditoriamente, eleito pelas mãos do povo. Que adorava Schopenhauer, mas que ao mesmo tempo era simples. Era um político no palco, mas não no cotidiano”, afirma Tony Ramos, protagonista de 'Getúlio', primeiro longa-metragem de ficção de João Jardim, que estreia em todo o país em 1º de maio.

Vargas governou o Brasil durante dois períodos: o primeiro foi 1930 a 1945, dos quais os sete últimos anos corresponderam à ditadura do Estado Novo. E o segundo de 1951 até o fatídico 24 de agosto de 1954, quando voltou ao poder por meio do voto popular e tirou a própria vida com um tiro no coração. É na fase final, do atentado contra o jornalista Carlos Lacerda até a morte de Vargas, que se concentra a ação da história, quase toda filmada no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. “Os silêncios que habitam esse homem durante 19 dias. Essa é a história do filme”, comenta o ator, que está completando 50 anos de carreira. “Vinte e nove de junho (de 1964), está na minha carteira profissional”, continua ele, que na televisão começou sua trajetória fazendo esquetes no programa Novos em foco, da TV Tupi.

Quase 70 produções para a TV (entre novelas, minisséries e especiais), 16 filmes e oito espetáculos teatrais mais tarde, Tony Ramos ainda se surpreende. “Quando acontece um personagem como Getúlio, de uma maneira absolutamente inesperada, você sente que está num marco divisório.” O atual personagem é o segundo desses marcos; Riobaldo Tatarana, de Grande sertão: veredas (1985), o primeiro. João Jardim, documentarista premiado por Lixo extraordinário (2010) e Janela da alma (2001), levou sete anos da concepção até o lançamento de Getúlio. Um deles foi de espera por Tony Ramos, então envolvido com as gravações da novela Guerra dos sexos (2012). Para encarnar Getúlio, eram duas horas de preparação diária, cabelo cortado, enchimento (como uma segunda pele) para ganhar os muitos quilos extras. Tudo sem reclamar e como se tivesse começado ontem. “Não tenho olhar blasé com nada, não suporto a soberba”, afirma Tony Ramos em entrevista ao Estado de Minas, realizada depois da sessão para a imprensa de Getúlio.



Marco
“Tenho os marcos divisores do percurso de um rio. Você tem o começo da carreira, que tem gente que diz que não conta. Conta sim, ai de você se não prestar atenção naquilo que começou, estás passando pela vida sem olhá-la. Houve os erros, a bobeirinha... E há os grandes sucessos na minha vida. O astro, Antônio Maria, Nino, o italianinho. Há uma trajetória enorme até que vem Grande sertão: veredas. Lembro-me que o (Walter) Avancini falava: ‘Tem que ser você.’ Mas por que eu? ‘Porque você está lá dentro’, ele disse. O ‘lá dentro’ é quem entende a alma de cada personagem. Só percebi isso depois, quando a série foi para o ar.”

Rebu
“Esse cabelo que você está vendo (maior) é para O rebu. Começamos a gravar em 22 de abril. Esqueça O rebu de Ziembinski (que interpretou o protagonista, Conrad Mahler, na versão original da novela de Bráulio Pedroso, que foi ao ar entre 1974 e 1975). A história traz dois grandes donos de empreiteiras. Um é a Patrícia Pillar, que faz a Ângela Mahler. Ela perde o marido num acidente de helicóptero e tem que assumir a empresa. Ela tem um sócio, o meu personagem. Só que pinta um dossiê e nem eu sei o final disso. Trouxeram os 128 capítulos para 40. Então, quem viu durante seis meses vai assistir a um terço disso.”

Segunda pele
“Sabia que ia ser chato usar todo dia uma sobrepele sobre um corpinho peludo. Chamei minha mulher e disse: ‘Pega essa máquina dois e desbasta (o pelo das costas)’. E quando aquilo foi sendo feito, fui vivenciando a personagem. Depois vem o maquiador e corta o cabelo. Cortou-se o cabelo não curtinho, mas seguindo a escala de cabelo do próprio Getúlio. Ele não era calvo, tinha muitas entradas, então começou a trabalhar fio a fio. Essa artesania era feita todas as manhãs, durante duas horas e 15 minutos. Chegava a cochilar na cadeira. Tinha que chegar (no set) às 6h30 para começar a rodar às 9h. Uma coisa é ter um personagem e mergulhar com ele junto com diretor e escritor. Outra coisa é quando você consegue de alguma forma entender o silêncio. Nesses momentos de silêncio já tinha a convicção de que era o silêncio daquele homem.”

Inquietação
“Você tem que entender que é aquela cama, aquele revólver, aquela mesa de cabeceira, o pé-direito de mais de três metros (no Palácio do Catete)... Quando o diretor diz: ‘Tony, o momento é seu. Quando for conveniente, dê o sinal para o Waltinho (Carvalho) rodar e operar a câmera.’ É um momento de grandeza absoluta, mas ao mesmo tempo você não pode reverenciar isso, tem que agir naturalmente. Quando falam em Shakespeare, tem aqueles que dizem ‘não toca nele!’. Para com isso, velho, Shakespeare se fazia até em boteco, só que o texto é grandioso. Eu vou na história. O que está escrito me inquieta? A comédia também me inquieta, claro que sim, mas não todas. Se eu fosse você foi uma escola para mim. (O personagem) não tinha que ter um olhar de biba, de travestida, mas uma alma feminina. Enfim, cada filme, cada ideia tem que vir precedido da famosa verdade da alma.”

Cultura popular
“Não tive crise aos 30, 40, 50, 60, muito menos agora, que vou fazer 66 anos. Não tenho nem tempo para isso. A reflexão básica que faço é cotidiana. Tenho que fazer o melhor possível para quem me assiste, errando ou acertando. Tenho uma alegria, que você não pode saber o tamanho, de encontrar uma pessoa na rua. No dia em que o Wilker faleceu, eu estava filmando no Grajaú (o último comercial para a Friboi) e se aproximou uma senhora de 92 anos, que me abraçou. Ela disse: ‘Que pena que o seu colega se foi. Vocês são muito importantes para a minha vida, pois preenchem muitos momentos dela.’ Qual é o preço disso? Arte, conheço todas elas. A erudição do teatro, das artes plásticas, são bem-vindas, mas temos que saber que a arte é também popular. E é a cultura popular que move tudo. Evidentemente, minha reflexão está em saber escolher um produto que possa me causar inquietação.”

A repórter viajou a convite da Copacabana Filmes

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