Teresinha Soares autografa o livro de crônicas em que retrata suas experiências

Feminista e anticonvencional, artista plástica foi pioneira e aos 90 anos diz: 'A mulher sempre foi o meu leitmotiv'

por Francelle Marzano 30/08/2017 08:30

Pablo Pires/EM/D.A Press
Primeira vereadora de Araxá, Teresinha Soares introduziu a linguagem da performance em BH. (foto: Pablo Pires/EM/D.A Press)

Mulher plural, à frente de seu tempo. Assim pode ser definida a artista plástica Teresinha Soares, que lança nesta quarta-feira, 30, na Academia Mineira de Letras, Acontecências: crônicas dos anos 60, 70 e 80 (Editora Cobogó). O livro traz textos escritos entre 1967 e 1983.

Teresinha fala de artes plásticas, experiências de vida e de suas viagens. Nas décadas de 1960 e 1970, ela chamou a atenção com obras polêmicas, na contramão do conservadorismo da tradicional família mineira. Feminismo, erotismo e liberação sexual das mulheres eram temas desses trabalhos.

O livro reúne 44 crônicas publicadas no Estado de Minas e em outros jornais da capital, além de dois textos inéditos. Teresinha, de 90 anos, classifica a primeira parte do volume como intimista, enquanto a outra destaca suas vivências no Brasil e no exterior.

''As pessoas me definem como boneca russa, com muitas personas em uma só. Acredito que sou assim mesmo. Sou o que sou. Naquela época, só queria colocar minha arte pra fora, falar sobre o sofrimento, o preconceito e a violência que a mulher vivia. Desde o começo, a mulher foi o meu leitmotiv'', afirma.

Rebelde que convivia com a alta sociedade mineira, a artista abordava as questões femininas de forma intensa. Em Cor-pus meus versus o mar, ela diz: ''Autografei várias poesias assim: ‘Cor-pus meus em 65kg de carne curtida’. Pés pesados pisaram o piso. Marcaram e massacraram meu rosto de pôsteres posto no chão. Um homem me perguntou: por quê? Ao invés de corpo pisado deveria ser amado. Proposição proposta.'' A crônica foi escrita em 1971, quando ela expôs a obra Corpo a corpo in cor-pus meus na Petite Galerie, no Rio de Janeiro.

Nesta quarta-feira à noite, Teresinha vai fazer a palestra ''Uma mulher plural''. E avisa: enquanto puder, continuará lutando pelos direitos femininos. ''A mulher tem direito ao sexo, tem direito de ser dona de suas ações. Precisamos lutar contra a opressão que ela sofre até hoje. Há 50 anos, a lei permitia que o homem traído lavasse sua honra agredindo ou matando sua mulher. Hoje isso mudou, mas ainda precisamos de muito mais'', defende.

CAPETA Teresinha diz que sempre preferiu calças a vestidos. Foi pioneira em vários momentos de sua vida. Na cidade natal, Araxá, foi a primeira mulher a trabalhar em um banco e a primeira vereadora. ''Como diz o crítico Frederico Morais, realista e erótica, minha obra é como a cruz para o capeta. Naquela época, esses assuntos eram tabus e são até hoje. Buscava falar deles com humor, era uma coisa engraçada. As pessoas ficavam boquiabertas comigo. E sei que muitos indagavam: ‘Gente, será que isso é arte?’'', lembra ela.

Teresinha Soares participou de duas edições da Bienal Internacional de São Paulo, em 1967 e 1973. Pioneira, introduziu a performance em Belo Horizonte. Sua obra inclui pinturas, gravuras, objetos, hapennings e instalações que chamaram a atenção do Brasil e do mundo.

Em 2015, sua exposição The EY exhibition: The world goes pop ficou em cartaz no Tate Modern, respeitado espaço cultural de Londres. Em 2017, o Hammer Museum, em Los Angeles, exibiu Radical women: latin american art 1960-1985, com trabalhos dela. Também este ano, o Museu de Arte de São Paulo (Masp) apresentou a retrospectiva Quem tem medo de Teresinha Soares?.


ACONTECÊNCIAS: CRÔNICAS DOS ANOS 60, 70, 80
. De Teresinha Soares
. Org: Rodrigo Moura
. Cobogó
. 184 páginas
. R$ 39,90

. Lançamento quarta-feira (30/8), às 19h30. Academia Mineira de Letras. Rua da Bahia, 1.466, Lourdes. Entrada franca

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