Historiador Guto Borges ressalta caráter político e espontâneo do carnaval de BH

Regente comenta sobre a festa mais popular do Brasil e que, na capital mineira, está atraindo cada vez mais foliões

20/02/2015 07:37

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Beto Magalhaes/EM/D.A Press
"O carnaval é muito orgânico e está intimamente ligado à cidade, que se transforma", Guto Borges, historiador (foto: Beto Magalhaes/EM/D.A Press)
Um baú de madeira, pintado de amarelo, na Rua Cristina, no Bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, guarda parte da memória do carnaval recente de Belo Horizonte. Tecidos transparentes, coroas de reisados do congado, penas amarelas, uma saia feita de guarda-chuva, colares e fitas de todas as cores são as portas para o universo particular de Augusto Carvalho Borges, o Guto, de 33 anos. Ao receber o Estado de Minas, ele topou abrir o baú, desde que fosse ressaltado o caráter espontâneo, de luta e coletivo da folia que começou a se delinear em 2009. A camisa rosa do Tarifa Zero contrasta com os cabelos descoloridos, que compõem com o bigode o rosto que foi visto, nos quatro dias de carnaval, em toda a cidade - da Rua Leopoldina, de onde sai o bloco Mamá na Vaca, no Bairro Santo Antônio, às ruas ainda não urbanizadas das ocupações Esperança e Vitória, por onde passou o bloco Filhos de Tcha Tcha.

Seja pelas fantasias que usou , seja por ser uma figura acolhedora nos blocos que deram início à retomada do carnaval, Guto Borges atrai atenção e os flashes. O desejo de misturar e inventar o leva para as ruas e o transforma em referência na construção coletiva de um dos carnavais mais politizados do Brasil. E é de sua personalidade e atuação profissional o desejo de misturar. De família de classe média, ele interage com a periferia tendo como anfitriões seus alunos do projeto Caput, termo grego que significa cabeça. E não é mera coincidência que os cabelos de Guto sejam vistos como símbolo da troca a que ele se propõe com a cidade: da cor de muitos jovens de comunidades, o loiro é a marca de irreverência e descontração.

Primeiro regente de muitos dos blocos, com Chaya Vasquez, ele foi um dos primeiros a resgatar as marchinhas que estavam na memória de quem brincou em outros tempos, mas que estavam longe da língua de boa parte da juventude belo-horizontina, já acostumada a viajar no período. Ele também costumava viajar, mas, em 2008, passou o carnaval na quadra do bloco caricato Inocentes, em Santa Tereza. Ouviu o chamado dos tambores.

É impossível não notar Guto na multidão, mas individualismo é uma palavra que não existe em seu dicionário. Há sete carnavais, ele se junta a uma turma de amigos para pesquisar letras, fazer arranjos para baterias, reger ou tocar em um dos blocos que triplicaram a quantidade de público este ano. A primeira turma se reuniu em 2009 para criar o Tico Tico Serra Copo, que se mantém fiel à ideia de ser itinerante e, a cada ano, estar em um lugar da cidade. Este ano, ele saiu no Bairro São Geraldo, na Região Leste. “Foi tudo muito por acaso. Morava em uma casa na Rua Ramalhete. Na sexta-feira, eu e alguns amigos conversamos para fazer o bloco no domingo”, lembra. Eram 40 pessoas. No mesmo ano, descobriu que outros amigos estavam também se articulando para o Bloco do Peixoto.

Em 2010, Guto mudou-se para o Santo Antônio e, por sugestão do tio, que é seu homônimo, fez uma brincadeira com a vaca da Rua Leopoldina. “Já cheguei causando”, lembra. Os primeiros anos não foram fáceis. Guto lembra que, muitas vezes, as manifestações de ruas eram reprimidas. “Na época, havia uma determinação de que os bairros que abrigassem o carnaval seriam multados.” Como historiador, Guto recorda que a cidade já teve um carnaval forte, mas, a partir da década de 1980, começou a arrefecer até por falta de estrutura dos serviços públicos. Ele lembra que era comum dar férias para servidores, como policiais e garis, em fevereiro.

Todo ano, ele começa a folia com a abertura do baú. Este ano, foi em 12 de janeiro, quando ocorreu a primeira Praia da Estação, um movimento que defende a ocupação dos espaços públicos. “É quando começam os ensaios e o pessoal da bateria se reencontra. Vai todo mundo. O pessoal da periferia desce, os moradores de rua. É um mês muito intenso”, diz. Depois não parou mais. No pré-carnaval, saiu no Mamá na Vaca, nos blocos Tarifa Zero, Blocomum Luiz Estrela, participou do lançamento de um vinil com marchinhas de carnaval. Também foi convidado para participar do bloco Cuequinhas do Papai, na Avenida Brasil. “São mulheres que lembram as Bacantes de Niquelina, jovens rebeldes que, em carnavais passados, cortavam os cabelos e saíam com as cuecas dos pais, muitos deles militares”, lembra.

Da integração com as foliãs de outros carnavais, ganhou de presente uma cueca toda bordada com comprimidos para colocar no cabelo - peça que já integra o baú. A maratona se intensificou na quarta-feira que antecedeu o carnaval, quando foi um dos milhares de foliões do Chama o Síndico. Na quinta, saiu no bloco da Bicicletinha. Na sexta, planejava ir ao Tchanzinho Zona Norte, mas um pisão que recebeu no pé o deixou de molho. No sábado, foi um dos regentes da bateria do Então, Brilha!, que sai da Rua Guaicurus e se encontra com a Praia da Estação, na praça de mesmo nome. No domingo de manhã, foi uma das vozes do Pena de Pavão de Krishna, quando milhares de pessoas entoaram um dos mais tradicionais cantos do carnaval de BH: “É Belô, afoxé todo mundo andando a pé. No carnaval, te conheci. Transcendental, te segui”. Na segunda, foi um dos Filhos de Tcha Tcha nas ocupações Esperança e Vitória. Os tênis tomados pelo barro das ruas de terra que ficaram enlameadas com a chuva também são peças do baú. Na terça-feira de carnaval, saiu no Peixoto e à noite integrou a bateria da Escola de Samba Cidade Jardim. Na quarta de cinzas, no Manjericão, começou a fechar o ciclo que está para se encerrar, quando enfim as fantasias voltam para o baú amarelo.

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