Companheira de Saramago participa da Flip e revela cartas trocadas entre o autor e Jorge Amado

por Márcia Maria Cruz 30/07/2017 10:26
Walter Craveiro/Divulgação
(foto: Walter Craveiro/Divulgação)

Paraty
- O mar que trouxe os portugueses até o Brasil em 1500 não foi capaz de esmaecer a amizade e admiração  entre Jorge Amado e José Saramago. Apesar do Atlântico entre os dois, o afeto era algo inabalável entre os escritores como revelaram Paloma Amado, filha do escritor baiano, e Pilar del Río, companheira do português, que se encontraram na 15º Festa Literária Internacional de Paraty na noite de sexta. Dentro da programação paralela, as duas estiveram na Casa Amado e Saramago, no Centro Histórico de Paraty, para o lançamento do livro Com o Mar por Meio (Companhia das Letras) que reúne as correspondências entre os dois escritores, principalmente a partir de 1990 – no prefácio Paloma revela que as cartas são trocadas desde 1930. “Esta mensagem vai na letra gorda para que não se perca nos azares da transmissão nem um só sinal da nossa amizade, deste carinho tão bonito que veio enriquecer de um sentimento fraterno uma relação nascida tarde, mas que, em lealdade e generosidade, pede meças à melhor que por aí se encontre”, escreveu José Saramago.

De maneira descontraída, Pilar e Paloma revelaram detalhes da vida dos dois escritores como o momento do dia em que gostavam de escrever, quando respondiam às correspondências e, sobretudo, falaram da admiração que tinham um pelo outro. A programação da Casa Amado e Saramago, que abriu as portas pela primeira vez nesta edição, conquistou quem veio a Paraty. Em todas as sessões (gratuitas), as pessoas lotaram a casa histórica ou não se importaram de acompanhar do lado de fora.

MAIOR PARTICIPAÇÃO 

Ricardo Viel, diretor de comunicação da Fundação José Saramago, conta que a Casa Amado e Saramago demarca participação maior de Portugal na Flip.  “A ideia inicial era que fosse a Casa José Saramago, mas a Pilar disse que como estávamos vindo para o Brasil, teríamos  que homenagear um autor brasileiro.” Pilar considerou oportuno ser Jorge Amado dada grande amizade entre os dois.

A ideia de se fazer uma casa nasceu em 2016, quando Pilar veio à Flip convidada para programação paralela (Casa Cais, que este ano não funcionou). Nesta edição, Pilar foi uma das atrações da programação oficial da Flip e dividiu a mesa na contracorrente com a escritora chilena Niéde Guidon. “Pilar veio como curiosa. Quando Saramago ainda era vivo eles receberam convites. No ano em que Saramago morreu foi feita homenagem. Nem ela e Saramago tinham vindo. Quando veio ficou encantada com a Flip”. Durante os dias em que Pilar esteve em Paraty foram feitas as primeiras conversas para maior participação de Portugal na festa literária cuja participação se restringia à presença de uma editora portuguesa e escritores convidados. “O acordo era que se qualquer um dos dois vencesse o prêmio seria dos dois”, revelou Pilar o combinado entre Saramago e Amado em relação ao Prêmio Nobel de Literatura, que foi dado ao português em 1988.

E Jorge comemorou muito a premiação do amigo, como mostram as correspondências. Paloma contou que quando Saramago recebeu o Nobel, o pai estava doente, mas que a notícia lhe trouxe ânimo e alegria. Ela ressaltou o quanto o pai se relacionava bem no meio literário. “Meu pai tinha boa relação com os editores todos. A dificuldade dele era com a crítica, que lhe foi muito cruel. Mas como ele tinha leitores a crítica deixou de abalá-lo. Ele já não respondia mais à crítica”, afirmou. Amado acordava às 5h para escrever, como lembra Paloma, “era contra a ginástica”. “Ele escrevia bastante até mamãe acordar”, recordou. Pilar revelou que, diferentemente do amigo, Saramago não madrugava, acordava às 9h, e tinha como meta escrever duas páginas por dia – não mais do que isso. “Ele não começava a terceira”, contou. Saramago só iniciava a escrita depois de ter todo o romance planejado.

Paloma e Pilar revelaram bastidores saborosos da criação de romances como Dona Flor e seus dois maridos (1972) e Evangelho segundo Jesus Cristo (1991).  “Meu pai dizia que Dona Flor era uma pequena burguesa, que não poderia se dar o desfrute de ter dois maridos e ter prazer com isso. A ideia foi dele”. Paloma revela que no planejamento inicial do pai, Dona Flor morreria para ir com Vadinho, mas a personagem foi maior do que os planos do escritor. “Minha mãe conta que um dia acordou e viu que meu pai a estava observando há algum tempo de braços cruzados. Olhou para minha mãe e disse: ‘Essa sua amiga! Ia escrever que ela iria morrer. Mas ela decidiu, por conta própria, a ficar com os dois’.” Pilar revelou também que Saramago se rendeu a Maria Madalena no Evangelho segundo Jesus Cristo. Outro segredo revelado foi que Amado era muito rápido na escrita e escreveu Quincas Berro D’água (1962), um dos preferidos por Saramago, em 48 horas.

Paraty recebe 34 esculturas de Brennand


O Sesc Paraty/Caborê abriu os  portões na última sexta-feira exibindo, em uma área descampada e a céu aberto, 34 esculturas do artista pernambucano Francisco Brennand. Trata-se da exposição Um espetáculo fascinante e bárbaro, organizada pelo curador Olívio Tavares de Araújo, que escolheu peças significativas vindas da Oficina Brennand, espaço nos arredores do Recife em que o artista – que recentemente completou 90 anos – acomoda seus mais de 1.700 trabalhos. O fascínio é coletivo – a maioria dos visitantes se surpreende ao descobrir, em vez de perfeitas reproduções humanas, "estranhos habitantes", esculturas de uma peculiar beleza que, no entender do curador, provocam "uma alegria sui generis”.

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