Nova versão de Robocop tem impacto modesto nas bilheterias americanas

O diretor José Padilha ainda acredita em bons resultados

por Yale Gontijo 10/03/2014 09:30

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REUTERS/Fred Prouser
(foto: REUTERS/Fred Prouser )
O diretor José Padilha está desarmado. O responsável por uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro no período pós-retomada, com 'Tropa de Elite 1 e 2', pode não estar encontrando a veia do sucesso de público apresentando a nova personificação do policial do futuro, o Robocop. O filme policial tocado por uma equipe de brasileiros — Padilha é o diretor, Lula Carvalho fez a fotografia e Daniel Rezende foi o responsável pela montagem — ainda não disparou nas bilheterias. Nesta primeira incursão em Hollywood, o cineasta de 46 anos tentou quebrar alguns dos paradigmas dos filmes remakes, continuações ou estrelados por heróis superequipados. “É um filme em que o protagonista só é apresentado depois de 11 minutos e tem um vilão nada caricato. Além disso, discutimos política externa norte-americana por meio da autorização do uso de drones dentro e fora dos Estados Unidos”, ressaltou.

E, segundo Padilha, foi ele próprio a sugerir o tom político do filme. “Se politizamos demais o filme, você pode afastar as audiências de direita. As pessoas que apostam no filme precisam saber se o filme vai render. Consegui fazer o filme político como eu queria, embora não tivesse o controle total. Os estúdios subestimam o público. O público está se mostrando mais inteligente. Por sorte, havia um filme complexo que poderia ser feito”, explicou. Na película estrelada por Michael Keaton, Joel Kinnaman, Gary Oldman e Samuel L. Jackson, a dúvida do Congresso estadunidense é se deve ser aprovado ou não o uso de robôs especializados no combate à violência e a quantidade de sentimentos humanos podem ser inseridos em uma máquina. No meio deste imbróglio congressista, a consciência do policial Alex Murphy, ferido em uma explosão, é inserida dentro de um corpo artificial.

“Sou paciente”

As razões para o tropeção do policial-robô nas bilheterias de casa foram apontadas pelo próprio diretor. “Nós estreamos durante a grande nevasca, exatamente no Dia dos Namorados (nos EUA a data é comemorada em 14 de fevereiro). Quer dizer, não é um filme que atraia casais apaixonados”, comentou. “Mas eu aprendi a ser paciente e esperar os resultados. Em Tropa de elite, eu fui chamado de gênio, depois de fascista, depois eu não era mais fascista e por aí vai… O importante é esperar”, reconheceu durante coletiva de imprensa de lançamento do filme.

Porém, as expectativas em relação ao sucesso numérico do remake de Robocop até o momento não se confirmaram. Em dados obtidos antes do carnaval, o filme de Padilha havia arrecadado US$ 188 milhões. Desse total, apenas US$ 52 milhões foram angariados dentro do território norte-americano.

Os números transmitem uma sensação diferente do frisson causado pelos dois filmes Tropa de elite. O primeiro deles, lançado em 2007, teve os números de bilheteria atrapalhados pela alta taxa de distribuição pirata a que foi submetida a fita vencedora do Festival de Berlim. Já o segundo longa da franquia, Tropa de elite: o inimigo agora é outro, foi visto por 10 milhões de pessoas em 2010. É a maior bilheteria do cinema brasileiro.

O futuro de Padilha

Ainda sem certeza do que fazer no futuro, o diretor brasileiro pensava em se dividir em dois projetos. Um já teve a produção divulgada e deverá ser uma série policial feita especialmente para o Netflix. Narco deverá ter 13 episódios e narrará a vida do chefe do tráfico, Pablo Escobar. O ator fetiche de Padilha, Wagner Moura, terá de encenar diálogos em espanhol e inglês para viver o papel do colombiano.

O segundo projeto do diretor é um roteiro antigo em que ele vem trabalhando há anos. A história deve se centrar em segurança pública na tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. “Eu desenvolvi o roteiro há três anos, antes de Robocop. Escrevi ao lado de Nick Schenk, roteirista de Gran Torino (Clint Eastwood) sobre três personagens. Um brasileiro que trabalha como formiguinha, um agente de narcóticos norte-americano. E uma personagem feminina do Mossad de Israel que está lá para investigar uma célula do Hezbollah. A ideia é apresentar a rota da droga entrando no Brasil pela Ponte da Amizade e sendo pulverizada no mercado. Tentaremos mostrar que o custo humano e material para o Estado seria muito menor se simplesmente a fronteira fosse controlada. Mas não sei quando será filmado”, adiantou. Este não é o único projeto inacabado. O diretor espera as definições do sistema judiciário brasileiro para tocar um projeto sobre o mensalão.

Oscar

Padilha é o único brasileiro a poder votar como membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além dele, havia o cineasta Eduardo Coutinho, assassinado em 2 de fevereiro. Escolhido pela Academia devido ao sucesso como documentarista, Padilha diz que estar do lado de quem vota o fez entender muito mais os processos da premiação da indústria. Porém, para a entrega da cerimônia feita no último domingo, o voto do brasileiro não foi depositado na urna. “Na minha casa em Los Angeles, foram entregues cerca de 200 DVDs de filmes. Coloque duas horas de duração em cada um deles e você vai perceber que é humanamente impossível assistir a tudo. Pensei em escolher apenas os melhores para assistir. Mas, como eu conseguiria eleger os melhores? A única maneira de um filme emplacar na disputa é pela campanha de marketing feita por seus produtores. Por isso, ela é tão importante. Eu já estava começando a divulgação de Robocop e optei por não fazer o meu voto”, confessou.

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