Entrevista com a escritora Pilar Del Rio

Viúva de José Saramago fala sobre o livro 'Cartas ao Mundo', sobre amizade entre o marido e o escritor Jorge Amado

por Nahima Maciel 25/08/2017 11:39
O que Com o mar por meio acrescenta para os leitores dos dois escritores?

O tamanho desse afeto. As confidências feitas sem preocupação indicam por qual caminho iam as conversas que eles mantiveram ao longo desses anos em diferentes países. É um livro de solidariedade em tempo real. Também se evidenciam preocupações com relação à situação política do Brasil e o empenho em defender a literatura em língua portuguesa.

Amado e Saramago conversavam muito sobre prêmios e ficavam genuinamente felizes quando um ou outro era agraciado. E Saramago revela, inclusive, uma certa angústia em relação ao Nobel e às cobranças para que ganhasse. Como era essa questão dos prêmios? Era realmente uma angústia?
José Saramago chega a dizer que o Nobel é uma “invenção diabólica”, não pelo prêmio em si, claro, mas porque quando chegava outubro chegava o bombardeio de comentários, de apostas, de telefonemas sobre o assunto. E então, o escritor sentia-se angustiado, como se dependesse dele ganhar o prêmio, como se, ao não recebê-lo, estivesse decepcionando os amigos. Portanto, é natural que eles também comentassem sobre isso – os dois estavam nas listas dos premiáveis –, faziam confissões e até piadas sobre o assunto. Posso assegurar que, se o Jorge Amado tivesse recebido o prêmio, José Saramago o teria acompanhado a Estocolmo. Lamentavelmente, quando Saramago recebeu, Jorge não pôde ir por razões de saúde, mas os dois, ao saber da notícia, agradeceram aos escritores de língua portuguesa que haviam aberto caminho.

Sei que a senhora acompanha os acontecimentos políticos no Brasil. O país vive um momento especial de crise e questionamento das instituições, assim como o mundo vive uma guinada em direção ao conservadorismo. A senhora acredita que esta onda está apenas no início? Como encara este momento?
Espero, sempre, que o sentido de responsabilidade dos cidadãos atue em benefício de todos e não de elites. Quero pensar que seremos cidadãos que, escolhendo bem, com razão, consciência e honestidade, façamos com que esta sociedade não seja só para consumidores, senão para todos. Não consigo entender que a tecnologia não nos sirva para viver melhor, mas sim para expulsar a milhões de pessoas do trabalho e de uma vida em condições de dignidade e conhecimento. Não entendo que, às vezes, sejamos cúmplices de quem nos escraviza. Enfim, confio que a lucidez que José Saramago descreveu no Ensaio sobre a lucidez se imponha sobre a manipulação de que somos vítimas diariamente.

Ao mesmo tempo, o Brasil também vive um momento de empoderamento de discursos feministas relativos a identidades de gênero e de raça. Como enxerga esse movimento?

O feminismo é o movimento de igualdade que estávamos precisando. Não ser feminista é similar a ser escravagista. A decência diz que é preciso vencer o lugar-comum e respaldar que homens e mulheres são iguais na casa, no trabalho, nas instituições, na religião; que não pode haver normas coercitivas por costumes ou interesses. Feminismo é decência, simplesmente. Nada mais e nada menos do que isso.

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