Nova direção do Belas Artes tenta resgatar público do cinema de rua sob tutela de Helvécio Ratton

Nova administração anuncia reforma e modernização do espaço, além da construção de novas salas em imóvel vizinho, sempre com filmes independentes e de arte

por Walter Sebastião 16/03/2014 08:39

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Beto Novaes/EM/D.A Press
Novo responsável pelo Belas Artes, Adhemar Oliveira convidou o cineasta Helvécio Ratton (dir) para assumir a função de captar sentimento do público que gosta de cinema (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
Há 20 anos, num espaço alugado do Diretório Central dos Estudantes da UFMG, na Rua Gonçalves Dias quase esquina com Rua da Bahia, surgia um cinema diferente: o Belas Artes. Depois de mais de uma década como efervescente ponto cultural, o local passou a enfrentar dificuldades econômicas, o que prejudicou a manutenção da infraestrutura.

 

Situação que se agravou nos últimos anos, fazendo, inclusive, que o fantasma do fim das atividades rondasse o único cinema de rua de Belo Horizonte. A casa agora passa a integrar a rede Espaço, dirigida por Adhemar Oliveira, o mais importante grupo do Brasil (114 salas) dedicado ao cinema independente e de arte.

A conversa sobre a incorporação do Belas Artes à rede Espaço, como conta Adhemar, começou há dois anos, quando ele tomou conhecimento, por intermédio de Pedro Olivotto, da situação difícil que vivia o Belas Artes. A falta de patrocínio somava-se à necessidade de modernização e manutenção, criando conjuntura desafiadora. “Conhecia o local, sabia que era o único ponto comercial do cinema alternativo em Belo Horizonte e me interessei”, recorda.

 

"Distribuindo filmes, vendo onde eles chegam e onde não chegam, fica sempre a vontade de levá-los a lugares onde não estão sendo mostrados”, conta. “Cinema é igreja. A fé é grande, mas se a igreja for próxima a gente vai rezar mais vezes”, brinca.

Como Adhemar Oliveira vinha mantendo contato com Helvécio Ratton (ele vai lançar 'O segredo dos diamantes', novo longa do mineiro), trouxe o cineasta para ser o diretor artístico do Belas Artes. Com a função de "ser a alma" do local, alguém para captar "o sentimento da cidade com acuidade artística, política e cívica", observa.

 

“Topei porque vi que corria o risco de fechar um cinema onde o público sempre encontra filmes de qualidade, que tem localização espetacular: é próximo à Praça da Liberdade, região que está se formando importante conjunto cultural”, observa Ratton. “E, depois, é ação que vem de rede que tem compromisso com o cinema brasileiro”, acrescenta.

A dupla identifica três prioridades. A primeira é a modernização e reforma do local, implantando melhores condições tanto de projeção – que vai ser digitalizada – quanto troca de cadeiras. Em 30 dias, garantem, o público já vai sentir a diferença. “Apesar de todas as limitações, temos público fiel, que vem pouco ao Belas Artes por não encontrar no local a qualidade e conforto que procura. Vamos mudar essa situação”, diz Ratton.

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Localizado na Rua Gonçalves Dias, quase esquina com Bahia, o Belas Artes põe filmes de arte e independentes em cartaz há cerca de 20 anos (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
Outro ponto da agenda de trabalho é a ampliação do local, com criação de duas novas salas em imóvel vizinho ao Belas Artes, já com projeto arquitetônico – de Fernando Maculan e Mariza Machado Coelho – em andamento. O sonho é inaugurar as novas salas até o final do ano, mas antes tem que se buscar patrocínio. O terceiro compromisso é ampliar a integração com a cidade.

“É nossa proposta abrir o Belas Artes ainda mais para a comunidade”, avisa Helvécio Ratton. E, para tanto, serão desenvolvidos projetos voltados para ampliação e formação de público. A programação vai continuar antenada com os independentes, o cinema brasileiro e filmes que, apesar de bom potencial de público, não estão chegando a Belo Horizonte. E define: “cults, clássicos e brincadeiras”. A Espaço comprou direitos de exibição de 'Fome de viver', de Tony Scott, estrelado por David Bowie (e Catherine Deneuve), obras de Hitchcock ('Os pássaros' e 'Um corpo que cai'), filmes de Orson Welles e do Monty Python.

• POR QUE O CINEMA DE RUA FAZ A DIFERENÇA?

 

Adhemar Oliveira: “Há 30 anos brigo pelo cinema de rua. Se é uma sala ativa não há motivo para ela ser jogada fora, mesmo considerando as comodidades que oferecem os shoppings. Esses cinemas prestam um serviço enorme à rua, à cidade, dão vida aos bairros. Rio de Janeiro e São Paulo têm, inclusive, estímulos para eles, como redução do IPTU ou isenção do ISS. A movimentação que promovem nas redondezas, gerando várias outras atividades, tem repercussão inclusive econômica, que é muito maior do que o imposto cobrado. É uma pena que os cinema de rua no Brasil sejam poucos.”

Helvécio Ratton: “Cresci vendo cinema de rua. Sempre gostei de parar, ver os cartazes ou o filme que está sendo exibido. Cinema de rua é parte da paisagem urbana, está integrado à vida da cidade e é local que proporciona uma relação do cidadão com o cinema. Tem charme que nada substitui. Em Belo Horizonte, eles acabaram também pela falta de apoio do poder público. Acho que essa situação deveria ser mudada.”

 

Beto Novaes/EM/D.A Press
(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
O exibidor e o cineasta

Adhemar Oliveira tem 58 anos, é diretor e criador, com Patrícia Durães, da rede Espaço (Cine Art, Cine Espaço e Espaço Itaú) que coloca o sistema multiplex – várias salas num único local – a serviço do cinema independente e de arte. Além da exibição, é marca do grupo a realização de projetos educativos, como o Clube do professor e Escola no cinema. “A conquista do nosso mercado é a conquista do nosso público. O ideal, no Brasil, é que cada cidade tenha uma sala de cinema”, defende. Adhemar é contra apresentar o cinema comercial e o alternativo como antagônicos: “O fast food não elimina o restaurante”, argumenta.

“Todo filme brasileiro tem direito de ser exposto. Se fica ou não em cartaz, quem decide é o público”, propõe Adhemar, frisando que qualidade não está associada a número de espectadores. O exibidor, na opinião dele, deve ter estratégias diferentes para os distintos tipos de produção, trabalhando para que as várias estéticas encontrem o público. Adhemar anda seduzido pelos documentários brasileiros: “Posso não conseguir mantê-los em quatro salas, mas tenho bons resultados exibindo em uma”.

Helvécio Ratton tem 64 anos, é diretor e produtor nascido em Divinópolis. Depois de exílio no Chile, devido à ditadura militar, voltou ao Brasil e estudou psicologia. Associou-se ao Grupo Novo de Cinema, dirigindo e produzindo filmes. Seu longa de estreia, A dança dos bonecos (1986), foi premiado em Brasília, em Gramado e em festivais na Itália, na Alemanha e em Portugal. São dele filmes como Batismo de sangue (2006), O mineiro e o queijo (2011) e Pequenas histórias (2007). Está finalizando O segredo dos diamantes.

“Aceitei ser diretor artístico do Belas Artes porque considero um cinema importante para Belo Horizonte. Ele é uma ilha de bom cinema num mar de blockbusters”, afirma Ratton. “Depois de ver uma a uma as salas de rua fechando, precisamos reverter o processo. Modernizando, ampliando, atendendo à demanda de público que é enorme. A prova é que, apesar das limitações, o público continua frequentando e interessado no que está sendo mostrado no Belas Artes”, conclui.

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