Oitava edição da Cine OP discute a preservação da memória do cinema nacional

O diretor Walter Lima Jr. denuncia descaso e alerta que filmes importantes se perderão para sempre

por Walter Sebastião 12/06/2013 06:00

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Maria Tereza Correia/EM/D.A Press - 21/1/05
O cineasta Walter Lima Jr. teme pelo futuro de seu longa-metragem, 'Chico Rei', filmado em Minas Gerais há 28 anos (foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press - 21/1/05)
A 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (Cine OP), que começa nesta quinta-feira, conduzirá o espectador a uma viagem aos tempos de protestos políticos, da arte experimental e da música pop, responsáveis pela mudança de comportamento e por estéticas presentes no mundo contemporâneo. O eixo temático do evento é “1964 –1969: O cinema brasileiro entre o golpe e o AI-5”. A sessão de abertura exibirá o filme 'Brasil ano 2000' (1968), de Walter Lima Jr., e o curta 'Uma alegria selvagem' (1966), de Jurandyr Noronha, os diretores homenageados.

Brasil ano 2000 conta as peripécias de uma família que migra para o Norte depois de o país ser devastado pela 3ª Guerra Mundial. Na cidade de Me Esqueci, os personagens são recrutados para se fingir de índios durante a visita de um general para inaugurar uma base de lançamento de foguetes. Nesse filme está uma das primeiras manifestações da estética tropicalista, com trilha sonora dirigida por Rogério Duprat. As canções de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Capinam são interpretadas por Gal Costa.

“Fiz uma sátira, a caricatura do discurso de que o Brasil é o país do futuro, sendo que o futuro nunca chega. Vou além do realismo”, avisa Walter Lima Jr. Para o diretor, seu filme traz tanto “o namoro com o futuro, movido pela doença da esperança”, quanto a “expressão surreal” da realidade brasileira. “Boa parte da graça está no colorido vivo, naif, ingênuo”, acrescenta. Paisagens exuberantes e monumentais contrastam com a escala reduzida dos personagens, celebrando a tropicalidade e “aceitando a multiculturalidade brasileira como um estilo”, explica Walter. Proibida pela ditadura militar, a fita ficou praticamente inédita.

O outro homenageado da Cine OP, Jurandyr Noronha, tem 97 anos e nasceu em Juiz de Fora. Cinegrafista, montador, redator, roteirista e diretor, ele trabalhou no Instituto Nacional de Cinema, na Embrafilme e produtoras independentes. É autor dos livros 'No tempo da manivela', 'Pioneiros do cinema brasileiro' e 'A longa luta do cinema brasileiro'.

Passado Walter Lima Jr. diz que eventos como o Cine OP chamam à responsabilidade para com o passado do cinema brasileiro, que vive situação de abandono. “A Cinemateca Brasileira, em São Paulo, enfrenta crise e a do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) inexiste. Inclusive, há pessoas tirando os filmes do MAM devido à precariedade das condições de guarda”, denuncia ele. E adverte: “Assusta ver que os filmes brasileiros têm vida breve, muito menor do que poderiam ter”. O cineasta teme pelo futuro de 'Chico Rei', rodado por ele em 1985, em Ouro Preto.

Há poucas – e limitadas – iniciativas criando condições para a produção nacional voltar a circular. “Queria ver todo o cinema brasileiro, os filmes de Humberto Mauro e 'Limite', de Mário Peixoto, em blue ray”, afirma Walter Lima Jr., aliviado por 'Brasil ano 2000' ganhar nova cópia. Uma bronca: “O Centro Nacional de Cinematografia da França se interessou pela restauração de 'Menino do engenho' (1965), enviamos o material há três anos. Desde então, não tive notícia nenhuma”. Além de protestar, o cineasta espera encontrar em Ouro Preto o representante da instituição para saber o que ocorreu. Trata-se do primeiro filme dele.

Acervos foram fundamentais para formar a geração do cineasta. “Para mim, estudar significava ver filmes. Minha escola foi a tela”, recorda. Hoje, o diretor fica chocado ao ver pessoas saindo da sala para atender o celular nos momentos de clímax do filme. “É a total desimportância com o ver cinematográfico”, lamenta.

Arquivo EM
(foto: Arquivo EM)
Exibições históricas

A Cine OP exibirá trabalhos importantes para a cinematografia nacional, como 'Bebel, garota propaganda' (1968), de Maurice Capovilla; 'El justiceiro' (1968), de Nelson Pereira dos Santos; 'Terra em transe' (1967, foto), de Glauber Rocha: 'Trilogia do terror' (1968), de José Mojica Marins, Luís Sérgio Person e Ozualdo Candeias. A mostra Preservação traz a Minas cópia restaurada de 'Bonequinha de seda' (1936), de Oduvaldo Vianna.

Acervo pessoal
(foto: Acervo pessoal)
Três perguntas para...

Jurandyr Noronha, cineasta

Sua cinematografia abrange uma dúzia de trabalhos realizados entre as décadas de 1940 e 1970. Que lembranças tem dos primeiros tempos?
De uma câmera arrebentando a corda. Dificílimo, por vezes, o sincronismo entre som e imagem, pois era comum os equipamentos não se coadunarem. As referências às décadas de 1940 e 1970 lembram-me de que entre curtas, médias e longas foram para mais de 30 trabalhos.

O senhor trabalhou com os diretores pioneiros Adhemar Gonzaga (1901 – 1978) e Humberto Mauro (1897 – 1983). Qual a magia do cinema daquela época?
A ligação com eles era fascinante. Adhemar era a objetividade, o intento de criar uma indústria. Mauro era uma força da terra.

Como foi o trabalho de preservação, o Museu do Cinema que o senhor criou?
Via aquelas velhas câmeras abandonadas, coladeiras e fotômetros indo para o lixo. Toda uma gradação de equipamentos contando não apenas uma história do cinema, mas a da própria humanidade. Quanto ao acervo do Museu do Cinema, ele foi saqueado. Eram peças valiosíssimas, que o nosso país perdeu para sempre.

8ª CINE OP

» Quinta-feira
20h30 – Abertura. Homenagem a Jurandyr Noronha e Walter Lima Jr. Cine Vila Rica

» Sexta-feira
10h às 12h30 – Debate Memória e consciência, com Francisco Ramalho Jr. (cineasta), Leonor Souza Pinto (pesquisadora) e os diretores Maurice Capovilla, Nelson Pereira dos Santos e WalterLima Jr. Centro de Convenções.
19h – Exibição de Anuska manequim e mulher (1968), de Francisco Ramalho Jr. Cine Vila Rica.
21h – Exibição de Sinais de cinza, a peleja de Olney contra o dragão da maldade (2013), de Henrique Dantas. Com Nelson Pereira dos Santos, Orlando Senna, José Carlos Avellar, Sonélio Costa, Ilya São Paulo, Olney São Paulo, Helena Inês e Edgar Moura, entre outros. Cine Vila Rica.

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