Lilia Schwarcz e Heloísa Starling debatem livros sobre os impasses da democracia brasileira

Autoras de Brasil: uma biografia, as duas participam de evento no câmpus da UFMG nessa sexta-feira. Hoje à noite, Lilia lança a mais extensa biografia doescritor Lima Barreto

por Márcia Maria Cruz 14/09/2017 08:00
Thomas Mendel/Divulgação
(foto: Thomas Mendel/Divulgação)
Nestes tempos em que a corrupção espraia e a intolerância ruma em direção ao obscurantismo, dois livros se tornam fundamentais para desvirar este país de ponta-cabeça: Lima Barreto – Triste visionário e Brasil: uma biografia – ambos da Companhia das Letras. O trabalho minucioso para compreender os biografados tem à frente a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz.

Em Brasil: uma biografia, ela dividiu a tarefa com Heloisa Starling, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Amanhã (15/9), as duas participam de debate no câmpus da UFMG. Hoje à noite, Lilia lança a mais extensa biografia do escritor Lima Barreto, no projeto Sempre um Papo.

“Sempre digo que não existe biografia definitiva. Trata-se de um projeto do biógrafo, que dirige ao biografado questões que são suas”, diz Lilia. Para escrever a biografia de Lima, a historiadora percorreu os subúrbios, o que pode ser visto em vídeo publicado no site da Companhia das Letras. Esse percurso a ajudou também a entender o Brasil.

“Biografia não é pacto de celebração. Ao biografar um autor ou uma nação, você não tem que engrandecer. É o contrário, um pacto crítico. Você tem relação de admiração, de crítica, orgulho e decepção em relação a um país. O momento que vivemos agora é de profunda decepção com o Brasil, nosso biografado”, diz a autora.

FLIP
Em julho, na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em que Lima Barreto foi homenageado, Lilia apresentou, em uma aula pública, a história do escritor entremeada com trechos de sua obra, lidos pelo ator Lázaro Ramos. A aproximação de Lilia com Barreto ocorreu há duas décadas, durante a pesquisa de doutorado em que ela analisava o darwinismo racial. No início do século 20, essa tese encontrava adeptos entre a intelectualidade brasileira. Chamou-lhe a atenção a voz dissonante do jovem jornalista carioca, que se insurgia contra a justificação científica do racismo.

“Lia Lima Barreto há muito tempo, mas quando escrevi O espetáculo das raças, há 20 anos, fiquei muito impressionada. Diferentemente do que a gente pensa, o darwinismo racial não era uma teoria pequena e limitada em seu alcance e circulação. Ao contrário, tinha penetração na intelectualidade brasileira. Estávamos a um passo do apartheid social. Lima Barreto era uma das pouquíssimas vozes dissonantes”, explica.

Em 1952, Francisco de Assis Barbosa lançou biografia de Lima Barreto, mas não tocou na questão racial. “Lima dizia que a cor negra é a mais cortante. Quero crer, como historiadora que sou e para não fazer anacronismo, que essas questões não foram tratadas porque elas são do nosso momento. Não só a questão de raça, como a questão de gênero e de região, que trato muito. Tenho um capítulo só sobre subúrbio. E também há uma questão de geração, mostro que Lima Barreto se lançou numa geração nova que iria se contrapor à ABL (Academia Brasileira de Letras), projeto que não deu muito certo.”

RACISMO
No início do século 20, o racismo era um tema invisível, sobre o qual poucos queriam falar. “Cito textualmente o Lima Barreto. É tão inusitado o que ele escreve que é preciso entregar a voz do Lima para o leitor”, explica Lilia. O escritor carioca estabeleceu relação ambígua e de atrito com os literatos e com a ABL. Ao mesmo tempo em que fazia críticas, tentou se tornar acadêmico por três vezes, o que o afetava psicologicamente. “O sofrimento, a dor são temas importantíssimos no livro. E também esse lugar entre essa ambiguidade que ele constituiu”, diz Lilia.

A historiadora chama a atenção para o que se dizia, de maneira equivocada, em relação aos negros. “O destino das raças degeneradas, termo muito entre aspas, poderia ser visto externamente: epilepsia, tatuagem e também tuberculose e alienação. A mãe de Lima Barreto morreu de tuberculose. O pai dele foi trabalhar na colônia de alienados e, em 1902, deu sinal, ele próprio, de alienação. O Lima foi internado por causa da bebida. Mas, nessa época, a fronteira entre bebida e alienação era muito porosa. Imagina o grau de sofrimento que ele carregava quando escreveu no seu diário: ‘Por vezes, eu acho que o meu corpo está me traindo’.”

Lima assumia atitude ambivalente em relação ao jornalismo. “Em seu primeiro livro, Recordações do escrivão Isaias Caminha, ele critica o jornal em que trabalhava. Também tinha essa posição em relação às mulheres. É contra o assassinato e violência contra elas, mas também é contra as feministas. Pensa que é um bando de moças da elite brincando de fazer política”, comenta a historiadora.

Lima foi internado duas vezes, em 1914 e 1919, para tratamento psiquiátrico. “Ele fala: vejo daqui que quase todos são negros. A loucura é negra”, reforça Lilia.

A maior contribuição de Lima foi trazer o olhar de cronista para a literatura. “Como ele próprio define, fazia uma literatura militante, de muitas facetas. Na recepção da época, ele foi considerado um autor sem imaginação. O apego à realidade era sinal de falta de imaginação. Veja como o mundo roda. Agora vemos o sucesso da autoficção. Se fosse hoje, talvez ele fosse enquadrado na literatura de cunho confessional, que tem alto valor literário”, diz Lilia Schwarcz.

A democracia falhou
Em Brasil: uma biografia, Lilia Schwarcz e Heloisa Starling fazem o raio-x do país. “É uma delícia trabalhar com a Heloísa. Foi um desafio imenso. Resolvemos tratar o Brasil como biografado, como fiz com o Lima Barreto”, conta a historiadora paulista.

A dupla acabou de revisar o livro a pedido dos editores norte-americanos, que planejam lançá-lo nos Estados Unidos e na Inglaterra em 2018. Para atualizar a obra, publicada em 2015, as autoras fizeram um posfácio.

“Quando terminamos o livro, não tinha ocorrido o impeachment da Dilma Rousseff. Heloísa e eu escrevemos que a República ia mal. Era um projeto falho por causa do racismo, do feminicídio e de todos os problemas que temos na nossa agenda, mas dizíamos que a democracia ia muito bem. Não percebemos o que estava por trás das manifestações de 2013. Não vimos que a agenda do ódio estava no bojo das manifestações”, afirma Lilia. O posfácio aborda o processo do impeachment, a Operação Lava-Jato e os protestos. “Concluímos que estávamos equivocadas. A democracia não ia bem”, conclui.


BRASIL: UMA BIOGRAFIA
. De Lilia Schwarcz e Heloisa Starling
. Companhia das Letras
. 792 páginas
. R$ 64,90 (livro)
. R$ 39,90 (e-book)
. Sexta-feira(15/9), conferência das autoras, às 19h, no Centro de Atividades Didáticas 1 (CAD1). Câmpus UFMG. Av. Antônio Carlos, 6.627, Pampulha



LIMA BARRETO – TRISTE VISIONÁRIO
. De Lilia Schwarcz
. Companhia das Letras
. 648 páginas
. R$ 69,90 (livro)
. R$ 39,90 (e-book)
. Hoje (14/9), às 19h30, Lilia Schwarcz participa do projeto Sempre um Papo, no auditório da Cemig. Rua Alvarenga Peixoto, 1.200, Santo Agostinho. Entrada franca. Informações: (31) 3261-1501

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