Com melodias fáceis e refrões divertidos, marchinhas são renovadas pelo Concurso Mestre Jonas

Repertório que faz a alegria do carnaval será apresentado nesta sexta-feira, na Quadra da Escola de Samba Cidade Jardim, onde uma das 12 finalistas será eleita campeã

por Ailton Magioli 14/02/2014 06:00

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Arte / EM
(foto: Arte / EM)
No cinquentenário da 'Cabeleira do Zezé', de Roberto Faissal e João Roberto Kelly, que Jorge Goulart lançou em plena ditadura militar (1964), a marchinha continua atraindo pela crítica social, tornando-se objeto de concursos e, claro, de sucesso. Que o digam os 12 finalistas do Concurso de Marchinhas Mestre Jonas, cuja terceira edição será realizada nesta sexta-feira à noite, na quadra do Grêmio Recreativo Escola de Samba Cidade Jardim, paralelamente a baile e concurso de fantasias.


Em pleno século 21, diante da crise da indústria fonográfica, os compositores encontraram na internet o aliado ideal para divulgação de seu trabalho, atingindo milhares de pessoas, por meio de acessos a páginas como a do concurso de Belo Horizonte. “Depois que publicamos a relação das finalistas, foram mais de 20 mil”, contabiliza o coordenador do concurso, Kuru Lima, salientando que, no segundo dia de divulgação, uma das concorrentes atingiu o recorde de 150 mil acessos.

Como lembra Kuru, apesar de grande parte das letras ser de inspiração política, há concorrentes que abordam a questão comportamental, como o uso de smartphones, além das baixarias na TV. “Há também marchinhas de duplo sentido e outras que são pura poesia”, comemora o coordenador do concurso, contabilizando 139 inscrições, entre as quais saíram as 12 finalistas, que estarão concorrendo a R$ 9 mil em prêmios: R$ 5 mil para o primeiro lugar, R$ 3 mil para o segundo e R$ 1 mil para o terceiro.

“É um círculo virtuoso da produção musical mineira para o carnaval, já que há retroalimentação no processo, com as marchinhas alimentando os blocos e vice-versa. Afinal, o carnaval de rua precisa de uma trilha”, avalia Kuru Lima, lamentando apenas a carência de recursos para que a produção musical carnavalesca chegue ao público, via CD e/ou DVD.

 “Apesar de termos aprovado R$ 300 mil na Lei Estadual de Incentivo à Cultura, não conseguimos captar nada”, revela Kuru, lembrando que o único apoio do concurso veio da Belotur. A novidade deste ano é que, além de concorrentes da capital, a disputa atraiu também a atenção do interior, com a classificação de uma concorrente de Itajubá, Sul de Minas.

Acervo pessoal
"A grande brincadeira do carnaval é marchinha", diz João Roberto Kelly, autor de 'Cabeleira do Zezé' (foto: Acervo pessoal)
Músico amador, o funcionário público Pedro Vieira é autor de 'A marcha do smartphone', que ele diz ter composto sob inspiração da mulher Juliana, que usa muito o telefone de funcionalidades avançadas. “Na verdade, comecei a perceber o fenômeno do smartphone no início do ano passado”, recorda o compositor, que garante ter acordado um dia com melodia e parte da letra na cabeça.

“Para mim, só de ter classificado a composição já foi muito bom”, consola-se o estreante, que diz acompanhar o movimento carnavalesco da cidade por meio d’O Pior Bloco do Mundo, do Bairro Prado, no qual o filho Henrique desfila. Quase um veterano no evento, do qual saiu vencedor com 'Coxinha da madrasta', já na primeira edição, Flávio Henrique acredita que o grande mérito do concurso é o fato de ele estar criando um repertório que dá originalidade e personalidade ao carnaval belo-horizontino.

“As marchinhas estão saindo do concurso direto para as ruas. Isso é muito bom, elogia Flávio, chamando atenção para o fato de há cinco anos Belo Horizonte sequer ter carnaval de rua. Este ano, ele classificou 'O pano da cuíca'. Já o coletivo Canto da Lagoa, que concorre com 'Baile do pó royal', comemora a oportunidade de participar do concurso. “Somos fãs de marchinhas, que, para o compositor, são um desafio porque requerem simplicidade. É como o jingle, que também fazemos. É preciso concentração em torno de uma melodia divertida e um refrão fácil e irreverente”, afirma Thiago Dibeto.

As finalistas  
>> 'A marcha do smartphone', Pedro Edson Cabral Vieira.
>> 'Afrouxem o cinto que o piloto assumiu', Lucas Fainblat e Belisário Nogues
>> 'Baile do pó royal', Alfredo Jackson, Joilson Cachaça e Thiago Dibeto
>> 'Blocomum estrela', Gustavito, Mario Apocalipse, Kadu dos Anjos, Luiz Gabriel Lopes, André Martins e Seu Dede
>> 'Bloco da hipocrisia', Igor Oliveira, Lucas Bandeira, Victor Mazzarelo e Guilherme Araújo
>> 'Carnaval', Matheus Brant e Kdu dos Anjos
>> 'Marchinha literária', Ingrid Valk Helen Sarapeck
>> 'Monarquia Gerais' (A história de Netinho e rainha Azia), Rodrigo Picolé e Leonardo Dupin
>> 'O pano da cuíca', Flávio Henrique, Marcos Frederico e Gustavo Maguá
>> 'Pula catraca', Du Macedo
>> 'Rua Musas', Luiz Rocha e Paulinho Assunção
>> 'Toma na bonita', Leonardo Mendonza

Crônica da realidade

Reconhecida como música de carnaval do Brasil, mais popular do que o próprio samba-enredo, a marchinha viveu seu auge dos anos 1920 aos 1960, popularizando composições que se tornaram verdadeiros clássicos da MPB. Alvo de musical ('Sassaricando – E o Rio inventou a marchinha', de Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral), que está em cartaz há sete anos, o gênero vem sendo popularizado desde Chiquinha Gonzaga, que, em 1899, lançou 'O abre alas'. Noel Rosa, João de Barro (Braguinha), Ary Barroso e Lamartine Babo foram alguns autores que aderiram à marchinha, antes de ela chegar aos modernos e contemporâneos Moraes Moreira e Edu Krieger. Veterano em atividade, João Roberto Kelly, de 76 anos, será homenageado no dia 22 com um baile no Largo das Neves, na Lapa carioca, pelo cinquentenário de um de seus maiores sucessos: 'Cabeleira do Zezé'. Autor de 'Mulata iê-iê-iê' e 'Colombina', ele acaba de compor a marchinha '0800', protesto contra o alto custo de vida no país. “Costumo dizer que não sei o que eu fiz primeiro: falar, tocar piano ou compor”, relata o compositor, feliz com o sucesso das marchinhas. Com compasso binário da marcha militar, andamento acelerado, melodias simples e alegres e letras com boa dose de picardia, as marchinhas têm espírito crítico, funcionado muitas vezes como crônica musical da realidade.

PARA OUVIR:
https: soundcloud.com/ concursodemarchinhas/sets/ii-concurso-de-marchinhas

3º CONCURSO DE MARCHINHAS MESTRE JONAS
Sexta-feira, a partir 21h. Quadra da Escola de Samba Cidade Jardim, Rua do Mercado, 150, Cidade Jardim. Além do concurso musical haverá concurso de fantasias e baile. Ingressos: R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40 (inteira), à venda no site www.sympla.com.br
>>  O desconto de meia será concedido a todos que estiverem fantasiados.

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