Flip deu visibilidade a autores negros e a temáticas da periferia

Edição 2017 da Festa Literária Internacional de Paraty teve como estrela a professora Diva Guimarães, com sua fala sobre como enfrentou o racismo

por Márcia Maria Cruz 31/07/2017 08:00

Walter Craveiro/Divulgação
As escritoras mineiras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves durante a mesa 'Amadas'. (foto: Walter Craveiro/Divulgação)

Enviada especial a Paraty

 

Escritores, organizadores e quem passou pelas ruas de pedra durante a 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) chegaram ao último dia do evento com a percepção de que algo mudou. Não que, antes desta edição, não se pudesse ver na cidade a diversidade do povo brasileiro. A marca da descendência indígena, sobretudo, é inquestionável, seja nos traços dos nativos, seja no artesanato exposto nos espaços públicos ou no próprio nome do Rio Perequê-Açu.

 

Desta vez, porém, foi diferente na Flip que teve o escritor Lima Barreto como patrono. Ao convidar para as mesas mais escritoras mulheres (23, o mesmo número de homens) e mais autores negros (30%) em relação a outras edições, a festa mudou o perfil de seus frequentadores. A diversidade estava presente nos cabelos crespos orgulhosamente exibidos pelas moças, nos leitores negros que participaram dos eventos, na proliferação de saraus em que jovens declamavam os próprios versos – como ocorreu sábado, no Largo do Rosário, durante Sarau Boto Fé.

 

A palavra, realmente, era franca a quem quis celebrá-la. ''Num ano tão adverso, chegamos à maturidade da ocupação do espaço público com a cultura. Flip é intervenção e ao mesmo tempo leitura das coisas que estão acontecendo. Desta vez, ficou mais claro a experiência que é a Flip, clareza que está em seu DNA desde o começo, assim como na convivência com os moradores, na diversidade que a gente viu este ano'', pontuou Mauro Munhoz, diretor-geral da Flip, ao apresentar o balanço dos cinco dias de festa.

 

Boa parte das mesas foi realizada na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios. Com capacidade para 400 pessoas, as sessões lotaram todos os dias – os ingressos custaram R$ 55. O mesmo ocorreu no auditório montado às margens do Rio Perequê-Açú, com 700 lugares e acesso gratuito às palestras exibidas no telão.


''Fiquei muito feliz este ano. Voltamos ao começo. Josélia construiu uma programação maravilhosa. Amei a nova forma, tanta diversidade no Centro da cidade'', afirmou a britânica Liz Calder, referindo-se à jornalista Josélia Aguiar, curadora da feira literária. Fundadora da editora londrina Bloomsbury, Calder é idealizadora e presidente da Flip.

DIVA A estrela desta edição não foi uma escritora, mas a professora paranaense Diva Guimarães, de 77 anos. Seu relato emocionou o ator e escritor Lázaro Ramos, a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques e o público durante a mesa A pele que habito, na manhã de sexta-feira, 28. A fala sensível sobre como Diva enfrentou o racismo, por meio da educação, caiu na rede, fazendo dela a celebridade da Flip. Diva foi recebida por Lázaro e pela escritora mineira Conceição Evaristo, tirou fotos com as pessoas na rua e foi ovacionada em vários eventos a que assistiu.

 

A Flip foi marcada por manifestações políticas, com gritos de ''Fora, Temer'' e ''Fora, Pezão'' destinados ao presidente da República, Michel Temer, e ao governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão. O poeta André Vallias criticou a prisão de Rafael Braga, jovem negro detido nas manifestações de junho de 2013. Na mesa Foras de série, o historiador João José Reis fez considerações acerca do governo brasileiro, do ensino de literatura e da cultura afro-brasileira nas escolas e das cotas sociorraciais. E denunciou a ''escravidão contemporânea''.

APLAUSOS Durante a mesa de encerramento Amadas – ao lado das autoras mineiras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves –, a curadora Josélia Aguiar foi muito aplaudida por ampliar a participação de autores negros no evento.
''O fato de ter mais mulheres e mais autores negros não deixa de fazer da Flip uma festa literária. É a literatura que está em primeiro plano. Num primeiro momento, fazemos a pesquisa de autores, da diáspora negra, árabes, nórdicos, asiáticos e americanos. Depois você compõe uma espécie de Tinder literário. O segundo momento é pensar as combinações'', contou ela.

 

Para Conceição Evaristo, a mudança na curadoria foi fruto da mobilização de homens e mulheres negras. ''Não é uma concessão. É um direito estarmos aqui'', resumiu a autora do romance Becos da memória.

 

Pela primeira vez, o evento contou com a série Fruto estranho, em que os autores apresentavam versos de maneira performática. A atriz e dramaturga Grace Passô e o poeta e multiartista Ricardo Aleixo, ambos mineiros, conquistaram o público.

 

A escritora Ana Maria Gonçalves espera que a curadoria mais inclusiva influencie outros eventos. ''Feminismo, racismo e migração foram temas contemplados, tudo isso sem perder o foco na literatura. Que todos se inspirem nesse modelo de festa inclusiva e representativa'', afirmou.

FLIP PRETA Os jovens integrantes do coletivo Nuvem Negra, que vieram à cidade fluminense cobrir a ''Flip preta'', comemoraram a maior representatividade desta edição, mas acreditam que ela pode ser maior.

 

''É a minha quarta Flip e a diferença ficou bem clara. Há presença maior de pessoas negras, mas ainda é pouco. A fala da dona Diva só ocorreu porque ela encontrou espaço, porque era o Lázaro que estava na mesa'', disse Bruna Souza, de 24 anos, estudante de desenho industrial da PUC Rio.


A estudante de jornalismo Gabriele Roza, de 21, destacou a importância do lançamento do catálogo Intelectuais negras visíveis, organizado pela professora Giovana Xavier, que reuniu mulheres negras de todas as idades na Casa Amado e Saramago. ''Podemos falar sobre tudo: amor, literatura... Enfim, assuntos universais'', comentou.

 

ECLETISMO A Flip 2017 ofereceu eventos memoráveis. Um deles foi a conversa de Pilar del Río com Paloma Amado, que lançaram o livro Com o mar por meio (Companhia das Letras), reunindo cartas trocadas entre os escritores José Saramago e Jorge Amado. A linguagem e a radicalização de experimentações foram tema da mesa formada pelo cineasta Carlos Nader e a escritora chilena Diamela Eltit. Outro ponto alto foi a mesa O grande romance americano, com os autores premiados Marlon James e Paul Betty.

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