Conheça as bailarinas que interpretam Maria Padilha e Tranca Ruas em 'Gira', do Grupo Corpo

As bailarinas Dayanne Amaral e Yasmin Almeida emocionam o público em espetáculo que encerra temporada mineira nesta sexta-feira, 08

por Márcia Maria Cruz 08/09/2017 08:30

Entre as lembranças de infância de Dayanne Amaral Silva não estava o sonho de ser bailarina. Espoleta, ela não se via no papel da delicada princesa se equilibrando sobre sapatilhas de ponta. Já em suas primeiras palavras, Yasmin Almeida revelou à mãe, de pronto, o interesse pela dança. Dayanne vem de Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte. Yasmin foi criada no Bairro São Geraldo, Região Leste da capital.

Yasmin – 24 anos, 1,64m de altura – e Dayanne, de 26, 1,58m de altura – ocupam todo o palco do Grande Teatro do Palácio das Artes em Gira, espetáculo do Grupo Corpo que encerra nesta sexta-feira, 08, sua temporada em BH. A coreografia de Rodrigo Pederneiras homenageia Exu, o mensageiro que liga chão e céu – espírito comprometido com o caos, de onde tudo parte.

As bailarinas representam dois arquétipos que se apresentam na incorporação dos guias espirituais Tranca Ruas das Almas e Maria Padilha. Yayá, como os amigos chamam Yasmin, traz para o palco energia que arrebata e leva o corpo-carne ao chão. Com seu charme, a Maria Padilha de Dayanne, a Day, seduz e envolve. Consciente de sua força, Padilha brinca com o outro.

Tarefa nada fácil para ambas, que fizeram meses de laboratório na Casa do Divino Espírito Santo das Almas, terreiro de umbanda no Bairro São Geraldo. Em seguida, Yayá e Day tiveram que introjetar as marcações precisas e complexas de Rodrigo Pederneiras. Procuraram dar vida às entidades, mas sem cair em clichês, o que exige esforço para dosar a interpretação. Yasmin saiu da leveza que lhe é própria para alcançar os gestuais de Tranca Ruas. Dayanne se valeu da força e explosão, que constituem sua identidade como bailarina, para apresentar Maria Padilha.

Com histórias de vida bem diferentes, as duas se igualam na maneira virtuosa de dançar, exímias e precisas nos movimentos. Talvez por essas traquinagens de Oxalá, ambas passaram a integrar, no mesmo ano (2012), o elenco do Grupo Corpo. Se a umbanda não fazia parte do universo de Dayanne até o início da montagem de Gira, Yasmin, desde criança, sabe que o terreiro é um lugar sagrado, onde as pessoas procuram o equilíbrio.


''É bom ter mais a oferecer''

Leandro Couri/EM/D.A PRESS
Dayanne Amaral fez teste para o Grupo Corpo sem 'botar fé' de que iria entrar. (foto: Leandro Couri/EM/D.A PRESS)

Dayanne Amaral encontrou a dança aos 9 anos, quando frequentava um projeto da Prefeitura de Nova Lima. ''Minha mãe fez a inscrição'', conta. Ao se destacar no programa, ela ganhou bolsa para o Ballet Cristina Helena, localizado no Belvedere, em Belo Horizonte. Tempos depois, ingressou na Cia. Sesiminas, de onde seguiu para o Grupo Corpo, cujo elenco integra há cinco anos. ''Meus pais lutaram tanto por mim... Balé é caro, roupas e as sapatilhas são caras'', diz.

Quando começou a dançar, Dayanne não se importou com os comentários de que as meninas negras enfrentam mais dificuldade para se tornar bailarinas. ''Tenho muita energia, força, uma presença muito forte. Desde criança era muito explosiva – às vezes, não precisava tanto. Fazer a princesa é muito difícil'', afirma.

O Grupo Corpo ensinou-lhe a dominar tanta energia. ''Na infância, já tinha muita presença. É bom ter mais a oferecer. Trabalho para colocar técnica. Aqui no Corpo a gente aprende a dosar'', explica Day.

A primeira bailarina negra do Grupo Corpo foi Regina Advento, que atualmente faz parte da companhia de Pina Bausch, na Alemanha.

Dayanne viu pela primeira vez um espetáculo do Grupo Corpo apresentado por uma professora de balé. Era Lecuona, que estreou em 2004. A menina estudava jazz e balé clássico, mas, naquele momento, descobriu o que queria. Trocou a sapatilha de ponta pela dança contemporânea. ''Sabia que não seguiria no balé.''

Até chegar ao solo de Gira, Dayanne contou com o apoio da avó, Mirtes dos Anjos Teixeira, que não se rogava em deixar os compromissos de lado para levar a neta às aulas na capital. A jovem, que ainda mora com os pais, Daniela Amaral e Walace Wanderley da Silva, tornou-se um orgulho de Nova Lima.

Em 2010, ela participou de audição no Corpo, foi até a final, mas não entrou de imediato no elenco. Prometeram chamá-la quando aparecesse uma oportunidade. ''Não botei muita fé'', revela. Dois anos depois, Dayanne foi convidada por Paulo Pederneira a integrar a companhia. Em cinco anos, dançou as coreografias Bach, Parabelo, Benguelê, Imã, O corpo, Sem mim, Dança sinfônica, Suíte branca e Gira.

Dayanne já fez turnês nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Uma delas foi especial: ''Fomos para a Rússia, do Bolshoi.''

''Gosto de desafios''

Leandro Couri/EM/D.A PRESS
A pré-estreia em BH foi um dos dias mais especiais que Yasmin Almeida viveu. (foto: Leandro Couri/EM/D.A PRESS)
 

Yasmin Almeida não tem dúvida: a mãe é sua bússola no universo da dança. Aliás, Consuelo Silva é o porto seguro da filha. ''Ela sempre foi a minha base para tudo, nunca me deixou esquecer quem eu sou e de onde vim'', conta. ''Vim da Escola de Dança Suelly Freire, no Bairro São Geraldo, e sou o resultado de profissionais incríveis que passaram por minha vida.''


Yasmin nem sequer falava quando o balé entrou em sua vida. ''Minha mãe conta que quando eu era pequena, dançava o tempo todo e pedia para fazer balé'', revela.

O padrasto Leonard Henrique teve papel fundamental na carreira da jovem mineira. Foi o primeiro professor de balé de Yasmin e hoje lhe dá suporte e conselhos. ''Primeiro, fui aluna dele. Depois, ele se casou com aminha mãe'', diz.

Léo, como Yasmin o chama, é diretor técnico do Teatro Castro Alves, em Salvador. Isso faz com que a família se reveze entre Belo Horizonte e a Bahia, onde a bailarina morou por cinco anos.

Em Salvador, profissionais da Escola do Bolshoi viram a mineira dançar e a convidaram para se mudar para Joinville (SC), onde fica a sede brasileira da companhia. Em 2012, ela ingressou no Corpo. ''Tive que aprender as coreografias de quatro balés de uma só vez. Isso é muito legal, pois não nos deixa cair na zona de conforto. Gosto de desafios'', conta. Yasmin dançou Benguelê, Lecuona, Triz, Dança sinfônica, Suíte branca, Bach e Gira.

Para ela, a pré-estreia de Gira em BH, em 1º de setembro, foi um dos dias mais especiais que viveu. Filha de santo, Yasmin frequenta o terreiro desde os 13 anos. ''Tive um ano atípico. Fui obrigada a pôr gesso seis vezes no corpo. Não rendia na escola e no balé, estava sempre quebrada. Fui para o candomblé cuidar do meu espiritual'', lembra.

Única bailarina do Corpo ligada à religião afro-brasileira, Yasmin abriu o caminho para que os colegas chegassem à Casa do Divino Espírito Santo das Almas. ''Em BH, a estreia foi muito especial. Os amigos do terreiro estavam todos lá: pai Marcelo, Dudu, tia Lúcia. Dancei pra eles'', conta.

Yasmin não tem dúvida de que está no melhor lugar, fazendo o que mais gosta. Ela também estuda design de interiores. Entre as turnês, tenta concluir o curso. ''Viajo o tempo inteiro. O Grupo Corpo nos abre um mundo de possibilidades. Ele nos instiga, faz com que a gente enxergue o mundo de outra forma'', conclui.


GIRA

Com Grupo Corpo. Palácio das Artes – Av. Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Sexta-feira (8/9), às 20h30. Ingressos esgotados.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS