Livro de correspondências entre Jorge Amado e Saramago revela carinho entre os gênios

Amizade evidenciada em 'Cartas ao mundo' começou tardiamente, mas foi muito intensa

25/08/2017 11:16
José Saramago e Jorge Amado combinam um almoço no Estoril, próximo a Lisboa. Mais adiante, tentam se encontrar em Paris, mas a agenda de compromissos e palestras provoca um infeliz desencontro. Mesmo assim, Saramago deixa uma pequena encomenda para Jorge no saguão do hotel. Outro dia, o autor de Capitães de areia sofre um enfarto. O amigo português fica comovidamente preocupado. Lá pelas tantas, Saramago descobre que o banco no qual Jorge depositava todo o seu dinheiro faliu. Elegantemente, sugere que pode ajudar, caso necessário.

E o tempo inteiro os dois escritores confabulam sobre prêmios, especialmente sobre o Nobel, esse “demônio” que nunca chegava para a língua portuguesa. Dos dois, Saramago é o mais enfático: “De geografia Estocolmo sabe tudo, menos onde ficam Brasil e Portugal…”. Era 1995 e o autor de Ensaio sobre a cegueira ainda vociferaria por três anos antes de ser agraciado pela Academia Sueca, em 1998, com o Nobel de Literatura. A troca de correspondência entre Saramago e Amado revela como uma amizade profunda ligou dois dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa.

Publicado pela Companhia das Letras com o título de Com o mar por meio – Uma amizade em cartas, o volume compilado por Pilar del Río, jornalista e viúva do português, e Paloma Amado, filha do baiano, transborda carinho. Talvez por isso tenha sido editado tão rapidamente. Pilar já havia enviado boa parte do acervo de Saramago à fundação que leva o nome do escritor, mas guardou as cartas trocadas com Amado. Quando recebeu o pedido de Paloma, já tinha praticamente tudo organizado.


ACERVO 

“Respondi em seguida porque conhecia a correspondência e sabia a quantidade de vida que esses fax e cartas transportavam. Não é uma correspondência escrita com ânimo de construir biografia ou pensando futura publicação, simplesmente são fragmentos de vida que dão uma imagem do carinho e a naturalidade com que se tratava esses dois grandes homem do século 20, dois enormes criadores”, conta Pilar.

A Fundação Casa de Jorge Amado guarda hoje um acervo de 250 mil documentos. São originais dos livros, escritos pessoais, prêmios, condecorações e adaptações de peças de teatro. Nesse conjunto, há 70 mil cartas. Em 2015, a fundação começou a organizar essa correspondência, com Bete Capinam à frente dos trabalhos, assessorada por Paloma Amado na identificação de nomes, datas e contextos.

Foi um trabalho difícil, já que, a partir dos anos 1990, muitas das cartas eram trocadas em forma de fax, cujo papel se deteriora com facilidade. Nos escritos, Paloma encontrou cartas de alguns dos maiores autores do século 20, como Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, João Ubaldo Ribeiro, Érico Veríssimo e Simone de Beauvoir. As de Drummond, inclusive, vêm com desenhos do poeta e pequenas gracinhas.

AMIZADE TARDIA
 Paloma Amado garante que nada ficou de fora de Com o mar por meio. “Estão ali todas as cartas”, avisa. “Foi uma amizade que começou tardiamente, apesar de muito intensa. E meu pai ficou muito doente em determinado momento. Ficou cego e teve uma depressão profunda, então não falava, não escrevia.” Algumas cartas trocadas com Glauber Rocha foram publicadas no livro Cartas ao mundo, mas foi só. Há ainda muita coisa para ser editada na fundação.

Saramago e Amado se conheceram pessoalmente em 1990, durante um jantar do prêmio União Latina, em Roma. Os dois integravam o júri do concurso, que era realizado pela primeira vez naquele ano. Este último revela muito sobre os dois autores. A timidez e a seriedade de Saramago podiam passar a imagem de um homem antipático e altivo. No entanto, nas cartas enviadas ao amigo baiano, é outro personagem que se constrói.

“Tímido sim, mas extraordinariamente afetuoso e de uma naturalidade que provocava emoção. E, de repente, vemos ao autor de Ensaio sobre a cegueira como um igual, feliz ao receber a carta de um amigo, contente diante de um possível encontro, triste diante de algum problema, preocupado com a notícia de uma doença”, aponta Pilar.

A correspondência de Saramago com o escritor José Rodrigues Miguéis também foi alvo de um livro, publicado em 2010. São cartas trocadas entre 1959 e 1971, quando Saramago era editor de Miguéis, que vivia exilado nos Estados Unidos. Segundo Pilar, é um conteúdo diferente de Com o mar por meio. “É outro livro, que ilumina pesquisadores e pode ser lido como uma escola para editores. Há ainda algumas correspondências mais, mas não muita. Se será publicado ou não, já veremos. O importante é que, hoje, temos um objeto precioso diante de nós, o livro sobre o qual falamos”, diz a jornalista, que conversou com o Estado de Minas sobre a amizade dos dois gênios da literatura, mas também sobre política e feminismo.


ENTRE A BAHIA  E AS CANÁRIAS

Tias (Lanzarote), 12 de fevereiro de 1993

(…) Encontrei a tua carta numa passagem de dois dias por Lisboa, e devo dizer-te que me surpreendeu. Não a tua proposta, que é uma demonstração mais da tua amizade por mim e do carinho com que tratas a portuguesa terra, mas eu é que não me imagino facilmentre em me coudoyant com todas as sumidades que vão povoar essa Academia Universal das Culturas. Por outro lado, que vamos nós fazer lá? Enfim, se a iniciativa te parece séria, e se a minha candidatura for aceita, já tenho certos três “parentes” próximos: tu, o Sabato e o Niemeyer. Até podemos constituir, no interior da Academia, uma academia particular nossa... (...)
Pilar e José

Bahia, 20 de abril de 1993
Aqui estamos até fins de maio, nos primeiros dias de junho passaremos por Portugal indo para Paris.
– A Paloma enviou para você a historinha dos turcos?
Aqui o sufoco é grande, problemas imensos, atraso político inacreditável, a vida do povo dá pena, um horror.
Zélia e Jorge

Tias (Lanzarote), 18 de maio de 1993

A inquietação é muita, mas a esperança é maior. Uma torre como essa não cai assim. Não tardará a recuperação e o regresso da saúde, e se certamente já não poderemos encontrar-nos em Lisboa, no princípio de junho, pronto virão em outras ocasiões. Se o espírito serve para alguma coisa nestes casos, asseguramos-te, querido Jorge, que o nosso está a usar de toda a força para te ajudar, em união com teus infinitos amigos e leitores.
Pilar, José

Paris, julho de 1993
(…) Informo ainda que eu e a Zélia sairemos amanhã de Paris – vamos fazer um cruzeiro marítimo, receita médica –, estaremos de volta a Paris a 27 deste julho, quando recomeçarei a escrever. Estou contente de estar vivo e de ter amigos como Pilar e Saramago
Zélia e Jorge

Lanzarote, 1993, dia do aniversário de Jorge Amado
Querido Jorge, esta mensagem vai na letra gorda para que não se perca nos azares da transmissão nem um só sinal da nossa amizade, deste carinho tão bonito que vei a enriquecer de um sentimento fraterno uma relação nascida tarde, mas que, em lealdade e generosidade, pede meças à melhor que por aí se encontre. Foi lendo El País de ontem que Pilar viu que hoje era teu aniversário. Viveremos pois este dia como o de uma festa que também é nossa. Por vossa parte, Zélia, Jorge, imaginai que são nossos dois dos lugares à vossa mesa e que deles nos levantaremos, à hora dos brindes, para saudar em Jorge Amado não só o grande escritor, mas também o homem de coração e a dignidade exemplar de uma vida.
José e Pilar

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