Filme 'A espuma dos dias' recria a trama surrealista do romance do francês Boris Vian

Audrey Tautou e Romain Duris encabeçam o elenco do novo filme de Michel Gondry

por Mariana Peixoto 26/07/2013 06:00

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STUDIOCANAL/DIVULGAÇÃO
Audrey Tautou e Romain Duris (foto: STUDIOCANAL/DIVULGAÇÃO )
Uma história de amor como várias outras, porém absolutamente original. Graças a seu mais bem realizado longa-metragem, 'Brilho eterno de uma mente sem lembranças' (2004), Michel Gondry parecia o nome indicado para transpor para o cinema a obra surrealista do escritor francês Boris Vian (1920–1959). 'A espuma dos dias' traz como casal central os personagens Colin e Chloé.

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Nos anos 1950, ele é um jovem muito rico que não precisa trabalhar e passa seus dias em meio a invencionices futuristas, como o “pianocktail”, engenhoca que, como o nome indica, produz drinques de acordo com as notas musicais tocadas no instrumento. Vive com o amigo/funcionário Nicolas, que cozinha como ninguém pratos como enguias dançantes, ajudado por um rato que vive entre a dupla. A vida de bon vivant muda quando ele se apaixona por Chloé. Pouco após o casamento ela desenvolve uma doença rara: traz uma Flor de Lótus que cresce a olhos vistos em seu pulmão. Colin gasta tudo o que tem para tentar salvá-la. Para tal, começa inclusive a trabalhar.

No elenco, estão três nomes da atual cinematografia francesa que dispensam apresentações: Audrey Tautou, Romain Duris e Omar Sy (o destaque, aqui tão bem quanto no premiado 'Intocáveis'). Os exageros visuais da narrativa de Vian – conhecido pela proximidade com o movimento surrealista – que trazem, além dos elementos já citados, uma limusine transparente, bichos temperamentais, objetos que ganham vida e uma dança (o jazz é a tônica) que simplesmente estica as pernas dos “bailarinos”.

Gondry se apropria de tais elementos – em alguns momentos ele parece ser até mais surreal do que o texto que o inspirou – com tal visceralidade que vemos na tela uma explosão de cores, formas fora do comum. Isso na primeira parte. À medida que o romance ganha contornos doloridos, a cor vai esmaecendo, se aproximando do sépia até o preto e branco. “São as coisas que mudam, não as pessoas.” Tal frase, repetida mais de uma vez na narrativa, é que dá o tom da parte final da história.

É na hora final que ganham destaque assuntos que tiveram em Vian um grande crítico. O escritor tinha uma visão nada positiva da Revolução Industrial e da Igreja. E Gondry obedece o texto original. As fábricas são apresentadas como lugares que acabam com a vida de seus funcionários. E o mercantilismo da Igreja ganha uma cena sem meias palavras. Mesmo sendo a pessoa indicada para refazer na tela grande a narrativa de Vian, Gondry deixa escapar um algo a mais no filme. 'A espuma dos dias' é bonito, não resta dúvida, mas traz em si um vazio que os excessivos elementos visuais não conseguem preencher.

Uma leitura obrigatória

Publicado originalmente em 1947, 'A espuma dos dias' só teve reconhecimento a partir da década de 1960, depois da morte de Boris Vian. Com nova edição da Cosac Naify recém-chegada às livrarias, a obra se tornou um romance de formação obrigatório na literatura francesa. Traz muito da vida do próprio autor. Nascido nos arredores de Paris, Vian sofreu na adolescência de febres reumática e tifoide que lhe deixaram sequelas no coração.

Além de escritor, também foi engenheiro, tradutor e compositor. Identificado com o movimento surrealista e com o anarquismo, foi ainda músico (trompetista de jazz) e se aproximou de Jean-Paul Sartre (que aparece na história, como o personagem Jean-Sol Partre), Simone de Beauvoir e Albert Camus. É autor de 10 romances, 60 contos, três livros de poesia, 10 peças de teatro, 500 canções e seis libretos de óperas. Antes do filme de Gondry, 'A espuma dos dias' teve outra adaptação para o cinema: 'A flor da vida' (1968), dirigido por Charles Belmont.

Assista ao trailer do filme:


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