Carolina Kotscho prepara série para TV e longa sobre a vida de Paulo Coelho

Roteirista é responsável pelos filmes 'Dois filhos de Francisco' e 'Flores raras'

por Ana Clara Brant 02/10/2013 07:13

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Renata Ursaia/Divulgação
(foto: Renata Ursaia/Divulgação )

Criar uma boa história ou adaptá-la é como lapidar uma pedra bruta. Um processo árduo, mas o resultado acaba compensando. Essa é a função do roteirista, seja no cinema ou na televisão. E uma das profissionais desse meio, que com esforço e muito talento vem extraindo verdadeiras preciosidades, é a paulista Carolina Kotscho, de 37 anos. É ela quem está por trás de vários exemplos recentes de sucesso do cinema nacional. 'Dois filhos de Francisco' – seu primeiro longa de ficção –, o recente 'Flores raras' ou até mesmo 'Tropa de elite', em que deu um pitaco que mudou o rumo do filme em direção ao fenômeno que se tornou. No momento, ela trabalha com afinco em seu primeiro grande projeto para a televisão, a série policial. 'A teia', prevista para janeiro, e na finalização da cinebiografia de Paulo Coelho, com o título de Não pare na pista – A melhor história de Paulo Coelho, que deve estrear em abril do ano que vem.

“O maior desafio do roteirista é chegar na essência. Você não tem a liberdade de criar totalmente. Sempre vai ser a sua interpretação daquela história, ainda mais no caso de histórias reais. Tem esse lado da pesquisa que sempre me motivou muito. Os filmes em que trabalhei me deram a possibilidade de correr atrás disso. É um trabalho que adoro e me realiza”, detalha Carolina.

Filha de jornalista (o pai, Ricardo Kotscho, foi chefe da Secretaria de Imprensa do governo Lula) e socióloga, Carolina diz que acabou misturando os ofícios dos pais para seguir adiante. “Parece um caminho torto, mas não deixa de ser uma junção do que eles fazem. Porque o cinema é contar histórias com imagens”, resume.

LISA GRAHAM/DIVULGAÇÃO
Em 'Flores rara's, a roteirista apresenta história com delicadeza (foto: LISA GRAHAM/DIVULGAÇÃO)
Apesar de ter estudado artes plásticas e se formado em desenho industrial, ela nunca escondeu a paixão por escrever. Depois de um período trabalhando em agência de publicidade, aos 19 anos decidiu criar um programa de televisão. Foi nessa época que o canal de notícias Globonews, da TV paga, estava montando sua primeira equipe de trabalho e quem estava por trás era a jornalista Letícia Muhana. Uma das repórteres selecionadas foi justamente a irmã de Carolina, Mariana Kotscho. “Não pensei duas vezes. Peguei o contato da Letícia com a Mariana e falei do projeto. A Letícia até brincou: ‘Você é irmã dela? Mas é muita cara de pau né? Vou ver o que posso fazer’”, lembra.

A atração, 'Zero', produzida em parceria com Daniel Augusto, ganhou 13 episódios no Multishow. Depois dessa experiência, foi contratada pela Conspiração Filmes, onde atuou muito com documentários. Pouco tempo depois, iniciava seu primeiro projeto na ficção. Com apenas 26 anos, Carolina Kotscho escrevia, ao lado de Patrícia Andrade, a história de Zezé di Camargo e Luciano. “Foi uma encomenda da Sony. Comecei a fazer e não criei expectativa. Se der certo, deu. Depois de algum tempo de trabalho, o Breno Silveira leu, gostou e entrou no projeto”, conta.

Carolina lembra com carinho desse período em que passou ao lado da família Camargo colhendo depoimentos saborosos. No total, foram 3 mil páginas só de entrevistas. “Quando pegamos o primeiro depoimento, já deu para perceber que seria uma história linda e quis muito contar aquilo. Mas a história é muito mais barra-pesada do que a que está no filme. Tanto que depois transformei boa parte da minha pesquisa em livro, o 'Simplesmente Helena', que foca na mãe deles e é bem mais abrangente do que o longa”, frisa.

Projetos

'Dois filhos de Francisco' acabou projetando o trabalho de Carolina. E, então, várias histórias incríveis passaram a pular em seu colo. Uma delas é a do mago e escritor Paulo Coelho. Em 2007, ocorreu o primeiro encontro. Desde então, ela chegou a percorrer oito países atrás do alvo de seu roteiro. “Foi uma experiência muito interessante. Ele foi narrando coisas maravilhosas e intensas. Já rodamos tudo e está na fase de montagem. Este vai ser o primeiro longa da Dama Filmes, empresa que criei ao lado da Iôna de Macêdo. E nele atuo como produtora e roteirista”, conta. Com direção de Daniel Augusto, o filme terá o ator Júlio Andrade, que viveu Gonzaguinha em 'Gonzaga – De pai para filho', no papel-título.

VANTOEN PEREIRA JR./DIVULGAÇÃO
'Dois filhos de Francisco': filme gerou o livro 'Simplesmente Helena' (foto: VANTOEN PEREIRA JR./DIVULGAÇÃO)
Outro projeto em curso é A teia, minissérie da TV Globo que inicialmente terá 10 episódios semanais e é baseada na história do delegado Antônio Celso, que desvendou crimes famosos no Brasil. É o primeiro projeto de Carolina Kotscho ao lado do também roteirista Bráulio Mantovani, com quem é casada há sete anos e têm a pequena Olga, de cinco meses.

Para ela, está sendo extremamente prazeroso escrever ao lado do marido e ainda mais para a televisão. “O difícil do cinema é o exercício da síntese. Tecer uma relação entre os personagens e criar uma curva que se feche em duas horas. E o legal da série é que você pode aprofundar mais em cada personagem. É mais trabalhoso, porque em vez de escrever 100 páginas a gente escreve 500. Mas por outro lado você tem mais espaço e mais possibilidade. Está sendo muito bacana tudo o que está acontecendo. Estamos muito felizes e contando os dias para a estreia”, celebra.

Três perguntas para...


Carolina Kotscho
roteirista

Você criou ao lado do Bráulio Mantovani a AC – Autores de Cinema, principal associação de roteiristas profissionais do país. Muita gente reclama que o grande problema do cinema nacional é justamente o roteiro. Você concorda?


Acho que melhorou muito de uns anos pra cá. As possibilidades de formação de roteiristas, os cursos, laboratórios. E agora tem esse boom com a nova lei da TV a cabo, que beneficiou bastante o setor. Tem muita coisa acontecendo, muitas possibilidades. Tem gente que acha que basta saber escrever em português para criar um bom roteiro. E não é bem assim. Mas, no geral, percebo que estamos evoluindo a cada dia.

E como foi a sua formação?


Na época em que comecei a ser roteirista nem tinha cursos. Sou autodidata. A prática é que acabou sendo a minha escola. Brinco que quando fiz 'Dois filhos de Francisco' passei mais tempo diagramando do que escrevendo (risos). Porque existe um programa específico para criar roteiro, em que uma página escrita corresponde a um minuto. E como não sabia nada disso, ia medindo com a régua (risos). E isso levava muito tempo.

Em algumas entrevistas do seu marido, Bráulio Mantovani (roteirista de 'Tropa de elite'), ele afirma que você teve papel importante no sucesso do filme de José Padilha. Por quê?


Na verdade, a gente sempre se ajudou muito. Mesmo quando não estamos juntos no mesmo projeto. Na primeira versão escrita do 'Tropa de elite', o filme focava no Mathias (personagem de André Ramiro). Ele era o personagem principal. Mas achei que isso não funcionava e sugeri que mudassem o foco. Achava que seria mais interessante contar a história do capitão Nascimento (personagem de Wagner Moura). Mas ele só aparecia no minuto 50 do filme e tinham poucas cenas rodadas. Eles gostaram, mas o mérito é todo do Bráulio e dos demais roteiristas e montadores.

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