Conheça Diva Guimarães, a professora de 77 anos que se tornou símbolo desta edição da Flip

A professora negra de 77 anos emocionou Lázaro ramos e toda a plateia ao relatar sua dolorosa trajetória para vencer os preconceitos por ser neta de escravos

por Márcia Maria Cruz 30/07/2017 09:48

Iberê  Perisse/ Flip festa literária
Professora Diva Guimarães contou sua história como neta de escravos e emocionou Lázaro Ramos (E) e a plateia (foto: Iberê Perisse/ Flip festa literária )
Na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em que o ator-escritor  Lázaro Ramos era cotado para o posto de estrela da 15ª edição, o brilho foi de senhora de 77 anos de fala pausada e jeito tímido vinda do interior do Paraná. Quando ela pegou o microfone e, com a voz embargada começou a contar sua história, estava falando por um povo.  A fala represada “por anos” de dona Diva Guimarães encontrou ressonância de quem estava na tenda da Flipinha às margens do rio, mas de tão forte extrapolou os limites da cidade histórica, ganhou empatia por todo o Brasil amplificada pela rede.

O testemunho da professora nascida no interior do Paraná, mas radicada em Curitiba, fez com que todas as atenções e holofotes se voltassem para ela, que mais do que qualquer escritor ou escritora  convidada passou a ser reconhecida e parada nas ruas do Centro Histórico para tirar selfies. “Estou me sentindo assustadíssima. Não foi algo pensado, como sou tímida se tivesse pensado não pegaria o microfone”, afirmou.  

Por onde passa, é anunciada como celebridade e não foi diferente,  ontem à tarde, durante o lançamento do catálogo Intelectuais Negras Visíveis, organizado pela professora Giovana Xavier, que reuniu mulheres negras de todas as idades na Casa Amado e Saramago.

Na sexta-feira, depois das falas do ator Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques na mesa 'A Pele que habito', Diva da plateia falou por 13 minutos, fala gravada na íntegra pela organização da Flip e viralizou na Web. Até o momento foram mais de 222 mil compartilhamentos,  o que representa cerca de 7,5 milhões de visualizações.

 

Assista:


No mesmo dia se encontrou com Lázaro e, na manhã de ontem, na Pousada do Ouro, esteve com a escritora mineira Conceição Evaristo que fará hoje às 12h a mesa de encerramento 'As Amadas' com a outra escritora mineira Ana Maria Gonçalves – declaradamente fã de Conceição e Ana, Lázaro estará na plateia.

O encontro aconteceu no momento que Conceição concedia entrevista ao Estado de Minas e foi registrado ao vivo. As duas se abraçaram longamente e Conceição a chamou de irmã.  Diva contou que veio a Paraty por incentivo da sobrinha-neta Maitê Barp, de 21. “No ano passado, ela me falou da Flip e vim com meus colegas de faculdade. Gostei muito e retornei dizendo que ela tinha que vir”, afirmou a jovem.

No encontro, Conceição presenteou Diva com três livros Becos da Memória (2006), Insubmissas lágrimas de mulheres (Nandyala, 2011) e Histórias de leves enganos e parecenças (Editora Malê, 2016).  Quando perguntada sobre o sucesso repentino, Diva brinca: “Mas nossa divei mesmo. Foi muito bom, um renascimento e libertação. Eu tinha que divar, não é meninas? Virei verbo”, afirmou.

Márcia Maria Cruz/ EM/ D.A Press
Em Paraty, Diva Guimarães esteve com a escritora mineira Conceição Evaristo, que a presenteou com tr~es livros (foto: Márcia Maria Cruz/ EM/ D.A Press)


Conceição falou que a escrita era o espaço da “vingança” contra o racismo, onde ela exorcizava as descriminações. Já Diva disse que encontrou o alento no esporte como velocista e jogadora de basquete. “Era agressiva no esporte. Não na disputa, mas sendo destemida e determinada”. Ela transformava toda raiva no esporte. “Fico muito triste quando o governo (federal) anuncia que quer tirar a educação física das escolas”, disse em referência à reforma do ensino médio.

Relato Emocionante

No relato que levou Lázaro e boa parte da plateia às lágrimas, Diva contou que é neta de escrava e disse que foi levada a um colégio interno aos 5 anos de idade, onde ficou até os 9 anos. Foi lá que Diva passou por situações que deixaram cicatrizes como foi revelado por ela.  O que viveu no internato fez com que amadurecesse aos 6 anos de idade. “Sou do Sul do Paraná, lá do interior. Sou uma brasileira que sobreviveu porque tive uma mãe que fez de tudo, passou por todas as humilhações, para que nós estudássemos”, disse.

 Na história contada pela freira a diferença de cor entre brancos e negros se deveria ao fato da criação de um Rio por Deus -  certa mitologia de origem-  onde  brancos e negros se banharam. Trabalhadores os brancos teriam se banhado na água limpa e por preguiça os negros só teriam chegado até a lama.  Com essa história as freiras explicavam a diferença do tom de pele das pessoas e o motivo de os negros terem apenas as palmas das mãos e pés brancos. “Amadureci  com seis anos de idade. Demorei a aceitar esse Deus.”  Diva disse que repassou esses conhecimentos aos seus alunos em sala de aula. “Sou uma sobrevivente pela educação”, afirmou.

Durante o encontro com Conceição,  as duas se identificaram também nas leituras que fizeram. Tanto Diva como Conceição leram e gostaram de O meu pé de laranja lima (1968), de José Mauro de Vasconcelos. “José Mauro começou a ser desprezado pela crítica quando caiu no gosto popular”, relembrou Conceição citando outras obras do autor, como o livro Barro Branco.

Diva mora sozinha em Curitiba, cidade onde atuou como professora por 40 anos. Atualmente aposentada, ela gosta de ir ao cinema e “quando pode pagar”  gosta de assistir ao teatro. “Leio bastante. De tudo, do céu ao inferno”, pontuou. Em seu depoimento, ela chamou atenção para o glamour atribuído a Curitiba, “vista como cidade europeia”. Ela lembrou que, no entanto, a vida para quem é negro e mora da periferia da cidade é bem diferente.  Diva relatou as situações de discriminação que vive: “Ignoro a maioria das vezes. Vou para onde eu quero. Quando chegou numa loja, sempre vem alguém que pergunta: a senhora quer que oriente em alguma coisa. Eles ficam andando atrás de mim, mas resolvi dar uma canseira neles. Ando, ando pela loja e depois vou embora.”

Mas, antes de receber os holofotes, Diva relata que passou por momento de discriminação em Paraty.  A professora passeava pela cidade, quando foi abordada por uma mulher que se queixou do coco de um cão na calçada e repreendeu Diva como se o cachorro fosse dela. “Psiu, psiu. Estão me chamando, então olhei. Esse cachorro aqui é teu? ‘Deixou esse cachorro fazer coco aqui. Vai limpar’. Olhei para ela e disse: por que esse cachorro tem que ser meu¿ Ela ficou meio resmungando eu sou a única pessoa que passou por aqui nesse momento. Esse cachorro não é meu. Veio uma senhora e disse não liga não. Como não liga não? Foi bem isso e sei porque ela falou. Mas não vou chegar ao nível dela. Aconteceu aqui em Paraty quando estão homenageando quem? Lima Barreto.”

Diva se tornou símbolo desta edição da Flip que trouxe a questão racial para o debate central. Na tarde de ontem, curadores do Festival de Arte Negra que será realizado em Belo Horizonte em novembro manifestaram interesse em convidá-la para ir à capital mineira.

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