Várias adaptações de obras literárias chegarão aos cinemas do país este semestre

Biografia de Elizabeth Bishop e livros de Fernando Sabino e Érico Verissimo já estão na fila de estreias

por Mariana Peixoto 28/07/2013 10:00

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Lisa Graham/divulgação
Glória Pires e Miranda Otto contracenam em Flores Raras (foto: Lisa Graham/divulgação)
Na véspera do Natal de 1995, a produtora Lucy Barreto recebeu de Carmen L. Oliveira um exemplar do livro Flores raras e banalíssimas, recém-publicado pela Rocco. Não parou de lê-lo até a manhã de 26 de dezembro, quando ligou para a autora dizendo: “É meu. Não sei quando nem como, mas vou fazer essa história”. Pouco depois, Lucy deu outro telefonema, dessa vez para Glória Pires: “Só você pode fazer a Lota”, avisou. Quase 18 anos depois dessa epifania natalina, chega aos cinemas Flores raras, filme de Bruno Barreto sobre o relacionamento da poeta americana Elizabeth Bishop com a arquiteta carioca Lota de Macedo Soares nas décadas de 1950 e 1960, e a influência da escritora na cultura da época.

Em 9 de agosto, Flores raras abre a 41ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Uma semana mais tarde, entra em cartaz no circuito comercial. É a primeira adaptação cinematográfica de obra literária a chegar às salas este semestre – período que promete uma série de longas nacionais e estrangeiros do gênero. O segundo da lista tem perfil totalmente diferente. O tempo e o vento, adaptação de Jayme Monjardim para a clássica saga de Érico Verissimo, estreia em 20 de setembro.

Para retratar o épico gaúcho foi escalado elenco estelar: Fernanda Montenegro, Thiago Lacerda e Cléo Pires (que vai fazer Ana Terra, papel de sua mãe, Glória Pires, para a minissérie de TV, em 1985). É o primeiro longa-metragem do diretor desde Olga (2004), produção inspirada na biografia escrita por Fernando Morais.

Lucy Barreto está completando 50 anos como cofundadora da LC Barreto, cujo currículo traz mais de 80 títulos. A produtora afirma que adaptações demandam certo trabalho: “O que rende numa obra literária não rende numa cinematográfica, pois as linguagens são totalmente diferentes”.

Entre os trabalhos que levam a assinatura da produtora fundada com o marido, Luiz Carlos Barreto, ela considera bem-sucedidos Vidas secas (1963, de Nelson Pereira dos Santos para a obra de Graciliano Ramos) e Dona Flor e seus dois maridos (1976, de Bruno Barreto, para o popular romance de Jorge Amado). “Nessa, por exemplo, só usamos a metade do livro”, conta.

As quase duas décadas para Flores raras ficar pronto se devem, principalmente, à dificuldade de captação de recursos. “O grande dificultador foi o preconceito”, diz Lucy. Houve também morosidade para criar o roteiro. Inicialmente, o diretor Bruno Barreto não se convenceu de que aquela história daria um filme. “Não é romance, mas uma grande pesquisa sobre a estadia de Bishop no Brasil e, sobretudo, sobre a Lota e suas amigas. Na época, ofereci o livro ao Hector Babenco, mas ele me disse que não via ali um filme”, relembra Lucy.

O projeto só começou a sair efetivamente do papel em 2006. O roteiro passou por diversas mãos. Carolina Kotscho escreveu o argumento. Como o filme é quase todo falado em inglês, foi chamada posteriormente a norte-americana Julie Sayres, que deu lugar a Matthew Chapman. “Ela acrescentou mais textura ao roteiro”, diz Lucy.

Crianças à vista

A intenção inicial era que o lançamento de O menino no espelho coincidisse com os 90 anos de nascimento de Fernando Sabino, em 12 de outubro. Questões mercadológicas adiaram a chegada do longa-metragem ao circuito comercial para janeiro – férias de verão, época nobre para filmes dirigidos ao público infantojuvenil. Dirigido por Guilherme Fiuza e produzido pela mineira Camisa Listrada, O menino no espelho, já em fase de finalização, foi rodado há um ano na região de Cataguases, Zona da Mata.

Publicado em 1982, o livro compila histórias do garoto Fernando Sabino na Belo Horizonte da década de 1920. “A gente tinha de sair da fragmentação dos contos. Nossa grande dificuldade na adaptação foi selecionar quais levar para a tela. Descartamos os infantis demais e aqueles difíceis de ser adaptados. A partir daí, escrevemos uma história com início, meio e fim. Ela tem um arco central e os contos funcionam como passagens dessa narrativa. Tivemos de criar algumas coisas que não estão no livro”, afirma o produtor André Carreira, que assinou o roteiro ao lado de Cristiano Abud e Guilherme Fiuza.

Palavra de especialista
Carmen L. Oliveira autora de Flores raras e banalíssimas

De Camões a Lota

“Fui picada pelo aguilhão da curiosidade aos versos escritos por Camões dedicados, em português, pela poeta norte-americana Elizabeth Bishop a uma tal Lota de Macedo Soares. Não tinha a mínima ideia sobre a brasileira Lota. Dediquei-me à tarefa surpreendente de descobri-la, visto que não constava de arquivos nem da lembrança social dos cariocas. Acabei por localizar Magu, que era amiga pessoal da Lota e, mais, havia trabalhado com ela no Aterro (Lota foi idealizadora do Parque do Flamengo). Foi a primeira vez em que associei o nome de Lota e seu notório sobrenome à urbanização do aterro. Magu me emprestou seis sacolas repletas de manuscritos de Lota. Minha ignorância se transformou em admiração e espanto. Estava ali uma mulher avant-garde, brilhante, fascinante. Pude fazer contato com senhoras e senhores que haviam lidado com Lota, todos seus fãs declarados. Algumas das senhoras tinham sido amigas e conheciam detalhes da vida íntima de Lota e da própria Bishop. Mediante compromisso de que não revelaria minha fonte em um eventual livro, todas me descreveram suas experiências. No livro receberam pseudônimos. Compreendo a ‘dificuldade’ de abordarem o tema gay, não obstante Lota fosse absolutamente tranquila em relação à sua postura. Ocorreu, às vezes, discordância entre pontos de vista, uma alegando que as duas tinham um amor de almas, enquanto outra garantia que Lota era da pá-virada. Mantive, escudadas por pseudônimos, todas as opiniões divergentes.”

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