Arnaldo Baptista expõe pinturas, desenhos e colagens em BH

Lenda do rock e do Tropicalismo, ele transformou seu encanto pela tecnologia em 40 trabalhos, expostos na galeria de Carminha Macedo

por Márcia Maria Cruz 22/08/2017 09:00

André Burian/Divulgação
'Conformistas', o manifesto filosófico-pictórico de Arnaldo Baptista. (foto: André Burian/Divulgação)

Aos 69 anos, Arnaldo Dias Baptista se diz tão desafiado quanto há mais de cinco décadas, quando formou a banda Os Mutantes com Sérgio Dias e Rita Lee. Desta vez, ele troca o baixo e o teclado pelos pincéis. A voz que marcou o rock psicodélico e o talento que fez história no Tropicalismo se expressam em colagens, desenhos e quadros. Arnaldo apresenta um mundo onírico, revelando-se sem ressalvas e sem medo. Quarenta trabalhos dele integram a exposição Resistência: a ciência mutante da existência, em cartaz na Carminha Macedo Galeria de Artes, em BH.

A abertura da mostra, na última quinta-feira, 17, contou com performance do músico e da curadora Fabiana Figueiredo. Enquanto ele assinava as paredes, Fabiana lia o texto escrito na obra Conformistas. ''É um verdadeiro testamento tecnológico e filosófico do Arnaldo. Os quadros são como folhas em branco em que ele coloca tudo o que pensa sobre tecnologia'', explica ela.

''Fiquei muito feliz'', diz o mutante sobre o novo projeto. Em tom de brincadeira, conta que o único inconveniente da vernissage foi o fato de não poder fumar na galeria: ''Tinha que descer até o estacionamento'', reclama. Ao comentar Conformistas, ele não titubeia: ''Temos muitas coisas erradas no Brasil, mas ninguém liga''. Essa pintura, destaca a curadora, remete a uma série de questões de maneira leve e descontraída. ''No topo do quadro, Arnaldo já diz que falta um líder'', observa Fabiana, dizendo que ele faz arte ''crítica e de resistência''.


JUIZ DE FORA Arnaldo Baptista e a companheira, Lucinha Barbosa, mantêm um apartamento em Belo Horizonte. Há vários anos o casal mora em um sítio em Juiz de Fora, na Zona da Mata. Como parece deixar claro em seu projeto de artes visuais, o compositor e multi-instrumentista está menos interessado em falar do passado. ''Gravei mais de 100 músicas. Já fiz três exposições importantes. Na pintura, estou passando pelo mesmo que passei na década de 1960. É a mesma curiosidade de conhecer técnicas e estilos'', comenta. ''O futuro é o que a gente é'', garante.


Lenda viva do Tropicalismo e do rock nacional, Arnaldo Baptista fala, com humildade, do ofício de artista plástico. ''É um desafio. Na música, você faz um show e milhares de pessoas vão. Na pintura, uma semana você não vende nada, mas na outra pode vender 10 (quadros)'', observa. O interesse pelas artes plásticas é antigo, surgiu na adolescência. ''Comecei a pintar no colégio, quando as matérias começavam a ficar difíceis e chatas'', conta.

Arnaldo não é neófito no ramo. Já fez três exposições individuais na capital paulista: Lentes magnéticas (2012) e Exorrealismo (2014), na Galeria Emma Thomas, e a ocupação Transmigração (2016), na Caixa Cultural São Paulo. A pintura foi importante quando foi internado no hospital, em 1981, para se tratar de uma grave depressão. ''Quando fugi sem asas pela janela, a pintura foi muito interessante. Depois do coma, era uma forma de passar o tempo, algo que me deixava esperançoso.''

 

Sem formação acadêmica, o músico se interessa por diferentes movimentos artísticos, entre eles o Cubismo, o Expressionismo e o Impressionismo. É fã dos pintores Claude Monet (1840-1926) e Henri Matisse (1869-1954).

CARROS ELÉTRICOS A tecnologia está entre os temas mais recorrentes de seus quadros. Ele se pergunta por que os carros elétricos ainda não são realidade nas cidades deste século 21. Diz que deveriam ser proibidos motores a combustão alimentados pela indústria petrolífera, que resultam em poluição atmosférica e aquecimento global. ''Seria muito bom se tivéssemos carros como os veículos lunares. Eles funcionariam por meio das células fotovoltaicas e da energia solar'', comenta.

A curadora Fabiana Figueiredo ressalta a presença nos quadros da paixão de Arnaldo por motores. ''Ele sempre soube tudo de motocicletas, montava e desmontava. Viajou por toda a América Latina de moto com amigos. Parava nas oficinas, ficava por lá um tempo consertando motocicletas para ganhar um troquinho'', lembra Fabiana.

Sem amarras ou limitações argumentativas, o trabalho do mutante remete a várias questões. Ele pede ''políticos não elásticos'' e ''polícia desarmada'', ao mesmo tempo em que fala de ''armas apocalípticas''. E observa: ''Estamos sós no universo''.

O pioneiro da psicodelia  critica a proibição de fumar. Também reivindica mais helicópteros e bombeiros, além de toalhas no banheiro. Por fim, advoga a liberdade de velocidade nas estradas.

De acordo com a curadora, a exposição mostra a linguagem própria que Arnaldo Baptista desenvolveu a partir de diferentes técnicas. ''O estilo dele é muito particular, algo bem único, com pinceladas que parecem ser de um artista que pintou a vida inteira'', afirma. ''Nos quadros do Arnaldo, tudo é possível'', conclui.

RESISTÊNCIA: A CIÊNCIA MUTANTE DA EXISTÊNCIA
Pinturas de Arnaldo Dias Baptista. Carminha Macedo Galeria de Artes. Ponteio Lar Shopping, BR-356, 2.500, loja 218, Santa Lúcia. De segunda-feira a sábado, das 10h às 22h; domingo e feriado, das 14h às 20h. Até 17 de setembro.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE ARTES E LIVROS