Deborah Colker traz a BH espetáculo com bailarinos cobertos de lama

Coreógrafa se inspirou na poesia de João Cabral e na saga do Rio Capibaribe para criar 'Cão sem plumas'

05/08/2017 12:20
Cafi/ Divulgação
(foto: Cafi/ Divulgação)

Da nascente, na divisa dos municípios de Jataúba e Poção, até o Recife, onde deságua, o Rio Capibaribe percorre 280 quilômetros no território pernambucano. A vida ao longo do leito, vilipendiada pela pobreza, levou João Cabral de Melo Neto (1920-1999) a escrever O cão sem plumas. Daqueles versos veio a inspiração para Deborah Colker conceber o espetáculo de dança que chega hoje a BH.

“Conheci o poema nos anos 1980, na minha juventude, apresentado pelo pai dos meus filhos (o fotógrafo recifense Carlos da Silva Assunção Filho, o Cafi). Já conhecia João Cabral por Morte e vida severina e fui arrebatada por O cão sem plumas”, conta Deborah. Do processo de imersão que incluiu uma residência de três semanas em Pernambuco, nasceram tanto a coreografia quanto o filme Do sertão ao Marco Zero, que Colker assina em parceria com o cineasta Cláudio Assis (diretor de Amarelo manga).

“O espetáculo Cão sem plumas é sobre coisas inconcebíveis, que não deveriam ser permitidas. É contra a ignorância humana, destruir a natureza, as crianças, o que é cheio de vida”, diz Deborah. “Aos 20 anos, aprendi com João Cabral a palavra espesso: como o real é espesso, como o sangue humano é espesso”, revela a coreógrafa carioca, que já morou em Pernambuco e é encantada pela obra do compositor Chico Science (1966-1997), ícone do manguebeat e também influenciado por Cabral.

Em 2014, ela havia acabado de estrear Belle. Um amigo lhe presenteou com a edição conjunta de O cão sem plumas e Morte e vida severina. “Quando reli... Meu Deus, fiquei completamente emocionada, arrebatada. Pelo meu momento de vida, tanto pessoal quanto artístico, decidi que queria fazer aquele poema”, conta.

A linguagem híbrida do espetáculo nasceu da interface entre cinema, dança e música. O processo começou em 2016, quando Deborah e Cláudio Assis viajaram ao longo do Capibaribe. Nas cidades ribeirinhas, participaram de oficinas, saraus e atividades culturais. “Cabral mostra que o rio é universal. Ao escrever sobre o Capibaribe, escreve sobre todos os rios, todos os ribeirinhos. Fala do descaso com a natureza”, comenta.

Para abordar aquele universo, Deborah percebeu que deveria pisar na lama, encontrar as pessoas. “O poema é muito geográfico. Entendi que o cinema ajudaria a localizar, a tornar o espetáculo fundo e profundo. Passamos pela terra craquelada, pelo rio seco que forma o mangue antes de encontrar o mar”, diz ela.

VISCERAL Além de fãs de João Cabral, Colker e Assis têm amizade antiga. “Somos irmãos, mas trabalhar é diferente. Cláudio tem uma cinematografia visceral. Não se importa em mostrar o feio, as vísceras, toda a realidade espessa. Eu sempre busquei a beleza, o questionamento dos espaços”, diz ela. O encontro de diferenças resultou no balé e no longa. “O filme é dirigido por nós dois. A dramaturgia do espetáculo é dele. Cláudio teve papel importante na definição do que falar e de como falar”, explica.

O homem-caranguejo, que o pesquisador e professor Josué de Castro apresenta no clássico Geografia da fome (1946), foi referência para os bailarinos, que dançam cobertos de lama. Deborah orientou-os a construir outro corpo. A coreografia tem muitos movimentos de chão.

“Dizia para se esquecerem de que são bailarinos, da empostação retilínea, para dar lugar ao corpo do homem saqueado, mastigado. Estamos falando de alguém resistente, sem rosto, forte. No processo de construção desse corpo, tivemos que trazer a riqueza desses homens”, explica a coreógrafa.

Durante o espetáculo, são projetadas imagens do Rio Capibaribe. “Onde começa o homem naquela lama? Onde começa a lama naquele rio? Onde começa a terra naquele rio. A terra é deles, que não querem sair dela”, afirma Deborah. Bailarinos e imagens se misturam. “Ficou tudo muito amarrado: dança, música e cinema. É um espetáculo de dança híbrido de tudo isso”, define.

Jorge Du Peixe, da banda Nação Zumbi (expoente do movimento manguebeat ao lado de Chico Science), e o poeta e cantor Lirinha compuseram a trilha sonora do espetáculo, da qual participou também o carioca Berna Ceppas.

“Se estivesse vivo, o Chico teria a minha idade. Somos de uma geração de artistas pop que entenderam que o mundo estava se conectando. É você, de dentro de você, falando com o mundo e com todos os Brasis”, resume Deborah.

CÃO SEM PLUMAS
Com Companhia de Dança Deborah Colker. Sesc Palladium, Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro. Sábado (5/8), às 21h, e domingo (6/8), às 19h. Inteira: R$ 110 e R$ 50. Meia-entrada na forma da lei. À venda na bilheteria do teatro e no site www.tudus.com.br. Informações: (31) 3270-8100.

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