Livro 'Uma gozação bem-sucedida' satiriza pretensões literárias, mas elogia criatividade humana

Inédita no Brasil, obra de Italo Svevo também enaltece o amor fraterno

por Rodolfo Magalhães* 04/08/2017 13:58
caro editor,

Reprodução da internet
O autor italiano escreveu a novela em 1926, mas, com sua morte dois anos depois, não a viu publicada (foto: Reprodução da internet)
Não fui capaz de fazer uma resenha crítica como havia sido combinado, pois acabei contaminado por um erro temerário, aquele que se pretende racional: misturei autor e personagem num mesmo balaio e me envolvi afetuosamente com ambos. Assim, traço nas linhas seguintes quase um copião do enredo (puro spoiler) e algumas pinceladas rasas do muito mais que há neste pequeno livro de 1926 chamado Uma gozação bem-sucedida, do italiano Italo Svevo (1861-1928).

Um livro para qualquer leitor, mas especial para aqueles que escrevem, ao permear um enredo simples, baseado em um trote, de fabulações acerca do ato da escrita, de sentimentos humanos ambiciosos, presunções, patologia de caráter, candidez, enfim, um arco amplo de humanidade que se apazigua no amor fraterno. Uma suave navegação por valores retorcidos, ruminados, revisitados, até que se alcance a compreensão – onde é o lugar verdadeiro dos olhos da personagem (e junto, do leitor) e do seu coração.

Mario Samigli é um literato de quase 60 anos. Um romance que ele havia publicado havia 40 anos, basicamente ignorado por leitores e crítica, tem a possibilidade de renascer através de um grande editor internacional. Tudo não passa de uma burla, capaz, entretanto, de despertar facetas sublimadas no íntimo de um escritor que ambiciona o reconhecimento. Svevo parece criar uma fábula, em tom de farsa, sobre o próprio percurso. Apesar de semelhança com a vida do autor, não se trata dessa praga contemporânea chamada autoficção.

A vida de Mario é vagarosa, triste, mantida por um empreguinho e temperada com um lindo sonho (de ser destinado à glória), o que conserva sua autoestima e permite um sentimento de satisfação, impedindo-o de se rebelar contra seu destino.

Mario escreve pouquíssimo, continua amando seu primeiro romance e se entretem esboçando algumas fábulas dedicadas aos animais (primeiro à mosca, depois aos pardais). Com frequência, sua fábula é dedicada à desilusão que se segue a qualquer obra humana.

Em seus sonhos noturnos, pode arrancar a máscara de sua acomodação cotidiana e proclamar, com suspiros e gritos, a oculta presunção: “Mereço mais, mereço outra coisa”. Acordado, refugia-se na desculpa da inação: “Eu que não faço estou bem, porque não o faço”.

A frase o aproxima do protagonista do livro Bartleby, o escrivão (1853), de Herman Melville (1819-1891), que repete à exaustão seu mantra: “Preferia não fazê-lo!”. Ao mesmo tempo, o dito os distancia, pois o personagem de Melville tem a capacidade de “preferir” – verbo fundamental que os difere.

O personagem de Svevo não prefere ou escolhe. Pelo contrário, acata e se deixa cegar, tão habituado está em resolver a realidade através da lente sonhadora da fábula. Bartleby tem força e postura em sua negação, Mario, mais transparente, se mostra engambelado por sua própria (pouca) percepção distorcida pelo sonho de sucesso. Ele aspirava à notoriedade, mas a longa e vã espera o deixou doente. Vaidade, cobiça e inércia associadas foram ingredientes de sua cegueira.

O terreno é propício à entrada de outro personagem, um certo Enrico Gaia, caixeiro-viajante, que, na juventude, havia tentado compor alguns poemas, e foi amigo de Mario, graças ao amor às letras. Enrico passa a amar a gozação, talvez como um resíduo de suas tendências artísticas suprimidas. E localiza em Mario (aquele que ainda cultiva o sonho) um canal para descarregar sua inveja, seu fracasso, seu rancor mal encoberto por um ódio real.

A má intenção inimiga de Gaia, desvio patológico, que burla pelo prazer de rir da fraqueza alheia, assemelha-se à sociedade que julga e estigmatiza aqueles eleitos como bodes expiatórios culturais. Cravar as unhas na ferida do vizinho, exibir o ponto fraco de alguém para todos, até o ponto em que a vítima nunca mais consiga se livrar do estigma daquela gozação, o que é muito similar aos linchamentos virtuais de nossos dias. Que prazer há em rir da dor alheia?

Outro personagem (clássico), um que “desceu à tumba sem ter realizado nenhum ato extraordinário”, é o também copista Akaky Akakievich, de O capote (1842), de Nikolai Gogol (1809-1852). No conto, esse primo distante de Mario contesta: “Deixa-me! Por que me ofendes? Sou seu irmão!”. O prazer da ofensa ou do riso é algo que o ludibriado não entende.

Mario havia se fechado de propósito para não ver e entender tudo? E se sentiu realmente morto ao saber de toda a gozação. “Sim! Da gozação se ria e nada mais. Riam dela todos aqueles que não tinham a obrigação de chorar. E Mario, lembrando-se disso, logo chorou, como era a lei da gozação.”

Mario sentiu vergonha dos próprios sonhos. Sua ridícula concepção de merecimento de aplausos e de admiração o havia embotado. O presumível sucesso era, na verdade, uma gaiola de ouro capaz de lhe roubar a capacidade do sonho e de fabular. Mas, mesmo a fraqueza tem seu conforto, é o que a fábula irá ensinar a Mario como tábua de salvação.

Meu caro editor, paro os spoilers por aqui. Não tenho mais linhas suficientes nem destreza para abordar as fábulas de Mario, feitas em “dias ricos de surpresas”, não cabe aqui retirar do corpo do texto suas tiradas de ironia e humor. O desfecho não interessa. Deixe que o possível leitor descubra e avalie por si se realmente era necessário “fechar” o enredo.

Rodolfo Magalhães é roteirista, diretor de TV e autor do livro de poemas Belém embrulhada – com anexos e bula (Cíclope, 1996).


VERSÃO BRASILEIRA

A edição brasileira de Uma gozação bem-sucedida, lançada pela Carambaia, tem tradução e posfácio de Davi Pessoa, professor de literatura italiana na UERJ. O volume, com belo projeto gráfico de Elisa von Randow, traz ainda a versão original italiana do texto. A tradução brasileira do título, porém, talvez não faça jus à semântica contida no original burla, que aqui ficou como “gozação”. A palavra em italiano carrega a ideia de farsa, brincadeira, trote ou, como no inglês, hoax. Mais do que uma gozação, seria mais fiel encarar o ato como um trote, cujas consequências se estendem no universo mental do ludibriado, criando castelos imaginários a partir de nenhuma base real. No caso de Italo Svevo, o sentido se estende ainda para a ridicularização do escritor e, portanto, de si próprio.

TRECHO
DO LIVRO


“Uma pessoa em quem a ambição se deformava numa vaidade ridícula, e que acreditava que as leis comuns da justiça e da humanidade não valessem para ele. Olhou, em retrocesso ao seu não distante passado, sua vida íntegra, moderada, dedicada com repleto desinteresse a um pensamento, e o invejou e chorou.”

“Mario não era um observador ruim, mas que era, infelizmente, um observador literário, daqueles que podem ser enganados com o mínimo de esforço, porque sabem fazer a observação exata para logo deformá-la por força de conceitos.”

“Tantas fábulas escritas na solidão mais absoluta. Ninguém mais deveria suspeitar da existência delas. Tratava-se de uma literatura destinada àquele quarto. Aliás, não era literatura porque literatura é uma coisa que se vende e se compra. Esta era voltada para eles dois e para mais ninguém.”


• UMA GOZAÇÃO
BEM-SUCEDIDA

• De Italo Svevo
• Carambaia
• 224 páginas
• R$ 49,90

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