Atores que viveram ídolos nacionais no cinema falam sobre a experiência

Atores que levaram para as telas personagens reais falam da experiência de conviver com o imaginário do público. Depois de Gonzaguinha, Júlio Andrade vai ser Paulo Coelho no cinema

por Ana Clara Brant 16/11/2013 00:13

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Gui Maia/Divulgação
Júlio Andrade no papel de Paulo Coelho no filme "Não pare na pista" (foto: Gui Maia/Divulgação)
Júlio é Gonzaguinha ou Gonzaguinha é Júlio? Thiago é Renato ou Renato é Thiago? E Larissa é Maysa, ou seria o contrário? Quando um ator interpreta um personagem, ele mergulha a fundo e muitas vezes chega a ser confundido com o papel. Quando vive uma figura que realmente existiu, aí a linha é ainda mais tênue. “No filme Não pare na pista (cinebiografia de Paulo Coelho), tinha que ser o Paulo, mas ao mesmo tempo tinha que ser eu mesmo. No caso do Gonzaguinha foi a mesma coisa. O grande desafio é não cair no estereótipo da imitação e acho que consegui isso com os dois trabalhos”, declara o ator Júlio Andrade, que já virou expert em viver personagens reais. “E ainda fiz o Raul Seixas no especial Por toda a minha vida, da TV Globo. Acho que minha cota desses papéis já está boa, né?”, brinca.

Apesar de ter trilhado um bom caminho antes de encarnar esses personagens, foi a partir deles que Júlio se tornou conhecido do público. O mesmo ocorreu com Thiago Mendonça, que deu vida ao sertanejo Luciano em 2 filhos de Francisco. O ator carioca não temeu ficar estigmatizado pelo papel e reconhece a projeção que a interpretação deu à sua carreira. “Em todos os trabalhos me dedico de corpo e alma e cada experiência tem a sua importância. Claro que o Luciano foi algo fantástico, porque foi visto por milhões de pessoas. Mas não tive medo de ficar marcado por ele. E, anos depois, surgiu o Renato Russo, que veio me redimir. Mostrou que sou capaz de ser personagens completamente diferentes. O público já consegue enxergar o ator ali”, analisa Thiago, que viveu o líder do Legião Urbana no filme Somos tão jovens.


Larissa Maciel, que despontou na minissérie Maysa na pele da cantora protagonista, também assegura que nunca teve receio de ficar marcada pelo carisma da deusa da fossa. Em todos os papéis que interpreta, assim que grava a última cena chega a ter o que considera um período de “luto”, mas depois se sente pronta para outro desafio. “Todo ator deseja ter a oportunidade de interpretar alguém que se torna inesquecível, e Maysa foi assim. Não convivo com os personagens depois que um trabalho acaba. Quando tem um novo no ar, as atenções do público se voltam para ele. As pessoas na rua querem saber o que vai acontecer, torcem, dão lição de moral. Maysa, felizmente, continua viva na lembrança de muita gente e adoro isso. Ficaria muito triste se ninguém mais se lembrasse. Sempre que alguém me aborda para comentar como gosta do meu trabalho e cita a minissérie, sinto a sensação de dever cumprido”, revela a atriz, que está grávida do primeiro filho.


A gaúcha relembra que para a Maysa “nascer” foram necessários seis meses de trabalho diário, com vários profissionais, entre eles uma especialista em composição de personagem, uma fonoaudióloga e uma professora de canto e performance. O fato de ter 11 anos de carreira quando fez a minissérie global foi fundamental para que tivesse a maturidade e a experiência necessárias para realizar um trabalho tão complexo. “Representar uma personagem real me levou a descobrir possibilidades que talvez não experimentasse como atriz na ficção. Tinha que fazer o público acreditar que eu era a Maysa, alguém que conheciam e de quem se lembravam. Não há espaço para se acomodar e não ir a fundo na composição. Convencer como um personagem que ninguém tem parâmetros para comparar é muito diferente. Ter essa experiência foi um presente”, celebra Larissa.


Júlio Andrade destaca que não costuma compor e nem construir personagem, e que sua criação vai muito em cima do “fluxo e da intuição”. Entretanto, no caso dos tipos inspirados em pessoas reais, tem que seguir alguns registros inevitáveis. Com Gonzaguinha, o ator gaúcho diz que foi um processo bem solitário e que o fato de ser fã do cantor e compositor facilitou na hora de interpretá-lo. “No personagem ficcional você tem mais liberdade para criar. Mas nos reais não. No caso do Gonzaguinha, as pessoas conheciam o jeito dele, já tinham uma imagem formada. E quando o encarnei, facilitou o fato de eu ter um timbre parecido, já cantava muita música dele, e mesmo assim vi muitos vídeos e entrevistas. Lembro-me que quando o Breno Silveira (diretor de Gonzaga – De pai pra filho) me viu, falou que eu já estava preparado e nem precisava fazer o teste”, recorda.

Cobranças Já em Não pare na pista, previsto para estrear em 2014, em que interpreta o escritor Paulo Coelho, Júlio comenta que a preparação foi diferente, até porque vive o mago a partir dos 30 anos, um pouco antes de ele se tornar famoso. Chegou a passar três dias o observando em Genebra, na Suíça, onde Paulo mora, e se aprofundou em sua obra. “O Paulo Coelho que estamos acostumados já é mais velho, depois dos 50 anos. Não tem muito registro dele no período que começo a fazê-lo, lá pelos 30. Tive essa liberdade de não me preocupar tanto com os trejeitos e o modo de ser e de falar. Foi uma experiência diferente interpretar uma pessoa que ainda está viva. Ele chegou a me ver maquiado e ficou impressionado”, conta Júlio, cujo irmão, Ravel Andrade, vive o escritor na adolescência.


Já Thiago Mendonça, que também teve dupla experiência de interpretar personagens reais no cinema, acredita que eles são praticamente composições coletivas, especialmente os famosos, já que agregam muito sentimento em torno de si, sejam de amigos, familiares ou admiradores. No entanto, faz questão de estar aberto a essas impressões e acredita que elas também ajudam na hora de criar.


Para Thiago, esse tipo de trabalho é uma faca de dois gumes, já que ao mesmo tempo em que facilita ter o relato de quem conviveu com o personagem e ter acesso a materiais como vídeos e entrevistas, abre espaço para a cobrança em ficar o mais parecido possível com a figura real. “Existe essa imagem formada na cabeça das pessoas e se não for parecido com o que elas conhecem acaba desacreditando um pouco. Quero mais é exercitar meu ofício”, sintetiza o ator, que está escalado para a próxima novela de Manoel Carlos, Em família.

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