Maior carnaval da história de BH deixa marcado nas ruas o caminho das futuras folias

DNA da diversidade está expresso tanto na geografia dos desfiles quanto na variedade de ritmos

por Jefferson da Fonseca Coutinho Álvaro Fraga 21/02/2015 07:51

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Arte EM
(foto: Arte EM)
O espaço é pouco para o desenho geográfico de concentração e trajeto dos mais de 200 blocos de rua que fizeram do último o maior carnaval da história de Belo Horizonte. Ainda assim, o Estado de Minas traça um mapa de alguns dos circuitos que prometem se consolidar na folia da cidade. Durante a festa, o sucesso foi tanto que teve bloco que não pôde sair do lugar, tamanha a plateia reunida na Região Centro-Sul. Também houve grupo que tomou o metrô da Região Norte até a Praça da Estação, na Região Central. Sem falar nos vários agrupamentos que subiram as ruas mais estreitas longe da área central. Dias de diversidade, com milhares de vozes nas ruas, ao som que variou desde as marchinhas ao jazz do Magnólia.

Entre os moradores das regiões mais movimentadas, as opiniões se dividem: há quem ache tudo uma beleza; há quem não queira mais nem ouvir falar em carnaval. Cleber Magalhães, vizinho da Praça Floriano Peixoto, em Santa Efigênia, achou tudo muito bem organizado, com o devido respeito ao horário do som. O médico Paulo Henrique Torres, morador da Avenida Brasil, no quarteirão mais movimentado no período, elogiou os dois primeiros dias, mas sugeriu melhor estrutura para o próximo ano. “O Pena de Pavão de Krishna, na Lagoinha, foi o melhor bloco, mas não teve banheiro para o público. Até entendo o efeito surpresa do grupo, mas é preciso pensar nas pessoas”, considera. Paulo Henrique liberou o apartamento como ponto de apoio para os amigos que passaram pela Avenida Brasil. Para ele, Belo Horizonte está bem mais preparada e organizada.

Já Lucas Ferreira, de 24 anos, morador da Savassi, sugere aproveitamento de “espaços mais apropriados” para a multidão. “É muito interessante ver como o carnaval cresceu em BH. Como jovem que gosta do movimento, tudo bem. Mas muitos moradores acabam sendo desrespeitados. Embora os shows terminassem às 22h, a confusão só terminava às 3h”, comenta o estudante, que defende programação em espaços como o Parque das Mangabeiras. Lenice Rodrigues, de 36, vizinha da Avenida dos Andradas – passarela que recebeu 40 mil pessoas com o Bloco Alcova Libertina –, criticou a falta estrutura. De acordo com a assistente administrativa, que não quer nem “ouvir falar em carnaval”, a cidade não tem preparo para tanta gente na rua.

Já Laila Heringer, de 31 anos, quer é mais. Uma das organizadoras do Tchanzinho da Zona Norte, a produtora quer ver o povo nas ruas das nove regionais de BH. “O encontro nas ruas ainda está muito elitizado. É preciso que o carnaval chegue a todas as classes sociais de todos os pontos da cidade. Este ano já foi melhor, mas ainda há muito para avançar”, avalia. O Tchanzinho e seus 3 mil seguidores movimentaram o Bairro Jaraguá, na Pampulha. Da Praça Manoel Dias Filho, os foliões ganharam a Avenida Sebastião de Brito até a Estação Primeiro de Maio. De mêtro, grande parte do público seguiu até a Praça da Estação. Trajeto longo, que, segundo Laila, deve ser repensado para o próximo ano.

“Sabemos que vamos continuar de metrô. Mas a praça ficou pequena para a concentração e temos que buscar o melhor para o público. Estamos pensando em encurtar o caminho também. A Zona Norte é uma referência muito mais conceitual do que geográfico para o bloco”, conta. Laila quer mostrar a distância e as diferenças entre um ponto e outro. Sonha em diminuir o abismo entre as classes. A produtora sugere ainda melhor comunicação entre os departamentos do poder público, para que a mobilidade não seja tão complicada. De acordo com ela, a BHTrans – que não esteve presente na movimentação do bloco – está longe de estar preparada para o carnaval de rua.

Os endereços que bombaram

Na geografia da folia em 2015, a Praça da Liberdade, o Hipercentro e quadrantes da área hospitalar foram as regiões que mais concentraram pessoas. Além disso, alguns blocos optaram por sair em bairros mais afastados, disseminando a alegria praticamente por todos os lugares. Na Savassi, a opção por música eletrônica não atraiu os foliões e o local se tornou um ponto de encontro apenas à noite, depois dos desfiles dos blocos que passaram por outros endereços da cidade.

Em Santa Tereza, as restrições impostas depois dos problemas de 2013, quando o bairro chegou a receber cerca de 30 mil pessoas no domingo de carnaval, surtiram efeito. Os blocos mais populares da cidade escolheram outros locais para desfilar. A determinação para que a festa durasse até 21h deixou o bairro apenas para os blocos da região. Mesmo assim, durante o dia muita gente passou por lá, mas em número bem mais reduzido.

No Hipercentro, a movimentação foi intensa desde o primeiro dia, com o Então, Brilha!, com mais de 20 mil pessoas na Rua Guaicurus. Logo depois, o Bloco Praia da Estação também recebeu uma multidão. No domingo, em desfile que começou na Avenida dos Andradas, o rock do Alcova Libertina arrastou 40 mil pessoas, que terminaram a noite na Praça da Estação. Na segunda, foram cerca de 100 mil pessoas atrás do Baianas Ozadas, que começou na Praça da Liberdade e só parou na Estação.

Na Liberdade, além do recorde de público do Baianas Ozadas, o Unidos do Samba do Queixinho foi outro destaque, no domingo de carnaval. Na área hospitalar, os blocos Ordinárias e do Peixoto atraíram multidões em seus desfiles. Fora do perímetro da Contorno, o Pena de Pavão de Krishna pintou de azul a tradicional Lagoinha, com sua música zen e referências orientais.

No que depender da Prefeitura de Belo Horizonte, não vai faltar diálogo para que o mapa da folia seja melhor e mais seguro no próximo ano. É o que garante Régis Souto, secretário de Comunicação e integrante da comissão organizadora do carnaval. “A expectativa é de mais investimento. De crescimento, sem perder a característica do popular, da diversidade, do respeito à família, com segurança”, ressalta. O representante do poder público destaca as estações do samba nas regionais e diz que está atento às críticas e que espera o melhor relacionamento possível com os organizadores


O fenômeno em números

Ontem, a Prefeitura de Belo Horizonte divulgou contagem estimada do público durante o carnaval na cidade: 1,46 milhão de foliões. O gráfico da Belotur indica 289 atrações no período. Nos 13 palcos, chamados “estações do samba”, 92 apresentações e 18 DJs – só na Savassi. Blocos de rua cadastrados: 177. Dentro da programação oficial, nove blocos caricatos e seis escolas de samba passaram pela Avenida Afonso Pena.

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