Boom do cinema em PE é fruto de insistência de cineastas por independência narrativa

Profissionais da área valorizam o coletivo e ainda pressionam por recursos

por Gracie Santos 28/10/2013 06:00

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 Vitrine Filmes/Divulgação
'O som ao redor', de Kléber Mendonça, soma quase 95 mil espectadores (foto: Vitrine Filmes/Divulgação)
“Pernambuco tem 10 letras e nenhuma é repetida”, brinca o cineasta Lírio Ferreira para falar da pluralidade do cinema feito em seu estado. Quantidade também é característica da produção local, como contabiliza o pesquisador e crítico André Dib, no site Cinema Pernambucano (www.cinemapernambucano. com.br): “Apenas nos 10 anos deste início de século foram realizados mais filmes do que nos 100 anos anteriores”. Organização é a marca dos realizadores, que além do site que avaliza, cataloga e divulga sua arte, unem-se para garantir conquistas (agora, por exemplo, estão na cola do governador Eduardo Campos para que ele transforme em lei o edital do Funcultura, que este ano destinou ao setor R$ 33,5 milhões – R$ 11,5 milhões ao audiovisual). Se a primeira geração dos criadores é formada em jornalismo, hoje há cursos de cinema na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e em faculdade particular, reflexo da produção regional. A categoria negocia atualmente com o estado, como conta o diretor Cláudio Assis, direcionamento do curso técnico de cinema, de forma que atenda as leis de mercado: “Num momento é preciso formar produtores, noutro técnicos de som e por aí vai...”

No quesito qualidade, basta contabilizar prêmios acumulados pelas obras de forte traço autoral. A longa lista tem entre os mais recentes o Kikito de filme para 'Tatuagem', de Hilton Lacerda, em Gramado 2013, além de cinco troféus no Festival do Rio 2013 (inclusive o de público); o prêmio de direção para Marcelo Gomes (em parceria com o mineiro Cao Guimarães) para 'O homem das multidões', no mesmo Festival do Rio. Tem ainda o arrasa-quarteirão 'O som ao redor', de Kléber Mendonça Filho, para Pedro Butcher, editor do site da Filme B, empresa de análise e pesquisa de mercado cinematográfico, “a produção brasileira de maior repercussão internacional dos últimos tempos”. O longa, que estreou em Roterdã, Holanda (onde faturou prêmio da crítica), ano passado, acumulou em 2012 prêmios de melhor filme nos festivais do Rio, Gramado (também de som e de crítica), Polônia, Copenhague e Sérvia, entre outros.

Adeus ciclos

Que ninguém pense que esse boom vivido pelo cinema pernambucano vai ficar na história como mais um ciclo (houve o Ciclo do Recife, dos anos 1920 aos 1930, e o Ciclo do Super 8, nos anos 1970). Desta vez, eles vieram para ficar e proliferar. Envolvido com o novo filme que roda em março, 'Big Jato', adaptação de livro de Chico Sá, “um roadmovie que mostra como todo mundo é igual por meio de relatos de personagens que Sá conheceu do sertão do Ceará até chegar no Recife”, Cláudio Assis conta que os cineastas da região se cansaram dessa história de ciclos. “Nosso cinema dá certo porque não queremos copiar ninguém, não temos preocupação em criar uma lógica. E muitas vezes fazemos trabalhos uns com os outros”, afirma, lembrando-se de que tudo começou com 'Baile perfurmado', de 1996 (de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, este paraibano radicado no Recife), “que deu visibilidade à produção do estado e teve ainda o peso do casamento com o manguebeat (com Mestre Ambrósio, Nação Zumbi, Mundo Livre SA e Chico Science), que explodia naquele momento”. Além de sua geração e de outras que vieram, Cláudio Assis assegura que já existe “gente que ainda nem conhecemos”.

Geografia

Favorece a originalidade da produção, para Lírio Ferreira, o fato de o Recife ser cidade portuária. “Muita coisa passa por aqui, sempre tivemos contato com o que vem de fora, tem a miscigenação e havia os ideais revolucionários, temos um caldeirão que todo mundo vê e tem vontade de ficar”, analisa, contando que eles correram atrás e o que era dificuldade virou outro caminho. “O trabalho começou a ter visibilidade e a qualidade dos filmes colocou Pernambuco na geografia do Brasil. Tiveram que abraçar nossa proposta, o diálogo franco com todas as classes”, afirma. Ano que vem, Lírio lança 'Sangue azul', rodado em Fernando de Noronha, com Daniel de Oliveira no elenco, “e a invasão de vários atores mineiros”.

Pressão

Necessário voltar no tempo para mostrar como tudo começou. Afinal, quando foi rodar 'Amarelo manga' (de 2003, premiado em Brasília, Toulouse/França, Miami e Fortaleza), Cláudio Assis conseguiu do governo estadual a bagatela de R$ 2,7 mil (em três parcelas). “Eles não estão nos ajudando hoje porque são bonzinhos, foi uma conquista nossa, graças a muita insistência, produção e pressão”, afirma Hilton Lacerda, roteirista do filme de Assis.

Ainda hoje, Hilton Lacerda se emociona quando se lembra da exibição fora do estado de 'Baile perfumado' (Candango de melhor filme no Festival de Brasília de 1996). “Esse filme tinha essa missão, de ser o pioneiro de uma geração inteira. Foi muito impactante. As pessoas aguardavam com carinho, mas acho que não esperavam o que viram. 'Baile...' estabeleceu a palavra desse outro eixo de olhar. Inventamos uma forma de produzir. Não ficou um filme pela metade. Nossa produção não é pretensiosa financeiramente, mas tem pretensões narrativas. Tem ainda o espírito de equipe e conseguimos isso, conciliar forma de produção e narrativa.”

Bom é rever os créditos do filme sobre Lampião e constatar que começava a nascer ali uma nova “máfia” do cinema, a pernambucana. Lírio Ferreira e Paulo Caldas dividiram o roteiro com Hilton Lacerda, que foi assistente de direção com Adelina Pontual; Cláudio Assis assumiu a direção de produção, enquanto Marcelo Gomes a assistência de produção. Hilton se arrisca a dizer que “se 'Baile perfumado' não fosse rodado, talvez esse cinema feito em Pernambuco hoje não existisse”.

Desgarrado

O pernambucano Heitor Dhalia deixou o estado aos 23 anos. Foi para São Paulo trabalhar como publicitário, mas acabou se rendendo ao cinema. Com 'Cheiro do ralo', de 2006 (rodado em São Paulo, mas com certo sotaque desse cinema autoral pernambucano), faturou prêmios no Rio, São Paulo e Miami. Atualmente, está em cartaz com 'Serra Pelada', história do maior garimpo a céu aberto do mundo. “Dhalia é meu amigo, mas não participou desse movimento porque saiu do estado. Fui ator do curta 'Conceição' (1999), dele e de Renato Ciasca”, revela Cláudio Assis.

"Nossos produtores são nossos cúmplices. Não fazem ‘censura’ às ideias. E temos má educação, não servimos a determinada escola. Somos o estado das metáforas grosseiras"
. Hilton Lacerda, cineasta


Palavra de especialista

Pedro Butcher
editor do site da Filme B


Obras desafiadoras

“O cinema feito em Pernambuco tem revelado novos talentos e emplacado vários filmes. 'O som ao redor', de Kléber Mendonça Filho, é o longa brasileiro de maior repercussão internacional dos últimos anos. Eles têm apoio regional à produção, o que é importante, mas também são grupo de realizadores que fazem cinema de baixo orçamento. E existe uma coisa pernambucana inegável. O Brasil tem tendência a ser esse país cordial, apaziguador, de Sérgio Buarque de Holanda, que esconde e diminui os conflitos. Esses filmes vêm na contramão disso, são obras desafiadoras, provocativas. Isso vem chamando a atenção dentro e fora do país. Só um pernambucano como Gabriel Mascaro poderia fazer um filme como 'Um lugar ao sol' (2009) – documentário com entrevistas de moradores de coberturas feitas com certo tom de agressividade. Há diferenças entre os diretores e até em seus próprios filmes, mas é evidente a revolta com a situação social.”

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