Ruy Castro e Heloísa Seixas lançam livros no Sempre um Papo desta segunda, 28

Ruy Castro fala de 'A onda que se ergueu no mar', reedição ampliada sobre a bossa nova, e Heloísa do romance 'Agora e na hora'

por Márcia Maria Cruz 28/08/2017 07:51

Carlos Reis/Divulgação
Os escritores Ruy Castro e Heloísa Seixas opinam e ajudam na escrita um do outro (foto: Carlos Reis/Divulgação)
Na sabedoria popular, o símbolo da união de um casal costuma ser a prosaica cena das escovas de dente lado a lado. Essa imagem, que indica intimidade no cotidiano, não faz jus a mais de duas décadas de união entre Heloísa Seixas e Ruy Castro. Talvez, duas máquinas de escrever pareadas possam simbolizar melhor. Companheiros na escrita, os dois são os convidados da próxima edição do Sempre um Papo, que será realizado nesta segunda-feira, no auditório da Cemig, no Santo Agostinho. Heloísa vem lançar Agora e na hora (Companhia das Letras), que narra a história de um autor que resolve escrever livro de contos sobre a morte e depois dar cabo da própria vida. Ruy relança A onda que se ergueu no mar – Novos mergulhos na bossa nova, livro lançado em 1990 que se tornou referência na história do gênero musical.


A onda que se ergueu no mar recebeu cinco textos novos: levantamentos sobre outros personagens realizados por Ruy nos últimos 10 anos. Também está de cara nova. A capa original (uma foto em preto e branco de Tom Jobim com molinete na mão à beira mar enquanto fumava) foi custutuída por desenho na capa de vários 78rpm. da gravadora Copacabana nos anos 1950.


Ruy retoma episódios saborosíssimos da vida de Tom Jobim, João Gilberto, Nara Leão, João Donato e toda a turma que marcou a música popular brasileira com gênero que conquistou o mundo. Um dos principais nomes do gênero biográfico no Brasil – publicou O anjo pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues (1992) e Estrela solitária – Um brasileiro chamado Garrincha (1996) –, Ruy revela que as narrativas seguiram o mesmo processo das biografias: pesquisa em originais e documentos, conversa com pessoas que protagonizaram ou testemunharam os fatos e muita atenção ao escrever. “Donde pode-se dizer que certos capítulos, como os referentes a Orlando Silva, Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf e João Donato, são minibiografias.”

Heloísa apresenta a história de maneira bem inusitada: são dois livros em um. Em Livro 1, os contos sobre a morte de um escritor fracassado. Em Livro 2, a história dele. A autora, com essa estratégia literária, possibilita ao leitor diferentes caminhos de leitura, podendo tanto começar com um ou por outro. “Pode ser lido ao contrário, como o Jogo da amarelinha”, diz Heloísa, referindo-se ao livro de Júlio Cartázar.

TAREFA Em entrevista ao EM, Heloísa brinca que, enquanto cabe ao marido falar de vida e da bossa nova, a ela cabe a tarefa de abordar a morte. A responsabilidade de ela escrever sobre o tema, como se diverte dizendo, se deve aos sustos que o companheiro já lhe deu. “Acho um desaforo. O ameaçado de morrer é ele”, diz. Ela lembra, inclusive, O oitavo selo – quase romance (Cosac Naify, 2014), em que ela conta de maneira ficcional os sete confrontos do companheiro de mais de duas décadas com a morte.

A parceria de vida e de escrita dos dois será selada com o lançamento em novembro, pela Companhia da Letras, de Tréfego e peralta: 50 textos deliciosamente incorretos. O livro traz artigos escritos por Ruy ao longo de 50 anos como jornalista. “Organizei o livro com o Ruy no meu pé. Ele fez uma pré-seleção e me deu uma massa gigantesca com mais de 200 textos. Ele opinou, mas a palavra final é minha”, brinca. Heloísa alerta que, como o título indica, não há qualquer compromisso com o politicamente correto, ao contrário, o leitor encontrará muita provocação e textos saborosíssimos, como por exemplo, uma entrevista feita por Ruy a Millôr Fernandes (1923- 2012).

A ONDA QUE SE ERGUEU NO MAR – NOVÍSSIMOS MERGULHOS NA BOSSA NOVA
De Ruy Castro
Companhia das Letras
392 páginas
R$ 59.90

AGORA E NA HORA
De Heloísa Seixas
Companhia das Letras
144 páginas
R$ 34,90 (livro) e R$ 23,90 (ebook)

Alexandre Guzanshe/EM/DA PRESS
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA PRESS)

TRÊS PERGUNTAS PARA
Ruy Castro, 
escritor

Você inicia a narrativa com a constatação de que se ouve mais bossa nova nos dias atuais do que na década de 1960, mas que, ao mesmo tempo, o gênero não está nas paradas de sucesso. O que essa contradição revela?

A bossa nova ocupou todas as gravadoras e rádios brasileiras até cerca de 1966, quando foi súbita e completamente evaporada. Quando finalmente voltou, a partir de princípios dos anos 1990, e se restabeleceu como um gênero válido da música brasileira, as condições em volta haviam mudado. As paradas de sucesso, por exemplo, não levam mais em consideração a qualidade da música. Já as lojas de discos passaram a ter mais discos de bossa nova do que em qualquer época. É por isso que eu digo: a bossa nova hoje é como os sabiás e os bem-te-vis. Eles não estão na parada de sucessos, mas cantam o dia todo.

Você costuma brincar que, se reescrevêssemos a Constituição brasileira, um artigo a ser acrescentado teria que dizer que “todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão”. Por que a bossa nova seria a trilha de um país ideal? Estamos muito distante desse Brasil da bossa?
Porque a bossa nova é feita de melodia, harmonia e ritmo, suas letras falam da beleza e seus praticantes sempre pregaram a ecologia e a defesa das cidades e da natureza. Infelizmente, nunca estivemos tão distantes dessa realidade. O Brasil se acafajestou de algumas décadas pra cá.

Você é um apaixonado pela bossa nova. A paixão pela música é maior que a paixão pelo futebol? Ao que parece, na literatura você tem dado igual atenção a essas duas paixões. Essa impressão está correta?
Não só pela bossa nova. Sou apaixonado também pelas canções brasileiras dos anos 1920, o samba dos anos 1930 e 1940, o samba-canção dos anos 1940 e 1950 e o carnaval de todas as épocas, além do jazz e da música americana de 1920 a 1960, do tango, do bolero, do mambo, das canções francesas, das valsas vienenses e de toda música popular que contenha música. Gosto também do rock and roll dos anos 1950 e de muita coisa pop dos anos 1960, inclusive os Beatles. Hoje, se não tivesse vitrola em casa, não faria muita diferença, porque está sempre tocando alguma coisa na minha cabeça. O futebol é diferente – o coração está ocupado há 60 e tantos anos pelo Flamengo e não sobra espaço para ideologias exóticas. E você não mencionou o cinema, a literatura, o teatro. Sou apaixonado por muitas coisas e, ao escrever, trato delas de acordo com a oportunidade.


Cris Isidoro/Divulgação
(foto: Cris Isidoro/Divulgação)

TRÊS PERGUNTAS PARA
Heloísa Seixas, escritora

Como nasceu a ideia de escrever o Livro 1 e o Livro 2?

O personagem desse escritor maluco me apareceu: ele que quer escrever sobre a morte, a hora da morte de outros escritores e depois se matar. Matar-se em cima dos originais, o que seria uma forma de vingança ao mundo. Pensei que ele escreveria histórias. Num primeiro momento pensei em entremear a narrativa com as histórias dele, mas depois decidi dividir. Fiquei na dúvida se seriam primeiro as histórias escritas por ele e depois a história dele ou o contrário. Deixei a decisão para a melhor amiga dele, que encontrou o corpo. Em todos os meus livros tinha uma obsessão para terminar. Com esse, levei 10 anos para escrever. Escrevia, parava e voltava.

O que fez com que você demorasse tanto tempo?
Tem relação com o medo, o medo de morrer. Lembrei-me do escritor Marcos Santarrita, que fazia traduções, era muito dedicado, escrevia livros imensos. O escritor do meu livro pensa em se matar, mas descobre que está condenado à morte, está com câncer no pulmão. Pensei nisso muito antes de saber que Santarrita estava com câncer (faleceu em outubro de 2011). Por isso, resolvi dedicar o livro a ele. Conto no final que a ideia da morte me assombrou. Mas dei uma volta no meu escritor e com isso perdi o medo. Percebi que tinha o comando, que era eu quem mandava.

Você fala de um mundo distópico, quando em vez de recorrer aos livros as pessoas implantam chips de informação. Você acredita que viveremos numa época sem livros?
A primeira história do Livro 1 tem a ver com ficção científica. Não acredito no fim do livro. Temos visto livrarias de rua sendo reabertas e a venda de e-book tem caído. Mas a questão não é o suporte. O que importa é a história, a fantasia, contar, imaginar. Não vejo um futuro sem livro, quem escreveu isso foi ele (o personagem escritor). O meu livro é sobre escritores e escrever. Amo a palavra. E em última instância, é uma declaração de amor: o escritor dá literalmente o sangue por seu livro.

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