O sofrimento das protagonistas de Lars Von Trier

Atrizes que encabeçam filmes do cineasta, como em 'Ninfomaníaca', são conhecidas por serem alvos certos de humilhação

por Julio Cavani 17/03/2014 10:14

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Divulgação
Charlotte Gainsbourg em 'Ninfomaníaca' (foto: Divulgação)
Mulheres que sofrem são sempre as protagonistas dos filmes de Lars Von Trier. Pelo menos desde 'Ondas do destino' (1996), o cineasta dinamarquês tem torturado e humilhado suas heroínas em obras como 'Dançando no escuro' (2000), 'Dogville' (2003) e 'Melancolia' (2011). No novo 'Ninfomaníaca: Volume 2', agora em cartaz nos cinemas, esse sadismo ganha continuidade.

Em cada contexto, há razões diferentes para todo esse castigo contra elas. Em 'Dançando no escuro', a personagem interpretada por Björk pode ser considerada uma coitada, injustiçada, frágil e incapaz de lutar contras as injustiças. Em 'Ninfomaníaca', a protagonista vivida por Charlotte Gainsbourg procura a dor física deliberadamente, por livre e espontânea vontade.

Em 'Anticristo' (2009), a mesma atriz personifica a entidade maligna apontada no título. Já as duas irmãs de 'Melancolia' temem o fim do mundo por causa de um fenômeno astrológico, mas são machucadas também pelos valores morais da sociedade.

Como a motivação da violência parte de diferentes origens, portanto, não é possível acusar o diretor de estar contra elas. Suas mulheres podem ser tanto algozes quanto vítimas. “Toda vez que uma mulher é protagonista de um filme, ela leva seus ideais até o fim”, justificou o cineasta ao explicar por que não costuma adotar homens como personagens principais.

“Sempre tenho mais dificuldade quando dirijo mulheres. As atrizes às vezes me olham como se fossem minha mãe”, comentou Von Trier em uma entrevista, em uma declaração que sugere raízes edipianas em sua postura.

Nicole Kidman chegou a se recusar a participar de 'Manderlay' (sequência de 'Dogville' lançada em 2005) por ter se sentido maltratada pelo diretor, mas a verdade é que seus filmes costumam proporcionar reconhecimento a quem trabalha com ele. Três atrizes já foram premiadas no Festival de Cannes por atuações em filmes de Von Trier: Björk ('Dançando no escuro'), Charlotte Gainsbourg ('Anticristo') e Kirsten Dunst ('Melancolia'). Emily Watson foi indicada ao Oscar por 'Ondas do destino', trabalho que a revelou para o mundo.

Sofredoras
Mulheres criadas (e torturadas) por Lars Von Trier

  
Bess (Emily Watson)
'Ondas do destino' (1996)

Selma (Björk)
'Dançando no escuro' (2000)
 
Grace (Nicole Kidman)
'Dogville' (2003)

Ela (Charlotte Gainsbourg)
'Anticristo' (2009)
 
Justine (Kirsten Dunst)
'Melancolia' (2011)

Joe (Charlotte Gainsbourg)
'Ninfomaníaca' (2013)

Opiniões

"Eu já vi chamarem Lars de misantropo. Nunca achei isso. Não é porque ele nos remete a temas como machismo, sexismo e misoginia que ele é necessariamente assim. Penso que Lars fala sobre as mazelas humanas sob a ótica feminina. No caso de Ninfomaníaca, eu achei bem interessante o fato de a personagem ser uma mulher viciada em sexo. No filme, a mulher que sofre com o seu vício, porém é livre. Em Melancolia, o surto da mulher no dia do casamento também me diz muito. Na verdade, ela surta porque quer se ver livre daquela convenção social"
Mariana Bahia
(advogada, feminista, autora do blog Ela Fala Demais)

"Parece-me ingênuo acreditar que ao fazer uso de mulheres como protagonistas de seus filmes, Von Trier esteja buscando entender o universo feminino. O que o diretor quer é uma estetização do perverso, utilizando as mulheres como figuras de alteridade. E ele consegue manipular o olhar do espectador com isso. A perversão faz parte de nosso imaginário e move o desejo humano. A cultura impõe limites a esse desejo. Fetiche, masoquismo, sadismo e voyeurismo são manifestações naturais do ser humano e o cinema nos reapresenta a perversão de forma livre.”
Alice Gouveia
(cineasta e coordenadora do projeto Olhares sobre Lilith)

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