Blocos de rua de BH divulgam manifesto de repúdio contra a Skol

Fotos de blocos e seus integrantes foram postadas no Facebook com a logo da marca de cerveja sem autorização

24/02/2015 15:43

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Reprodução / Facebook
(foto: Reprodução / Facebook)
Blocos de rua de Belo Horizonte se uniram e divulgaram, nesta terça-feira, um manifesto de repúdio à marca de cerveja Skol. No texto postado no perfil 'Carnaval de rua BH', no Facebook, os grupos reiteram o caráter independente da festa que vem sendo criada a cada ano na cidade, e repudiam a tentativa de "apropriação financeira pela cervejaria Skol, do grupo Ambev, que amargou propostas de patrocínio negadas por vários blocos".

Apoiado inicialmente por 27 blocos e ganhando mais adesões após ser divulgado, o manifesto lembra que o carnaval que acontece nas ruas de Belo Horizonte, na grande maioria dos casos, é feito sem auxílio do poder público ou de empresas privadas, e se tornou realidade graças a uma demanda que veio da população. Dessa forma, ver as imagens dos blocos - criados de forma completamente independente - com a logo da Skol em um perfil suspeito na rede social causou a mobilização de diversos organizadores.

"Vi um vídeo do I Wanna Love You compartilhado no perfil Bloquinhos de BH. Fui dar uma olhada nesse perfil e ele não tinha nenhum conteúdo próprio, só coisas compartilhadas. Na hora que percebi a logomarca escrevi em todos os posts: 'Gostaria de ressaltar que o IWLY é um bloco independente e que não recebeu recurso financeiro da Prefeitura, marca de cervejas ou de qualquer outra organização com fins lucrativos', conta Isabela Leite, regente do bloco I Wanna Love You e integrante da Alcova Libertina. Como resposta, ela recebeu: "Nós sabemos disso".

Pesquisando um pouco mais, Isabela descobriu que o perfil estava ligado a uma outra página do Facebook, Carna Beagá (que já foi excluída, assim como todas as postagens indevidas com a marca da Skol). Nessa página, ela se deparou com peças gráficas produzidas pelos blocos Chama o Síndico e Alcova Libertina, modificadas sem autorização e com a logo da mesma cerveja estampada. "Isso é uma falta de escrúpulos, uma falta de ética", protesta Isabela. "Me senti muito desrespeitada, não só como pessoa física, mas em relação aos movimentos dos quais faço parte", completa, deixando claro que esses movimentos nunca tiveram interesse em ter alguma relação com a marca, apesar de já terem recebido propostas de patrocínio.

Já Túlio Nobre, regente do bloco Pena de Pavão de Krishna, foi alertado do uso de sua imagem por uma amiga, que se assustou ao ver uma foto do músico relacionada à marca de cerveja. "Eu achei à princípio que era uma brincadeira, de tão surreal que me pareceu. A foto mostrava meu rosto, pintado de azul, com a logo da Skol na lateral", conta. No momento, Túlio não conseguiu copiar a imagem, que foi apagada posteriormente. Por isso, não sabe se conseguirá entrar com as medidas judiciais cabíveis.

Para além da questão pessoal, Túlio ainda responde pelo bloco do qual faz parte da organização. "O PPK é contra a intervenção de qualquer marca no carnaval de BH, ainda mais de cervejarias, que influenciam de forma negativa muitos carnavais no Brasil", afirma. O maestro ainda espera que o carnaval de rua de BH mantenha o caráter independente. "Acredito muito que vai continuar assim, porque a beleza toda é ver a mobilização das pessoas, onde existe o dinheiro, mas que é gasto para o coletivo, pra coisa acontecer, não para o lucro".

Leia o manifesto de repúdio na íntegra:
"Desde 2009, o Carnaval de rua de Belo Horizonte vive a olhos nus uma intensa transformação que, de forma independente, sem chancelas ou patrocínio, reinventa tradições e faz pensar a cidade que queremos. Anarquicamente maravilhoso, nosso Carnaval tem se tornado um sublime momento do ano em que, em meio à ocupação festiva do espaço público, buscamos ressignificar a relação com a cidade e com o outro, bem como contestar políticas danosas ao bem-estar social. E com um detalhe importante: é feito do povo e para o povo, como deve ser o Carnaval.

E o povo consegue fazer sua festa mesmo quando não conta com o auxílio do Estado – e sem precisar recorrer a afagos de megaempresas privadas para tornar sonhos realidade. O capital, definitivamente, não é o mote da nossa folia. Os blocos são feitos com o suor e a dedicação de quem quer transformar a cidade, e que já tem sua recompensa ao ver e viver um Carnaval brilhante como o de 2015. Contra tudo o que afirma hoje o prefeito dessa capital, queremos sim um carnaval sem cordões, sectarismo e moralismo, lutando pelas liberdades individuais, pelo direito à moradia e ao transporte gratuito, pela desmilitarização da polícia, por uma política de drogas mais humana, contra o racismo, o machismo, a homofobia, a higienização e a privatização do espaço público.

É o Carnaval do amor, sim. Mas também é Carnaval de luta.

Não obstante à transformação que se passa nas ruas, vale lembrar que alguns blocos possuem formação banda e são, de fato, formados por pessoas que vivem de música. Que passam grande parte do Carnaval trabalhando duro e fazendo o que acreditam. Que conciliam a folia com exaustivas agendas de shows. Trabalho para pagar as contas e fomentar a cultura local - tudo com muita raça, vontade e independência.

Por isso, muito nos espantou quando surgiu, no decorrer do Carnaval de 2015, uma esdrúxula tentativa de apropriação financeira da festa pela cervejaria Skol, do grupo Ambev, que amargou propostas de patrocínio negadas por vários blocos. Companheirxs desses mesmos blocos tiveram, sem autorização prévia, fotos divulgadas com logomarcas estampadas em seus rostos, tendo seus direitos de imagem violados, como se compactuassem com qualquer tipo de aparelhamento do Carnaval.

Para além das questões jurídicas que envolvem as ações da Skol, manifestamos repúdio com relação à brusca tentativa de usurpação do caráter independente e autogestionado do Carnaval de Belo Horizonte. Repudiamos, veementemente, a manobra comercial orquestrada pela Skol, por meio das páginas Bloquinhos de Beagá e Carna Beagá, gerenciadas pela agência IGT Marketing, que atropelou direitos em busca de uma bocada da festa. Uma marca que estimula, através de propagandas irresponsáveis, o machismo que faz vítimas diariamente e contra o qual lutamos com vigor. Lembrando que as páginas foram retiradas do ar depois que batuqueiros e integrantes dos blocos reclamaram da aplicação indevida de logomarcas não somente em fotos, mas também em flyers. Roubo explícito do material gráfico produzido pelos blocos, numa tentativa oportunista e inescrupulosa de fazer parecer que o Carnaval de rua é algo produzido pela Skol. Não; não é. E se depender de nós, nunca será.

O Carnaval de BH não cederá a lobbys de megaempresas nem de órgãos públicos que colocam em risco uma festa tão plural e espontânea, feita com o pulso firme do povo, que clama por uma cidade mais justa, livre e igualitária. A apropriação não passará!"

Ambev responde
Ao ser questionada sobre a demanda dos blocos de BH, que se organizaram contra a utilização  de imagens ligadas à marca da cerveja, a Ambev/Skol enviou nota em que afirma que é patrocinadora do carnaval de BH, e que as postagens que causaram problemas vieram de uma produtora terceirizada.

 

"A Skol foi a patrocinadora oficial do carnaval de BH pelo segundo ano consecutivo, sendo uma das principais apoiadoras desse movimento cultural que vem crescendo na cidade. O apoio é oferecido em forma de infraestrutura para que a festa aconteça com organização e segurança. Foram fornecidos pela Skol, com objetivo de proporcionar ao folião uma experiência positiva: 4 mil diárias de banheiros químicos; 8 mil m² de gradil, para proteção do patrimônio público e cultural da cidade, como a Praça da Liberdade e Praça da Estação; 12 palcos com som e iluminação; torre de DJ na Savassi; kits e treinamento para 1.300 ambulantes, com foco principalmente no consumo responsável de bebida.  A Skol respeita o direito de imagem dos foliões e esclarece que o conteúdo de internet foi criado por produtora terceirizada para divulgar a programação da cidade e, consequentemente, dos blocos de rua", diz a nota.

 

A produtora citada pela Skol é a IGT Marketing, contratada pelo Instituto João Ayres para gerenciar as redes sociais do Carna Beagá. Através de assessoria de imprensa, o instituto emitiu nota que garante que as peças publicitárias chegaram à internet sem passar pela aprovação da Skol. "A produtora do Carna BH esclarece que os conteúdos publicados nas redes sociais não passaram pela aprovação da equipe da Skol. Sobre os direitos de imagem, a produtora não foi acionada juridicamente e, caso isto ocorra, o caso será avaliado", detalha o texto da assessoria.

 

A nota ainda reitera que "as redes sociais Carna BH foram criadas por uma agência de comunicação terceirizada", com a intenção de "concentrar toda a programação oficial do carnaval de Belo Horizonte em canais de fácil acesso ao público".

 
Assembleia
Os organizadores dos blocos de rua pretendem se reunir nos próximos dias para tratar do caso da Skol e de outras questões do carnaval de BH. O objetivo é compartilhar experiências, identificar problemas, e entender  as demandas dos grupos, para que a festa seja ainda mais positiva no ano que vem. "Acho importantíssmimo a união e a conversa entre os representantes de cada bloco, para o carnaval ficar ainda mais forte do que já é. Porque a festa daqui é um movimento político, social e cultural fortíssmo, e que tem muita visibilidade", diz Túlio Nobre.

"Nessa leva da falta de informação, sobra só um despreparo. O Bloco da Alcova, por exemplo, desfilou na Andradas. Solicitamos o cercamento do Arrudas e não aconteceu. Imagina se alguém caísse de lá de cima? Não gosto nem de imaginar! As demandas dos blocos têm que ser ouvidas, para que possa ser feita uma preparação para a festa, que foi criada pelo povo. A Belotur chegou depois, e é necessário criar leis que se adequem a essa 'nova' cultura de carnaval", pondera Isabela Leite.

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