Morre Alain Resnais, um dos diretores mais criativos do cinema contemporâneo

Pioneiro da nouvelle vague, o francês influenciou várias gerações de colegas, entre eles Glauber Rocha

por Carolina Braga 03/03/2014 00:13

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Yves Herman/Reuters
Allain Resnais aplaudido depois de apresentar 'Você ainda não viu nada!' no Festival de Cannes, em 2012 (foto: Yves Herman/Reuters)
Um dos nomes mais importantes da nouvelle vague, o movimento francês que renovou o cinema mundial partir do final da década de 1950, o diretor Alain Resnais morreu sábado, aos 91 anos, em Paris. O anúncio foi feito por Jean Louis-Livi, produtor dos três últimos filmes do artista. Apesar da idade avançada, Resnais continuava em atividade. Com Hiroshima, meu amor (1959) e O ano passado em Marienbad (1961), ele influenciou várias gerações de colegas. Seu último longa, Aimer, boire et chanter, ainda sem título oficial em português, foi exibido no mês passado no 64º Festival de Berlim, na Alemanha. O longa levou o Prêmio Alfred Bauer, entregue pelo júri internacional. Coube ao ator André Dussollier receber o Urso de Prata em nome de Resnais. O ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, lamentou a morte do diretor. “Era um grande talento, conhecido mundialmente”, declarou. Guilles Jacob, presidente honorário do Festival de Cannes, citou uma frase de Resnais para se despedir dele: “Fazer filmes é bom, mas ver filmes é muito melhor”. O ator Pierre Arditi classificou Resnais como artista completo, “one man band”. E completou: “Era um homem de maturidade extraordinária e grande cultura”. Juventude Em 2012, às vésperas de completar 90 anos, Resnais foi definido pela crítica Danièle Heymann como o autor mais jovem do cinema francês. A inquietação dos tempos da nouvelle vague permanecia. Na época, ele exibia Vous n’avez encore rien vu (Vocês ainda não viram nada!) no Festival de Cannes. Resnais convocou importantes atores de seu país – Sabine Azéma e Mathieu Amalric, entre outros – para o longa sobre a reencenação de Eurídice. Nessa trama, um agente anuncia a artistas a morte do diretor Antoine d’Anthac, com quem eles haviam encenado a peça em diferentes épocas. A trupe se reúne na mansão de Anthac para assistir a um videotestamento: outra montagem de Eurídice, apresentada por atores na casa dos 20 anos. Uma espécie de testamento do próprio Resnais, Você não viu nada traz fascinante reflexão sobre a morte e a passagem do tempo. O recente Aimer, boire et chanter dialoga também com esses temas. O filme conta a história de casais dedicados ao teatro amador que ensaiam uma peça. As três mulheres – interpretadas por Sabine Azema, Sandrine Kiberlain e Caroline Silhol – estão interessadas no personagem George, que nunca aparece. Só se sabe que ele está doente e tem pouco tempo de vida.
Arquivo EM
Os atores Emanuelle Riva e Eiji Okada em cena de 'Hiroshima meu amor' (foto: Arquivo EM)
Criada por críticos de cinema que resolveram aplicar a teoria à prática, a nouvelle vague revolucionou a cultura a partir dos anos 1960, influenciando várias gerações de diretores, atores e profissionais dedicados à reflexão sobre a sétima arte. Inovações técnicas e temáticas marcam o legado dos diretores Alain Resnais, François Truffaut (1932-1984), Jean-Luc Godard (1930), Eric Rohmer (1920-2010) e Claude Chabrol (1930-2010), entre outros. Todos eles escreviam na famosa revista Cahiers du Cinéma, sob a liderança do respeitado André Bazin. Contestando a estética convencional em voga nos anos 1950, os jovens franceses apostaram na transgressão e no chamado cinema de autor. O diretor, tal qual o pintor, se viu livre para usar a câmera como um pincel. Surgiram narrativas não convencionais, maneiras inusitadas de movimentar a câmera. Formas inovadoras de montagem conferiam novos sentidos às tramas. Personagens ganharam sensualidade jamais vista nas telas. Ao padrão Hollywood e ao cinema comercial francês foram contrapostos assassinos em fuga, triângulos amorosos, cenas de nudez interpretadas por atores pouco conhecidos. Jean Seberg, Jean-Paul Belmondo, Anna Karina e Brigitte Bardot se tornaram ícones das telas graças à nouvelle vague Entre os marcos da %u201CNova Onda%u201D estão os filmes Nas garras do vício, de Claude Chabrol; Acossado, de Godard; Os incompreendidos, de Truffaut; e Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais. Glauber Resnais e seus companheiros influenciaram fortemente os brasileiros. %u201CUma câmera na mão e uma ideia na cabeça%u201D %u2013 lema de Glauber Rocha e do Cinema Novo %u2013 é uma espécie de adaptação verde-amarela da nouvelle vague. Essa influência, aliás, não se limitou às telas. Jules e Jim, filme de François Truffaut de 1962, causou forte impacto sobre os jovens Milton Nascimento e Márcio Borges, compositores que poucos anos mais tarde revolucionariam a MPB com o Clube da Esquina. Em 1960, Glauber Rocha publicou crítica sobre Hiroshima... no jornal baiano Diário de Notícias. %u201CAlain Resnais não faz apenas um filme de ideias, ou mesmo um filme que é um ensaio do mais importante drama de nosso tempo, como também sublevou a forma cinematográfica e inaugurou o filme moderno, no sentido paralelo às outras artes, como pintura, poesia e música, cada vez mais distantes das formas narrativas do passado%u201D, escreveu o cineasta brasileiro. (Com agências) Saiba mais Estreia aos 13 Alain Pierre Marie Jean Georges Resnais nasceu em 3 de junho de 1922, em Vannes, a 450 quilômetros de Paris. Aos 13 anos, ele dirigiu o primeiro curta-metragem, L%u2019aventure de Guy. O cineasta deixou mais de 50 filmes. Hiroshima, meu amor foi o primeiro longa-metragem de ficção de sua carreira. Baseado em texto da escritora Marguerite Duras, o filme oferece uma reflexão poética sobre a bomba atômica. ntre os trabalhos mais conhecidos de Resnais estão A guerra acabou (1966), Providence (1977), Smoking e no smoking (1993) e Ervas daninhas (2009). A guerra foi retratada diversas vezes pelas lentes do diretor, cujo olhar político é sempre temperado com poesia. • Principais filmes » Aimer, boire et chanter (2014) » Vocês ainda não viram nada! (2012) » Ervas daninhas (2009) » Medos privados em lugares públicos (2006) » Na boca, não (2003) » Amores parisienses (1997) » Smoking e no smoking (1993) » I want to go home (1989) » Melô (1986) » Morrer de amor (1984) » A vida é um romance (1983) » Meu tio da América (1980) » Providence (1977) » Stavisky... (1974) » Eu te amo, eu te amo (1968) » A guerra acabou (1966) » Muriel (1963) » O ano passado em Marienbad (1961) » Hiroshima meu amor (1959)

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