'Um estranho no lago' é o maior filme do Festival do Rio

Passada em uma praia de nudismo, produção de Alain Guiraudie evoca Alfred Hitchcock e Georges Bataille

por Agência Estado 09/10/2013 11:21

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Divulgação
Cena de 'Um estranho no lago', de Alain Guiraudie (foto: Divulgação)

Foi a noite mais ‘quente’ do 15.º Festival do Rio. A Cinelândia voltou a ferver na segunda, 7, à noite e o Odeon foi fechado por razões de segurança. Terça-feira, 8, pela manhã, o saldo era de destruição. Beirute e Chatyla são aqui. Na esquina do Teatro Municipal, a agência do Banco do Brasil foi depredada e, lá dentro, a inscrição era uma declaração de guerra - “F...-se a Copa!”. No domingo, 6, pelo contrário, o Odeon viveu a noite mais apoteótica deste festival.


O Rio vestiu-se de gala para o tapete vermelho de Cauby - 'Começaria tudo outra vez'. O diretor Nelson Hoineff pode ter feito documentários melhores e mais ambiciosos. Seus longas sobre Chacrinha e Paulo Francis podem ter dividido a crítica, mas carregavam a ambição de, por meio de personagens emblemáticos, interpretar o Brasil. O grande intelectual e o artista popular. Ambos midiatizaram e mediatizam seu contato com o público por meio da televisão. Cauby foi um ídolo do rádio. Como Ângela Maria, a Sapoti, que o acompanhou na sua gala. Apareceram as velhas fãs. Gritavam - “Cauby! Cauby!”.

Cauby Peixoto foi emblemático de uma era - quando o rádio forjava ídolos. Soltou o vozeirão e depois se moldou à Bossa Nova. Tentou carreira no exterior, como Carmem Miranda. Não deu, ele voltou, e sua massa esperava. E sempre houve, não propriamente um mistério, mas um tabu. O Cauby gay. Ele levanta o véu de suas brincadeiras homossexuais, mas fala como se fosse de outro. “Eles, os gays.”

O maior filme do Festival do Rio é um filme de temática gay. A cacofonia soa horrível. Mas você não perde por esperar por 'Um estranho no lago'. Alain Guiraudie é um autor pouco conhecido - desconhecido, ignorado? - no Brasil. Ganhou o prêmio de direção da mostra Un Certain Regard, em Cannes, atribuído por um júri integrado por Ilda Santiago, a diretora artística do Festival do Rio. Ilda não apenas trouxe Guiraudie ao Brasil como fez uma retrospectiva de seus filmes. 'Um estranho no lago', L’Iconnu du Lac, passa-se numa praia de nudistas. É um ponto de caçadas gays. O protagonista testemunha um assassinato. Sente-se atraído pelo assassino.

Impossível não evocar Georges Bataille. 'Desejo e morte'. E Alfred Hitchcock, já que Guiraudie cria um clima perturbador e, lá pelas tantas, um suspense dos diabos. Sobre o mestre do suspense ele diz - “É um dos maiores autores do mundo, uma referência para todo mundo que se interessa pelo cinema como mídia. Se você quer se expressar pelo cinema, tem de ver como Hitchcock o utilizou para se comunicar.” A natureza é personagem fundamental - o lago, o bosque em que homens se espreitam, abordam, tiram as roupas e, explicitamente, fazem sexo. “A natureza é muito importante para mim. Há um primitivo que meus personagens reprimem, mas que se manifesta na natureza. Ela é selvagem como suas pulsões. É uma metáfora da interioridade que se liberta, da mente que não tem controle.”

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