Série convida especialistas a revelar estilo de grandes escritores

Autora do livro sobre Clarice, que abre a coleção, diz que " literatura é o maior manancial" para o país se conhecer

por Ana Clara Brant 10/09/2017 10:12
Instituto Moreira Salles/Divulgação
(foto: Instituto Moreira Salles/Divulgação)
O que é necessário para amar algo ou alguém? Antes de mais nada, conhecê-lo ou conhecê-la. Foi pensando nisso que o publisher da Faro Editorial, Pedro Almeida, criou a série literária Para amar... O objetivo da coleção é aproximar as obras de seus leitores. “Temos uma cultura de livros forte em dois campos – na aposta em obras de temas muito populares e no seu extremo oposto. Muitas pessoas do meio também estão descoladas da realidade do que ocorre nas escolas, pois lá os clássicos nem sempre são inseridos para ser lidos, mas na forma de resumos para passar em provas. Explicar sobre a importância desse tipo de publicação para editores, você pode não acreditar, foi sempre algo muito difícil. Tanto que tive de esperar ter minha própria editora para realizar o projeto”, afirma Almeida.

Passaram-se 15 anos entre a ideia inicial do publisher e sua realização, com o recente lançamento dos dois primeiros volumes da coleção, dedicados a Clarice Lispector (1920-1977) e Graciliano Ramos (1892-1953). É objetivo da coleção, segundo Almeida, subsidiar o leitor com informações que lhe permitam conhecer os traços estilísticos de cada um, de modo que ele possa não apenas visualizá-los no texto, mas perceber o processo de criação. “A proposta da série é mostrar como a arte desses autores se dá no texto”, afirma.

O professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP) Ivan Marques é o responsável pelo livro dedicado a Graciliano Ramos. Ele destaca que a obra do escritor alagoano, apesar de sua concisão (compreende apenas quatro romances, todos lançados na década de 1930), é um monumento da literatura brasileira. A intenção foi destacar e comentar as características particulares do estilo de Graciliano e também as qualidades inovadoras de sua prosa, em que o enredo é menos importante do que a pesquisa psicológica, por exemplo. “Em sua obra, também são importantes os aspectos éticos, o interesse em discutir criticamente os impasses da sociedade brasileira, a reflexão sobre o papel do intelectual, a preocupação com os novos papéis reservados à mulher, entre outros tópicos. No que diz respeito ao estilo, procurei mostrar que, apesar do extremo domínio da língua, da secura e da concisão extraordinárias, há momentos em que a forma confessional, motivada pela irrupção violenta da subjetividade, corrói esses mesmos princípios tão associados ao escritor ‘clássico’ e totalmente consciente de suas ações”, frisa.

Para Marques, o autor de Angústia e Vidas secas foi a principal revelação da década de 1930, considerada a era do romance no Brasil. O professor acredita que Graciliano foi o ponto de convergência das várias tendências da narrativa de ficção naquele período, realizando uma obra ao mesmo tempo regional e universal, social e psicológica, realista e introspectiva, clássica e moderna. “Ele representa, portanto, um ponto de maturação e síntese. Os graus de exigência de Graciliano com sua própria escrita influenciaram de maneira decisiva os rumos da literatura brasileira no século 20, bem como os temas abordados, que reapareceram em outras obras importantes da cultura brasileira: na pintura de Portinari, na poesia de João Cabral de Melo Neto, no cinema moderno de Nelson Pereira dos Santos”, cita.

Ivan Marques defende que não amar Graciliano seria impossível. E observa que, para além dos enredos e dos personagens complexos e fascinantes, há em sua literatura qualidades estilísticas muito elevadas, que fazem da leitura de seus romances uma experiência única. “A consciência crítica sempre aguçada do escritor nos leva a refletir em profundidade e sem ilusões, não apenas sobre a condição humana, mas também sobre os problemas históricos da sociedade brasileira. É uma literatura ao mesmo tempo engajada e experimental (em suma, revolucionária em todos os sentidos), e pela rara combinação desses traços se torna algo irresistível para todos os leitores”, comenta.



CLARICE

Já a professora Emília Amaral, doutora em literatura pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é a autora do livro sobre Clarice Lispector. A pesquisadora defende que o Brasil precisa, mais do que nunca, se conhecer. “E a literatura é o maior manancial. Ampliar o público de literatura brasileira na escola e/ou fora dela, e conseguir um efetivo trabalho de leitura de nossos clássicos, é meio caminho andado para literalmente sairmos do buraco da falta de educação, cultura e, portanto, discernimento, em amplo sentido”, analisa.

Emília diz que procurou focar em como as obras de Clarice “conversam”, como se iluminam mutuamente e como essa percepção torna a leitura ao mesmo tempo mais prazerosa e produtiva. “Clarice Lispector nos ensina a humanidade, a humildade, a beleza de cada criatura, à qual muitas vezes somos cegos, por excesso de domesticação, alienação, falta de refinamento da sensibilidade. Acredito que seu principal legado foi mostrar que a linguagem não é um instrumento retórico que se preste à função de ornamento, persuasão barata e tantas outras falcatruas. Principalmente na literatura, mas não só, ela é sagrada, pois se trata do principal modo pelo qual podemos, de alguma forma sempre incompleta, mas sempre deslumbrante, vislumbrar o que chamamos de realidade e assim ampliar nossos limites”, afirma.

três perguntas para...

PEDRO ALMEIDA
publisher da Faro Editorial


Na “orelha dos primeiros” volumes da coleção há duas perguntas: por que alguns autores se tornam clássicos? E por que continuam a ser lidos e admirados depois de tantas décadas?. Como o senhor responde a elas?

Os autores se tornam clássicos quando criam algo universal e perene, que nem o tempo é capaz de reduzir o valor do que produziram. Esses autores criam marcas estilísticas próprias, de modo que seus leitores, mesmo sem ver o título do livro, são capazes de identificar o autor por trechos. O estilo próprio é a arte de suas literaturas.

Por que a ideia de abrir a série com Graciliano Ramos e Clarice Lispector?

Clarice sempre foi uma primeira escolha, e posso dizer que há muito de pessoal. Ela é a autora brasileira que sempre me emociona quando leio. Tive a sorte de ter a professora Emília Amaral, desde o início, animada com o projeto. A proposta original era lançar os primeiros três volumes, com Graciliano e Machado também, mas o livro de Machado teve de ser adiado para 2018. O próximo será justamente ele. Mas já estamos pensando em mais nomes, incluindo autores portugueses.

O que é necessário para amar um livro ou um escritor?

Conhecê-lo de fato. As pessoas precisam de orientação. A literatura brasileira é empurrada para os leitores como uma obrigação, então vejo que muita gente só a conhece por resumo para passar em provas. Sem orientação do que observar, os leitores acabam por ignorar os pontos importantes em sua escrita, no estilo, no contexto. Ao oferecer essa dimensão aos leitores – de orientar sobre o que procurar em cada autor –   nós quisemos inverter o jogo: não é o autor quem tem de se adequar aos leitores.




Para amar Clarice

. Autora: Emilia Amaral
. Editora: Faro (160 págs.)
. Preço sugerido: 29,90



Para amar Graciliano

. Autor: Ivan Marques
. Editora: Faro (179 págs.)
. Preço sugerido: 29,90

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