Chimamanda Ngozi Adichie lança livro de contos no Brasil

'É moralmente urgente termos conversas honestas sobre como preparar um mundo mais justo para mulheres e homens', diz a escritora

por Agência Estado 05/09/2017 08:30
Angela Weiss/AFP
'Escrever ficção é um processo de contar a minha própria verdade', diz. (foto: Angela Weiss/AFP)

Chimamanda Ngozi Adichie virou estrela na internet: suas participações no programa de palestras TedtTalks somam milhões de visualizações. Um trecho foi usado por Beyoncé na canção Flawless (outros 60 milhões de cliques no YouTube). Suas duas obras mais recentes são manifestos feministas que figuram nas listas de mais vendidos mundo afora. Mas o livro que chegou recentemente ao Brasil, No seu pescoço, seleção de contos publicada nos EUA em 2009, vem para lembrar que a nigeriana é, antes de tudo, escritora de ficção.

Em 12 histórias curtas, a autora explora temas que aparecem em seus romances, especialmente Meio sol amarelo e Americanah (que transformou Chimamanda em celebridade): migrações entre África e EUA, relacionamentos amorosos, a relação de mulheres negras com o próprio cabelo. Racismo.

O desafio que ela se coloca, entre ser artista e ativista ao mesmo tempo, é buscar a ''verdade emocional'', porque concorda que escritores em missão podem se tornar maus autores. ''Quando artistas permitem que a missão afunde todo o resto, quando personagens se tornam não defeituosos e complexos, mas falantes ‘achatados’, isso (fazer arte ruim) pode ser verdade'', afirma. ''Dito isso, realmente acho que a maior parte dos artistas está numa missão. A questão é se essa missão é bem executada. O próprio ato de escrever, de contar uma história, é político. Porque a arte não cai do céu. A arte que criamos é um produto dos espaços que ocupamos no mundo. Não penso que a missão deva ser grandiosa, ela pode simplesmente ser, por exemplo, a missão de humanizar uma parte do mundo que há muito foi enredada no estereótipo'', afirma

CONTRADIÇÃO O sucesso com o ativismo feminista também é ambíguo para a escritora. Ela relata vários casos de pessoas (homens) que lhe dirigiram hostilidades em eventos públicos, num nível que ela não havia experimentado antes. ''E agora me chamam para qualquer evento feminista no mundo'', brinca.

''Quando escrevo sobre feminismo, isso vem de um lugar ideal, de um desejo de trabalhar em direção a um mundo que é verdadeiro e igualitário'', diz.

Para educar crianças feministas: um manifesto (Companhia das Letras) é a versão reduzida de uma carta que Chimamanda enviou para uma amiga, que lhe pediu conselhos sobre como criar a filha como feminista. ''É moralmente urgente termos conversas honestas sobre outras maneiras de criar nossos filhos, na tentativa de preparar um mundo mais justo para mulheres e homens'', escreve. A autora tem um bebê de 1 ano e 8 meses. O livro está entre os 10 mais vendidos do Brasil deste ano na categoria não ficção.

Sobre os contos de No seu pescoço, Chimamanda diz que eles representam um lugar na sua carreira, mas não demonstra muito entusiasmo ao falar deles. A recepção da crítica em língua inglesa, na época do lançamento, foi diversificada.

Michiko Kakutani escreveu no The New York Times que o livro, em comovente coleção de contos, mostra que a África ''não é aquela África com que os americanos estão familiarizados pela televisão ou manchetes de jornal''. Em outra resenha no mesmo veículo, o crítico Jess Ross escreve que em alguns contos Chimamanda parece tentar ''entregar as notícias que o Ocidente quer ouvir sobre a África: vítimas de dar pena, vilões incorrigíveis, sobreviventes inspiradores''. Em seguida, porém, ressalta que essa impressão não dura muito e que a autora ''calmamente eviscera as pretensões dos ocidentais cujo interesse na África mascara uma venalidade gananciosa e vaidosa''.

''Escrever ficção é um processo de contar a minha própria verdade. Ao mesmo tempo, espero levar outras pessoas comigo'', diz Adichie. ''Não pretendo, na minha ficção, mudar a cabeça de ninguém, mas sempre fico feliz ao escutar que mudei.''

A escritora rejeita a ideia de que seus contos tratam de mal-entendidos. ''Culturas são diferentes e pessoas olham de maneiras diferentes para as mesmas coisas'', explica. 

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