Rafael Conde fala de seu próximo longa-metragem, 'Zé', inspirado em episódio da ditadura militar

Diretor de 'Samba-canção' e 'Fronteira' ainda comenta o atual momento do cinema no estado

por Walter Sebastião 01/07/2013 06:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Beto Novaes/EM/D.A Press
O diretor e professor Rafael Conde diz que Minas Gerais tem tudo para fazer um bom cinema e cobra mais incentivos (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
“Não estou longe do cinema, mas estudando. Minha rotina é ler, escrever e ver filmes”, avisa o cineasta mineiro Rafael Conde, de 50 anos. Ele está finalizando doutorado na área de teatro, com tese sobre o ator no cinema, que ele apresenta até fim do ano na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por conta do trabalho, passou um ano em Nova York como pesquisador visitante no Departamento de Estudos da Performance da New York University. O diretor não reclama da temporada de estudos, mas também reconhece que anda com muita vontade de filmar.


O último filme lançado foi o longa 'Fronteira', de 2009. O próximo pode ser mais um longa, o terceiro, 'Zé', inspirado na trajetória do militante estudantil José Carlos Mata Machado (1946-1973), cujo roteiro foi premiado no Festival de Roterdã (Holanda). Ou, talvez, um documentário sobre Copacabana. Rafael está ainda registrando, com uma pequena câmara, motivos ligados ao tema do estudo. “Fazer roteiro também é fazer cinema”, observa Rafael Conde com bom humor. “Aprendi a controlar minha ansiedade pensando e trabalhando em projetos”, acrescenta.

“Hoje é mais fácil filmar do que quando comecei”, observa o cineasta. “Sou do tempo em que não tinha nem locadora. Tínhamos de torcer para que um 'Cidadão Kane', de Orson Wells, chegasse a um cineclube, senão ninguém via”, recorda. E, por isso, saboreia com satisfação a fartura de possibilidades trazidas pela internet. O desafio, agora, é realizar projetos elaborados e consistentes. “Filmar pouco, no meu caso, tem um significado político: é cuidado com o ofício, responsabilidade no ato de ligar uma câmara. Cinema é investigação, descoberta. O ‘luz, câmara e ação’ transporta para momento de magia que tem de ser bem arquitetado”, argumenta.

O projeto do longa 'Zé' se volta para ficção sobre um jovem formado em direito, primeiro lugar no vestibular, que se torna vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), é preso e aparece morto durante o período da ditadura militar. “É drama sobre a questão da liberdade e do engajamento de uma pessoa muito jovem, com causa de transformação social”, conta. Rafael valoriza o trabalho que está sendo feito pela Comissão da Verdade, que apura o que ocorreu com os presos políticos da ditadura. “O Brasil precisa saber o que aconteceu. É a realidade vindo à tona. A questão da punição é outra coisa”, observa.

CINECLUBE Rafael Conde é de Belo Horizonte, do Bairro Funcionários. É formado em economia e tem mestrado em cinema. O gosto pelo cinema vem da infância, realizando filmes em super-8, e foi aprofundado com atuação no Cineclube da Faculdade de Ciências Econômicas (Face), da UFMG. “Comecei em época que não tinha escola de cinema e o cineclube era lugar onde você encontrava pessoas que tinham interesse em fazer cinema”, explica. Com festas no diretório acadêmico os cinéfilos levantavam dinheiro para curtas.

Ao longo de 25 anos de atividade realizou 10 curtas (entre eles 'O ex-mágico da Taberna Minhota', 'Françoise'  e 'A hora vagabunda') e dois longas, o primeiro, 'Samba-canção' (2002). O diretor é professor do Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG. Volta à escola no início de 2014. “É preciso aula para fazer arte? Não. Mas nenhuma aula, nenhum conhecimento subtrai. Quem faz escola se abre para perspectiva de pesquisa e estudo”, afirma.


TRÊS PERGUNTAS PARA...
. Rafael Conde, cineasta


Que filmes recentes realizados em Minas Gerais chamaram sua atenção e por quê?
Gostei, entre outros, de 'O céu sobre os ombros', de Sérgio Borges;' Os residentes', de Tiago Mata Machado; 'Girimunho', de Clarice Campolina e Helvécio Marins; 'Terra deu, terra come', de Rodrigo Siqueira. Sinto esses trabalhos como afirmação do documentário, de um cinema da surpresa, do encontro entre realizador e as pessoas que são tema do filme, trabalhado com afeto no momento da filmagem. É cinema do improviso, do acaso, que luta contra a banalização da facilidade de fazer um filme hoje. São o resultado de uma intimidade com a câmara e o olhar afinado para a cena.

Como você vê o momento que o cinema está vivendo?
O cinema, em todo o mundo, está mudando. Principalmente no que se refere ao encontro com o espectador. Estamos saindo das salas de cinema para a TV, as mídias alternativas. É momento de reestruturação. Vejo ainda que a internet permite acesso à informação cinematográfica mais ampla, o que abre novo universo de possibilidades. É tudo muito estimulante. Sinto que nada foi feito considerando tudo isso, e que estamos vendo como só o começo de transformações profundas.

O que temos e o que falta para a área de cinema em Minas Gerais?
Temos tudo. Histórias, realizadores, técnicos etc. O que mudou, aqui e em todo lugar, é que houve uma descentralização. Todo mundo, em qualquer lugar que esteja, está no centro do mundo. Então há mais troca, mais meios de circulação, mais diretores trabalhando. Precisamos de mais recursos para nos estruturar como produtores, mas é algo que aos poucos está vindo. Considero correta a reivindicação para que se expanda o programa Filme Minas (programa de incentivo do governo estadual). É demanda importante para a moçada que está vindo das escolas de cinema e do cinema de animação feito em Minas, que é muito forte.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE CINEMA