Obra de Hélio Oiticica ganha exposição comemorativa no Sesc Palladium

'Mais do que araras' celebra os 50 anos de 'Tropicália', instalação de Oiticica que foi o marco inicial da contracultura brasileira

por Mariana Peixoto 07/08/2017 08:00
Sesc Palladium/Reprodução
Colagem da artista Neide Dias de Sá que integra mostra no Sesc Palladium a partir desta quarta-feira, 09. (foto: Sesc Palladium/Reprodução)

''Seja marginal, seja herói.'' ''Museu é o mundo.'' ''Incorporo a revolta.'' ''Do meu sangue, do meu suor, esse amor viverá.''

 

A obra de Hélio Oiticica (1937-1980) é repleta de frases fortes. O impacto causado especialmente por uma delas norteou o curador carioca Raphael Fonseca a conceber uma exposição que celebra os 50 anos de Tropicália, a instalação de Oiticica que foi o marco inicial da contracultura brasileira. ''O mito da tropicalidade é muito mais do que araras e bananeiras: é a consciência de um não condicionamento às estruturas estabelecidas, portanto, altamente revolucionário na sua totalidade'', disse Oiticica.

''Quando houve o convite para criar a exposição, já tinha claro que não queria mais uma mostra sobre o Hélio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape. Pensei em reunir outros artistas da mesma geração que também têm um diálogo com a Tropicália'', afirma Fonseca.

Desta maneira nasceu Mais do que araras, exposição que será aberta nesta terça-feira, 08, para convidados e, na quarta, 09, para o público, na Galeria GTO, do Sesc Palladium. Na mostra, que vai até o início de outubro, estão reunidos 31 trabalhos de 14 artistas, produzidos de 1960 a 1980.

''O que me interessava era sair de um certo lugar seguro que a história da arte estabeleceu. Queria artistas que saíssem do eixo Rio/São Paulo, que não fossem ‘sudestecêntricos’. Há nomes conhecidos, como Regina Silveira e Anna Bella Geiger. Mas as obras não são tão conhecidas assim'', acrescenta o curador.

A mostra traz obras de dois mineiros. José Ronaldo Lima, de Rio Casca, teve participação ativa na neovanguarda nas décadas de 1960 e 1970. O outro é Raymundo Colares, de Grão Mogol. Amigo de Oiticica, chegou a frequentar o ateliê de Ivan Serpa (assim como Hélio). Influenciado pelo construtivismo e pela arte pop, trabalhou muito a tridimensionalidade em seus objetos.

A seleção ainda reúne o baiano Edinízio Ribeiro Primo (1945-1976), criador da capa do álbum Expresso 2222, de Gilberto Gil; o pernambucano Jomard Muniz de Britto, a gaúcha Vera Chaves Barcellos e o potiguar Falves Silva. Obra do poeta tropicalista Torquato Neto, nascido no Piauí, também está na mostra.

''A exposição tem três grandes grupos de obras. Algumas delas giram em torno do corpo, tanto da representação do corpo humano quanto num aspecto mais hedonista. A do José Ronaldo sensorial, ligada ao olfato e ao tato'', diz o curador.

Um segundo grupo de obras, de acordo com Fonseca, ''desconstrói clichês da identidade brasileira''. Entre eles há um vídeo da carioca Letícia Parente, criado a partir da frase ''Made in Brazil''. Por fim, há um grupo de trabalhos que busca estabelecer relação entre imagem e palavra. Fonseca destaca a obra de Torquato Neto, que utilizou as palavras inimigo e medo e os quatro sinais matemáticos, para criar diferentes signos.

JOVENS ARTISTAS Mais do que araras destaca ainda dois artistas jovens que foram convidados por terem trabalhos que dialogam com a obra de Oiticica. Além de expor na coletiva – ela criou um trabalho para a mostra, a partir das cartas trocadas por Oiticica e Lygia Clark – a carioca Daniela Seixas ministra workshop no fim de setembro (veja na programação abaixo).

E o paraibano Martinho Patrício expõe um trabalho no projeto Desvios. Na instalação Me molde, que será aberta simultaneamente com a exposição Mais do que araras, Patrício reúne mobiliário, cortes de tecidos e botões. ''É um convite para que o público participe da obra, uma espécie de jogo com cores e tecidos, que remetem muito à Tropicália'', finaliza Fonseca.

 

FILMES RAROS E HISTÓRICOS Paralelamente à exposição, o Sesc Palladium vai promover, de 18 a 31 de agosto, a mostra CineTropicália. Com curadoria de Ewerton Belico, a mostra reúne filmes de diferentes épocas, que ilustram várias faces da contracultura brasileira. As sessões têm entrada franca.

 

Na programação, estão produções históricas, como o curta Nosferatu no Brasil (1970). Filmado em Super-8, o primeiro filme de Ivan Cardoso traz o poeta Torquato Neto como um Nosferatu nos trópicos. Outro filme do mesmo período é O demiurgo (1972), único longa dirigido por Jorge Mautner. Filmado em Londres, durante o exílio, conta com a participação de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Foi censurado durante a Ditadura Militar.

 

A programação reúne muitos documentários, como Bethânia bem de perto (1966), de Júlio Bressane e Eduardo Escorel, e Os doces bárbaros (1977), de Jom Tob Azulay (que virá a BH para sessão comentada do filme), com trechos das apresentações dos quatro baianos no show de 1976.

 

Há filmes contemporâneos, como o documentário Hélio Oiticica (2012), dirigido por seu sobrinho César Oiticica. O próprio Hélio tem um filme na mostra, Agrippina é Roma-Manhattan, curta dirigido por ele em 1972.

 

ALÉM DA EXPOSIÇÃO

 

» Dia 11, 19h30 – Teatro de bolso: Conversa com os artistas Anna Bella Geiger e José Ronaldo Lima e o curador Raphael Fonseca (ingressos meia hora antes)

» Dia 12, 9h30 às 17h30 – Espaço multiuso: Leitura de portfólio com Anna Bella Geiger (inscrições prévias)

» Dia 19, 14h às 18h – Mezanino: Encontro com os arte-educadores Alison Rosa Loureiro e Fabíola Rodrigues (inscrições prévias)

» Dia 30 de setembro, 10h às 20h (com intervalos) – Foyer: Workshop com Daniela Seixas

» Até 17 de setembro – Foyer: Instalação Me molde, de Martinho Patrício

 

MAIS DO QUE ARARAS
Exposição na Galeria GTO do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Visitação de 9 de agosto a 1º de outubro, de terça a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca.

 

Veja a programação completa em www.sescmg.com.br.

 

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