Telas brasileiras perdem Norma Bengell, vítima de câncer de pulmão

Ícone do Cinema Novo, protagonista do primeiro nu frontal nas telas brasileiras, ela foi também diretora

por Carolina Braga 10/10/2013 06:00

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Thiago Prado Neris/Globo
(foto: Thiago Prado Neris/Globo)
Quando se pensa nas grandes atrizes do cinema brasileiro é inevitável citar Norma Bengell. A musa do Cinema Novo, protagonista do primeiro nu frontal das telas nacionais, morreu nesta quarta-feira, no Rio de Janeiro, aos 78 anos. O corpo será cremado hoje, às 14h, no Cemitério do Caju, na Zona Portuária da capital fluminense. As cinzas serão jogadas na Pedra do Arpoador, local escolhido pela própria Norma, que estava internada no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital Rio-Laranjeiras para tratamento de um câncer de pulmão diagnosticado há cerca de seis meses.

Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães d’Áurea Bengell nasceu no Rio de Janeiro, em 1935. Filha única de um imigrante alemão, ela iniciou carreira como modelo nos anos 1950. Tornou-se vedete dos shows de Carlos Machado na casa noturna Night & Day e em 1959 gravou o primeiro disco, com canções de Tom Jobim e João Gilberto. Naquele mesmo ano foi descoberta por Ruy Guerra e convidada a contracenar com Oscarito em O homem do Sputnik. Foi quando fez sucesso parodiando a atriz francesa Brigitte Bardot.

Estrela “É com certeza uma das cinco maiores atrizes da nossa história”, afirma o pesquisador e jornalista Adilson Marcelino, idealizador do site Mulheres do cinema brasileiro. “Não só pela capacidade como atriz, mas ela conseguia ir do drama à comédia, clássica e debochada, mas também porque passou por vários ciclos.” Foram 64 filmes, quase um por ano. Foi figura central em produções que marcaram a história do cinema nacional, como O pagador de promessas (1962), de Anselmo Duarte; A casa assassinada (1971), de Paulo César Saraceni; A idade da Terra (1980), de Glauber Rocha; e Rio Babilônia (1982), de Neville d’Almeida.

Norma Bengell estreou como diretora com o longa Eternamente Pagu (1988), sobre a escritora modernista. Também preparou a adaptação do clássico O guarani, de José de Alencar, projeto de 1997. Por causa dele, foi acusada de desvio de verbas e investigada pelo Ministério Público por problemas na prestação de contas. Na televisão, participou de novelas como Partido alto e Sexo dos anjos, ambas na Globo. O último trabalho como atriz foi como Deise Coturno, em 2009, no programa humorístico Toma lá, dá cá. Como diretora, fez o documentário Infinitamente Guiomar Novaes (2003).



Polêmicas Por causa de sua postura de vanguarda, em 1966, Norma Bengell foi banida de Belo Horizonte pela Associação das Donas de Casa de Minas Gerais. O nu frontal em Os cafajestes (1962), de Ruy Guerra, escandalizou a tradicional sociedade mineira. Como afirmou Jece Valadão, Norma foi a mulher mais desejada do Brasil nos anos 1960.

No livro Adeus, cinema, Anselmo Duarte afirmou ter mantido relações sexuais com a atriz para ela “não ir embora” de O pagador de promessas, longa-metragem vencedor do Festival de Cannes em 1962 e que abriu os caminhos dela para a carreira internacional. Norma não deixou barato: rebateu dizendo que “preferiu se apaixonar por Alain Delon”, ator francês que ela conheceu naquele mesmo festival de cinema.

Em 1964, Norma Bengell contou com um altar improvisado por Walter Hugo Khouri no estúdio da Vera Cruz para se casar com o ator Gabriele Tinti, com quem viveu por seis anos. Em 1984, a atriz afirmou ter feito 16 abortos por ser “um saltimbanco por escolha”. No mesmo ano, participou do videoclipe She’s the boss, de Mick Jagger, fazendo o papel de “fazendeira decadente e autoritária”. O último relacionamento, durante 25 anos, foi com a fotógrafa e produtora Sonia Nercessian.

O cineasta carioca Luiz Carlos Lacerda fez uma homenagem à atriz em sua página do Facebook dizendo-se triste com a forma como o Brasil trata suas estrelas. “Visitei-a em Paris (1972), tinha me tornado amigo do símbolo sexual da minha adolescência e me tornado fã daquela atriz visceral e grande intérprete de um dos maiores personagens da nossa literatura, a Nina de Crônica da casa assassinada, do romance de Lúcio Cardoso, filmado por Paulo César Saraceni. Sua trajetória é conhecida de todos, e o seu linchamento institucional também. Sobreviveu os últimos anos graças a amigos como Ney Latorraca, Miguel Falabella e Silvio Tendler”, desabafou.


Depoimentos


Domingos de Oliveira
cineasta, que dirigiu Norma Bengell em Edu, coração de ouro (1968)

“Faz parte daquele pequeno e nobre bando de mulherões que representam o sexo feminino em uma certa hora da humanidade. Todo mundo foi apaixonado pela Norma Bengell. Eu também. Não a conheci bem, mas fui apaixonado. São mulheres como outras poucas, que representam uma forma, um mundo. São tão bonitas, tão charmosas, que é como se o mundo tivesse devido a elas uma vida melhor. (...) No caso da Norma, tenho certeza de que com todas essas dores e dificuldades, com seu sorriso amargo e com sua vida revolucionária ela foi uma pessoa muito feliz.”


Marília Pêra

atriz, em depoimento ao canal Globo News

“Grande atriz, grande cantora, grande diretora, uma pessoa muito importante para o nosso país. (...) A Norma foi ficando... não abandonada, porque muitos amigos continuaram com ela, mas foi se sentindo abandonada, desprotegida, doente. Uma mulher muito talentosa, muito intensa. (...) Não cheguei a trabalhar com a Norma – uma época até ela queria que eu fizesse um filme dela, mas não tivemos agenda para isso. Eu fazia uma peça em 1971, A vida escrachada de Joana Martini e Baby Stompanatto, do Bráulio Pedroso, e havia um momento em que a gente brincava de briga com uma pessoa da plateia, era uma coisa combinada... E a Norma estava na plateia nesse dia e acreditou que o ator na plateia estava me desrespeitando. Ela tirou o sapato e jogou nele, pegou ele pelo colarinho e queria bater nele. Depois a gente teve de explicar a ela que aquilo era parte do espetáculo. Ela era muito intensa, não admitia que alguém desrespeitasse um colega.”

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