15ª Festa Literária de Paraty (Flip) foi a mais plural edição do evento

Escritores e participantes, no entanto, ainda buscam estratégias para aumentar o público e o acesso aos leitores

por Márcia Maria Cruz 04/08/2017 14:10

Iberê Périssé/Flip/Divulgação
Crianças tiveram dezenas de livros disponíveis na Praça da Matriz: formação e hábitos começam na infância (foto: Iberê Périssé/Flip/Divulgação)
Na última semana era certeiro encontrar, pelas ruas históricas de Paraty, escritores como Marlon James, primeiro jamaicano a vencer o Man Booker Prize (um dos mais importantes prêmios internacionais de literatura), com Breve história dos sete assassinatos (Intrínseca, 2017), ou a celebrada escritora mineira Conceição Evaristo, autora, entre outros, de Olhos d’água (Editora Pallas, 2014), uma das principais vozes da memória negra brasileira. Muitos dos que se dedicam à literatura estavam lá. Havia os que ocupam lugar de destaque no mainstream, como o médico Dráuzio Varella ou o ator Lázaro Ramos, e nomes consagrados da cena independente, como a poeta Mel Lisboa, bem como anônimos que se embrenham pelos caminhos das letras como forma de expressão e – por que não dizer? – existência.

Somam-se a essas presenças, pessoas que não se importaram de ficar horas na fila para comprar um livro e que permaneceram mais um tempão de pé para ter o autógrafo dos autores que ali estavam, como o da ruandense Scholastique Mukasonga, autora de A mulher de pés descalços (Editora Nós), o segundo mais vendido no ranking da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

É difícil caminhar pelas ruas de pedra do Centro Histórico da cidade que se tornou capital da palavra entre 26 e 30 de julho, mas essa parece ser a maior dificuldade naquele lugar para quem ama literatura. Na cidade, pensa-se literatura, respira-se literatura. Durante o evento, o Estado de Minas conversou com escritores e editores sobre como a literatura pode avançar no front em que a atenção das pessoas é disputada com as redes sociais.

Na Praça da Matriz, os livros estavam ao alcance das crianças com a mesma facilidade que os churros e sorvetes. Pelas ruas, poetas diziam seus versos, escritores revelavam os livros de cabeceira, lendo trechos que os inspiram. Uma fotografia de Paraty, naqules dias, daria certamente a impressão de que a literatura ocupa espaço vital na vida dos brasileiros. Na última pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro, no entanto, 44% dos brasileiros não abriram nem um livro em 2015.

 

Entrevista com o poeta Edimilson de Almeida Pereira

A literatura ainda é vista como artigo de luxo num país com tantos problemas na educação pública. O universo do letramento costuma ser restrito a grupos específicos, desconsiderando parcela importante da sociedade brasileira. Nesta edição, a curadora Joselia Aguiar procurou equilibrar o número de escritoras e escritores (50% para cada) e de autores negros (30%). Considerada a Flip da diversidade, esta edição levantou o debate sobre a democratização tanto do ponto de vista de inserção de autores com perfis diversos como as possibilidades de ampliação no número de leitores.

Um dos nomes da programação oficial que se despontou foi o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e poeta Edimilson de Almeida Pereira (leia entrevista). A inclusão de outros perfis de escrita foi discutida na mesa Arqueologia de um autor. Edimilson buscou debater o que é considerado cânone, propondo a ampliação de suas margens ou delimitações. Para ele, esse movimento requer discussões nos fóruns privilegiados, nas universidades, encontros técnicos da área de literatura, bem como o envolvimento de editoras.

Os autores lembram que para mudar o cenário e para que a literatura chegue a um número maior de pessoas é preciso percorrer longo caminho. A professora da UFJF e poeta Prisca Agustoni, autora de O mundo começa na cabeça (Editora Paulinas), participou da mesa Ler o mundo, em que foram tratados aspectos referentes à inserção de novos leitores, um hábito que começa na infância. “A escola continua sendo o lugar central. As famílias precisam entender e dar confiança ao trabalho dos professores na sala de aula”, defende. Outro passo necessário, na visão de Prisca, é aproximar quem escreve de quem lê. “De um lado, perder a áurea que o escritor é uma pessoa intocável. De outro, facilitar o trânsito e manuseio de livros nas escolas. As bibliotecas muitas vezes são fechadas. Parece que o livro se torna um oráculo.”

Diversidade necessária
A 15ª edição da Flip foi mais enxuta, com orçamento de R$ 5, 8 milhões – R$ 1 milhão a menos do que a última edição. Se a programação oficial diminuiu, a paralela, a Off Flip, cresceu sensivelmente, com oferta de dezenas de atividades em casas e outros epaços. “Foi a Flip mais aberta, mais plural e mais democrática. Falam que está menor porque tiveram que cortar algumas coisas, mas eu vejo o contrário”, afirma o cronista Xico Sá, que participou de debate na Casa Libre. “Os arredores, fora do núcleo oficial da Flip, estão maiores do que nunca.”

Xico aponta o aspecto solene atribuído à literatura como uma das principais causas do distanciamento dos leitores. “A literatura no Brasil esteve muito ligada aos salões e ambientes acadêmicos. Essa diversidade motiva as pessoas a fazer literatura em qualquer lugar, de qualquer jeito, de qualquer cor, na periferia, no Centro, branco, preto, amarelo, azul. Essa é a grande história: tirar a solenidade.” Para o cronista, que lançou A pátria em sandálias da humildade (Editora Realejo), para a literatura ampliar seu alcance é preciso incluir autores de diferentes perfis. “Não adianta a gente ficar reproduzindo a mesma literatura branca, homofóbica e hétera se não tem as outras literaturas. A gente tem que ter todas.”

Quando a literatura não se torna porosa, impede a aproximação de diversos leitores. “Tem gente que produz uma ótima literatura no Brasil e acha que não é literatura, porque não tem acesso a certos ambientes, a certas editoras, quando tem relato e narrativa mais importante do que as que a gente vê nas grandes editoras”, afirma Xico Sá. E sugere uma ruptura para “que um menino lá no interior do Ceará ou na periferia de São Paulo acredite que é literatura, que é um relato importante”.

Pela primeira vez, foi realizado na programação paralela o Slam das Minas, formato em que poetas participam de batalhas. Uma das expoentes dessa cena, Mel Lisboa vê com bons olhos a realização da festa literária, mas aponta que a programação oficial não contempla jovens abaixo de 30 anos. Dez meninas participaram do slam promovido pela Casa da Porta Amarela. Mel também participou de debate sobre a produção feminina na literatura. Na mesa, esteve ao lado de Jarid Arraes, autora de Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, e Estela Rosa. “Fico um pouco aflita quando observo que o público que frequenta a festa, há 10 anos, são pessoas que passam dos 40, 50 anos. E o público de jovens que estão conhecendo a Flip? Não há preocupação de atrair a nova geração”, observa Mel.

Ganhadora do Prêmio Kindle de Literatura 2017, promovido pela Amazon e pela Nova Fronteira, com o livro Machamba, a escritora Gisele Mirabai defende que uma das formas de tornar a literatura mais próxima do público pode ser na junção de novos perfis de escritores e ao mesmo tempo novas plataformas. Foi o que ela falou na mesa de autopublicação promovida pela Amazon, na Casa Santa Rita de Cássia. Autora de quatro outros livros, Gisele publicou Machamba na plataforma on-line antes de a versão impressa ser editada pela Nova Fronteira. “É uma forma de democratização do livro. No Kindle, os leitores podem ter acesso aos clássicos que já são de domínio público e a literatura contemporânea também está mais acessível”, afirma. Antes de decidir participar do Prêmio Kindle, Gisele apresentou o livro para duas editoras. 


BIBLIOTECAS

O secretário de estado da Cultura, Angelo Oswaldo, que acompanhou a apresentação dos autores mineiros e os que vivem em Minas, disse que é uma política do estado abrir as bibliotecas. “Por mais que estejamos em plena era tecnológica, nós continuamos na sociedade do conhecimento. Não podemos abrir mão do livro. É um objeto que temos que tocar, acariciar, ter nas mãos para ter vontade de ler. Uma experiência que passa pelo tato”, afirmou. De acordo com o secretário, uma das políticas para ampliar o número de leitores é fomentar a multiplicação de bibliotecas. “Temos hoje 800 bibliotecas públicas municipais, e 853 municípios. Faltam apenas 53. Temos programa de criação de novas bibliotecas. Oferecemos núcleo básico, com estantes, computador, cerca 1,5 mil livros para a criação de novas bibliotecas e isso tem dado certo. Cidades que já têm sua biblioteca pública estão criando sua biblioteca nos distritos ou em bairros.”

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