Boicote de blocos ameaça reinado de marchinhas acusadas de preconceito

Cabeleira do Zezé, Menino gay, Maria sapatão e Mulata bossa ficavam no topo das mais tocadas

por Márcia Maria Cruz 19/02/2017 11:53
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(foto: Reprodução)

O carnaval de 2017 coloca em evidência a obra de João Roberto Kelly, que aparece no topo da lista de compositores mais executados na festa de Momo, como demonstra levantamento do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Ele está no alto da lista desde 2008, mas as marchinhas de sua autoria, como Cabeleira do Zezé, Menino gay, Maria sapatão e Mulata bossa nova, neste ano, entraram no index das músicas proibidas, e deixarão de ser tocadas por alguns blocos carnavalescos do Rio e São Paulo. Com liderança de Mamãe eu quero, a lista do Ecad possibilitou a distribuição de R$ 19 milhões a compositores brasileiros.

A decisão de alguns blocos de não tocar versos considerados machistas, racistas e homofóbicos é bastante polêmica. Há quem diga que os versos “o teu cabelo não nega, mulata/porque és mulata na cor/ mas como a cor não pega, mulata/ mulata, eu quero o teu amor” são racistas e, por isso, não devem ser mais executados. Mas muita gente acredita que as marchinhas são marcas de um tempo e, portanto, não devem ser banidas como uma forma de relembrar como a sociedade já pensou um dia.

Essa é a posição defendida pelo cantor e compositor Matheus Brant, um dos idealizadores do Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro. Ele considera que as marchinhas são preconceituosas, mas reflexos de uma época. Matheus lembra que a discussão fez com que o Me Beija... avaliasse o repertório. “Estamos começando a fazer essa discussão para avaliarmos se tiramos ou se mantemos alguns pagodes considerados machistas”, diz.

PARÓDIAS
Como autor de Carnaval, que ficou em terceiro lugar no Concurso de Marcinha Mestre Jonas em 2014, Matheus destaca que as reflexões contribuem para que os compositores fiquem mais atentos à diversidade. “Temos que ter olhar mais plural e atento ao nosso entorno.” Ele lembra que um dos movimentos dos músicos na capital foi fazer paródias com as marchinhas vistas como preconceituosas. “Elas são datadas, históricas e mostram como a sociedade já pensou um dia”, diz. Por fim, Matheus defende que o universo da música deve ser poroso às mudanças de comportamento e valores.

Mineira, a intérprete Corina Magalhães gravou Ai que saudades da Amélia, que Mário Lago e Ataulfo Alves fizeram em 1942, no álbum Tem mineira no samba. A música foi considerada, por alguns blocos cariocas, inadequada para rodas de samba no Rio, mas Corina não vê problema. “Amélia nasceu de uma brincadeira. O irmão da Aracy de Almeida falava da Amélia, que era uma empregada que lavava e passava para ele”, conta. Para ela, essa canção não tinha o propósito de desmerecer as mulheres e falava de uma Amélia que de fato existiu.

“Sou intérprete e gosto de trazer para o meu repertório músicas antigas.” Corina diz que nunca recebeu críticas ao executar esse samba: “As pessoas adoram. Todo mundo canta.”

Desde o surgimento, Amélia está envolta em polêmica. Foi escrita por Mário Lago, que não gostou das modificações que Ataulfo fez ao propor a composição. Depois do desentendimento dos autores, ela foi gravada por Ataulfo e, tempos depois, ganhou um concurso de marchinhas. “Tem que debater, mas proibir a música não tem nada a ver”, afirma Corina, que fará show no Clube Libertário, em Cambuí, no Sul de Minas, no dia 26.

Thiago Delegado lembra que, em Belo Horizonte, os blocos apresentam outro repertório com músicas de axé, Tim Maia e outros ritmos. Ele destaca a produção autoral de marchinhas.

“Há seis anos realizamos o Concurso de Marchinha Mestre Jonas. Todo ano são 15 finalistas, o que significa que tivemos 90 canções autorais.” Thiago ressalta o caráter de crônica das composições, que tratam de questões contemporâneas. “Mesmo as mais jocosas tratam do que estamos vivendo hoje”, afirma, lembrando que Cabeleira do Zezé não retrata o Brasil atual.

Ele lembra que o país mudou em termos de costumes e que muitas das marchinhas questionadas refletem outro momento. “A discussão é muito importante, porque os valores mudaram. É importante todos os lados terem um olhar de tolerância. Não acho que o caminho seja negar a história”, argumenta Delegado. Para ele, muitas marchinhas mostram o retrato de um país preconceituoso, mas a simples eliminação dos versos não resolve o problema.

COBRANÇA Matheus Brant informou que, no ano passado, o bloco Me Beija Que Eu Sou Pagodeiro pagou ao Ecad pela execução de algumas músicas no ensaio aberto. Matheus lembra que, por ser o carnaval uma festa popular no espaço público e os blocos não lucrarem com a festa, a responsabilidade de pagar o Ecad é de quem obtém lucro com a folia, no caso prefeitura, por meio do ISSQN, e o estado, com o ICMS. “No Rio de Janeiro, há blocos cuja dimensão é bem maior do que a dos blocos de BH. Nesse caso, eles precisam constituir pessoa jurídica até para viabilizar o recebimento de patrocínio que ganham por essa dimensão. O Ecad faz a cobrança diretamente ao bloco”, pontua Matheus. Na festa carioca, a cobrança não é feita com base no público presente. Os valores são estipulados a partir do custo da realização do cortejo. Procurada pela reportagem, a Belotur não se manifestou sobre a política de pagamento do Ecad no município.

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