Lázaro Ramos abre hoje, em Paraty, a 15ª Flip. Leia entrevista

Em seu primeiro livro, ator baiano convoca leitor a participar de um debate sobre preconceito e identidade

por Silvana Arantes 26/07/2017 08:05

BOB WOLFENSON/DIVULGAÇÃO
(foto: BOB WOLFENSON/DIVULGAÇÃO)
Na abertura da 15ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), hoje, o palco será de Lázaro Ramos. Com seus predicados de ator e sob a direção de Felipe Hirsch, ele lerá trechos da recém-lançada biografia Lima Barreto – Triste visionário (Companhia das Letras), de Lilia Moritz Schwarcz.


De amanhã (27) e até domingo (30), último dia da festa literária, é o Lázaro Ramos escritor quem marca presença nesta Flip, em debates em torno de seu primeiro livro para o público adulto, Na minha pele (Objetiva). Convidado para diversas atividades paralelas à programação oficial, ele negou uma delas, prevista para o meio-dia de domingo, quando as autoras mineiras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves participam da mesa Amadas. Lázaro pretende estar na plateia para ouvir Conceição Evaristo, em cujas palavras ele presta atenção há tempos.

A autora de Becos da memória é citada duas vezes em Na minha pele. Na primeira delas, Lázaro conta ter aprendido com Evaristo algo de que nunca se esquecerá. “Ela diz que temos visto, nos últimos tempos, pessoas negras de estratos populares chegarem a universidades, a postos de comando no mercado de trabalho etc. São histórias exemplares, mas também perigosas. Devemos fazer uma leitura de que somos exceção. Quando nos prendemos muito a esse elogio da história pessoal (“ela veio da favela e conseguiu”), corremos o risco de dizer que o outro não conseguiu porque não quis, e isso não é verdade. A exceção confirma a regra.”

Consciente de que seu sucesso como ator no cinema e no teatro e sua projeção como protagonista de novelas e de um programa próprio na TV Globo (Mister Brau) lhe conferem um lugar de exceção, Lázaro abre sua intimidade no livro não para se autoelogiar, mas para empreender um diálogo com o leitor, a quem ele se dirige diretamente em muitas páginas.


Embora a extensão e a profundidade do preconceito racial na sociedade brasileira estejam vastamente abordadas em Na minha pele, o autor discorda da avaliação de que esse é um livro sobre racismo. “Não diria que é sobre racismo; diria que é sobre formação de identidade. Essa imprecisão é importante para a degustação desse livro, porque a conversa se amplia com mais pessoas. Quero acolher quem pensa nessas questões e convocar e acolher quem nunca pensou nessas coisas”, afirma ele ao Estado de Minas.

ESCUTA O tom do diálogo é condizente com seu posicionamento “aberto à escuta”, mesmo quando está com a palavra. “Não estou arrotando verdades. Estou compartilhando dúvidas.” As dúvidas de Lázaro Ramos sobre os caminhos que levarão o Brasil a superar sua herança escravocrata, ou seja, a ser um país melhor no futuro, se intensificaram após o nascimento de seus filhos, João Vicente e Maria Antônia.  “A paternidade tem me dado inspiração para agir. Antes dos filhos, estava num momento pessimista e individualista. Pensava em mim, naquilo que eu ia conquistar. Meus filhos ativaram em mim um novo gás para criar e produzir narrativas e me engajar em questões, movido por um sentimento – talvez idealista ou utópico – de transformação do mundo”, afirma.

Ao descrever seu comportamento na esfera privada e suas escolhas na vida profissional, como a de recusar papéis em que empunharia armas, para não repisar a imagem do negro associado à criminalidade, Lázaro diz, em determinado ponto do livro: “Quero crer que escolhi uma maneira de não viver pela demanda do racismo”. Mais adiante, ele afirma “lutar” para não se render à demanda do racismo.

Sobre a diferença entre essas duas formulações, ele diz: “Nem sempre é possível isso. Às vezes você é convocado a entrar em algumas lutas. Não é uma conta exata. É um desejo. É um querer. A gente é convocada a lutas todos os dias”. E resume: “No fim das contas, o que quero dizer é que espero que seja possível variar a minha luta entre lutas e prazeres para não adoecer, porque, às vezes, aquilo que nos provoca a dor vence. E não adoecer é resistir”.

 

TRÊS LIVROS E M PROGRAMA

Depois de emplacar Na minha pele na relação das obras de ficção mais vendidas do país no mês de seu lançamento, Lázaro Ramos está escrevendo não um, mas três novos livros – dois infantis e um adulto, sobre a paternidade. “Estou fazendo O caderno de rimas da Maria, que é a continuação de O caderno de rimas do João”, conta. “Outro vai ser uma peça do Bando de Teatro Olodum, O coelho que queria mais”.

 

O volume para público adulto, por enquanto, não tem formato definido. “Tem ficção, frases soltas, está uma maluquice, como tudo o que eu começo a fazer.” Na TV, ele deve estrear um programa de variedades a ser lançado pela Globo primeiramente na internet e, em seguida, em sua grade. A atração envolve a relação que Lázaro Ramos desenvolveu com as redes sociais, um “aprendizado a duras penas” para se mover num terreno que ele reconhece como “potencialmente violento”, mas em que hoje consegue navegar com certa tranquilidade.

 

Na minha pele

Autor: Lázaro Ramos
Editora: Objetiva (152 págs.)
Preço sugerido: R$ 34,90

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