Eutanásia é tema do novo filme de Marco Bellocchio

Recém apresentada em Veneza, produção será exibida na Mostra de Cinema de São Paulo e depois entrará em circuito comercial

por Agência Estado 24/09/2012 11:12

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(foto: Divulgação)

Em 1992, uma estudante de 21 anos, Eluana Englaro, dirigia seu carro em uma estrada quando, devido ao gelo da pista, perdeu o controle e se chocou contra um poste e bateu em seguida num muro. Entrou em estado de coma, para nunca mais despertar. Era mantida em estado vegetativo graças a alimentação e hidratação forçadas. Seu pai, Beppino Englaro, solicitou que desligassem os aparelhos, pois, segundo ele, a própria filha havia manifestado esse desejo caso acontecesse alguma coisa do gênero com ela.

O caso gerou batalha judicial de 17 anos de duração que, em seu estágio final, comoveu e dividiu a Itália. Por fim, baseado em sentença favorável, Beppino conseguiu que desligassem os aparelhos da filha para que ela "partisse em liberdade", como declarou. É sobre esse caso que se debruça La Bella Addormentata (A Bela Adormecida), nova polêmica do consagrado diretor italiano Marco Bellocchio, cultor inveterado das controvérsias desde sua estreia com De Punhos Cerrados, em 1965. O filme será exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e depois entrará em circuito comercial, distribuído pela Califórnia Filmes.

A Bela Adormecida foi apresentado no recente Festival de Veneza e acolhido com 16 minutos de aplauso na sessão oficial. Em sua grande maioria, os críticos também o adoraram, mas Bellocchio não recebeu premiação à altura. Foi quase ignorado pelo júri. Durante a exibição no festival, alguns o tacharam de "filme anticatólico". Grupos chegaram a se manifestar falando em uma "segunda morte de Eluana Englaro". Isso mostra como os ânimos ainda estão quentes a respeito desse caso, que só teve seu desfecho em 2009, depois de a jovem Eluana ter passado 17 anos em estado vegetativo e irreversível.

Bellocchio acha normais essas manifestações tardias. "Num país católico como a Itália essas coisas são assim mesmo", conforma-se, embora diga que "mesmo entre os religiosos existem posições mais matizadas ao lado das intransigentes". E relembra que, no caso de Eluana, as manifestações em frente da clínica onde ela estava internada nunca passaram de algumas centenas de pessoas.

Mas o restante da Itália acompanhava o caso atentamente pelos meios de comunicação. "No dia a dia, foi uma polêmica midiática terrível, um embate entre leigos e católicos. Pode-se dizer que toda a Itália, naqueles dias, se ocupou do caso", diz o cineasta.

Para abordar esse tempo e esse ambiente, Bellocchio recusa um documentário factual ou uma "cinebiografia" do caso real. É verdade que conversou com o pai de Eluana, Beppino Englaro. "Falei com ele por uma questão de respeito, e disse que iria fazer um filme de ficção, no qual o drama da sua filha estaria no enredo. Não opôs qualquer resistência", diz. Nem deveria. A história verídica de Eluana é citada, em imagens documentais, muitas tiradas da TV, mas fica como em pano de fundo, sobre o qual três histórias paralelas se desenrolam.

Um enredo multiplot, hábil, no qual várias questões estão entrelaçadas. O mundo da razão política e da consciência individual; a esperança irracional porém divina de uma mãe; uma jovem sadia que pretende se matar, em oposição aos que defendem a vida mesmo quando esta não vale mais a pena e não tem mais sentido.

Bellocchio faz um cinema de emoções e de ideias. Entra nesse jogo tentando compreender todas as posições, sem demonizá-las, apesar de dizer, brincando (e a sério): "Não me converti", diz. "A minha é sempre uma posição laica. Posso até me colocar no lugar de quem tem fé. Não quero condenar. Tenho as minhas convicções, mas não desejo achar que sou o dono da verdade".

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