José Eduardo Agualusa lança 'A sociedade dos sonhadores involuntários'

O escritor angolano define a literatura como uma sociedade de pessoas que "treinam para sonhar"

por Carlos Marcelo 24/07/2017 08:00

Foz Editora/Divulgação
José Eduardo Agualusa: 'Tenho o mesmo sonho para Angola e Brasil: uma democracia avançada liberta da corrupção' (foto: Foz Editora/Divulgação)
Um dos sonhos de José Eduardo Agualusa pode se tornar realidade. Ao ganhar mês passado o prêmio de 75 mil euros do Dublin Literary Award pelo romance Teoria geral do esquecimento, uma das maiores premiações em dinheiro destinadas à literatura mundial, o escritor deve concretizar desejo antigo: “Gostaria de instalar a minha biblioteca pessoal na Ilha de Moçambique e de abri-la um dia aos habitantes da cidade. O prêmio pode ajudar-me a conseguir isso”, acredita o angolano, nascido em 1960, com livros traduzidos em mais de 30 idiomas.

De Teoria, lançado em 2012, ele pinçou um dos personagens, o jornalista Daniel Benchimol, para ser um dos narradores do mais recente romance. A sociedade dos sonhadores involuntários, que chega ao Brasil pelo selo Tusquets, é uma ode ao poder dos sonhos. Recheado de personagens marcantes e passagens encantadoras, tem forte conteúdo político – mas não espere encontrar slogans ou palavras de ordem. Agualusa maneja as palavras sem reducionismos. Para o jornal português Público, A sociedade… é um “livro engajado, sem perder a ambição de ser poético e a vontade de saber mais sobre o mundo dos sonhos. É um livro de quem continua a acreditar em utopias”.

Com referências ao Brasil, e um personagem (Hélio de Castro) inspirado no neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, que comanda no Instituto do Cérebro, em Natal, estudos sobre sono, sonhos e memória, A sociedade dos sonhadores… será lançado hoje, em Belo Horizonte, em mais uma edição do projeto Sempre um Papo. Em 2015, ao diário pernambucano Jornal do Commercio, o escritor antecipou que escreveria um livro sobre sonhos. “Quando me deito para dormir estou a ir para o trabalho. Sonhar faz parte do meu ofício”, contou Agualusa, que anota seus sonhos em diário (parte das anotações está no livro novo). “Quase todos os sonhos descritos foram experimentados por mim”, revela, em entrevista ao Estado de Minas.

A seguir, Agualusa fala sobre as referências mineiras incluídas em A sociedade..., o que gosta e não gosta no Brasil (“não gosto do Temer, por exemplo”) e define a literatura como uma sociedade “talvez de sonhadores voluntários, ou seja, de pessoas que se treinam para sonhar”.

 

Alex cerveny, em arte reproduzida na capa de  a sociedade dos sonhadores involuntários
(foto: Alex cerveny, em arte reproduzida na capa de a sociedade dos sonhadores involuntários)

 

 

Acredita que A sociedade dos sonhadores involuntários estabelece diálogos com seus livros anteriores, como O vendedor de passados e Teoria geral do esquecimento?
Sim. Até mais do que isso. São livros que pertencem a uma mesma família. São sátiras políticas que partem da realidade, mas que namoram com a poesia, com o fantástico e o onírico. Neste último romance, o narrador, o jornalista Daniel Benchimol, vem da Teoria geral do esquecimento.

“Eu não quero o veleiro, eu quero a viagem. Não quero o disco, quero a canção.” Escrever pode render tanto prazer quanto ser lido?
Escrever é o prazer principal. Ser lido é consequência eventual desse prazer. Se um livro tiver dado grande prazer ao seu autor, então, muito provavelmente, agradará também a alguns leitores.

Um dos narradores sonha com conversas, entrevistas, “versos soltos”. Você já escreveu o que sonhou? Chega a anotar os seus sonhos e utilizar as anotações em seus livros?
Sim. Neste livro, quase todos os sonhos descritos foram experimentados por mim. Escrevo um diário no qual, entre muitos outros detalhes, tomo nota de alguns sonhos.

“Sonhos nos ajudam a organizar o pensamento”, afirma uma das personagens, Moira. Para você, funciona assim? Os sonhos podem ajudar a organizar um livro, por exemplo?
Sem dúvida alguma. Eu realmente sonho com os personagens, com os enredos e até com alguns diálogos. Sonho quase sempre com os finais dos romances.

“Não gosto de nada que venha do Brasil.” As exceções, para um dos personagens, são três: Paulinho da Viola, Pelé e Mangueira. E você, o que mais gosta no Brasil? Abre as mesmas exceções?
Esse personagem é uma caricatura de muitos angolanos que afirmam odiar o Brasil, mas amam a música popular brasileira, desfilam em escolas cariocas, torcem pela seleção brasileira de futebol etc. Eu gosto do Brasil. Sempre gostei. Se me perguntar do que não gosto fica mais fácil responder. Olhe, não gosto do Temer, por exemplo.


O estado de Minas Gerais é citado no livro novo como o estado natal de um dos personagens,  natural de São Francisco, e no identificável sotaque do neurocientista Hélio de Castro. Como Minas e os mineiros estão em suas lembranças?

Fui amigo do (ex-ministro da Cultura) José Aparecido de Oliveira (1929-2007). Lembro-me dele com muito carinho. Era um homem que partilhava comigo a paixão pela língua portuguesa e pelo universo lusófono. Tenho outros bons amigos mineiros, sobretudo escritores, como Afonso Borges ou Luiz Ruffato. Gosto muito das velhas cidades mineiras, como Ouro Preto ou Tiradentes, que me lembram muito velhas cidades angolanas, como Benguela ou o Dondo. Atualmente, passo parte do ano numa cidade da mesma família de todas essas, a Ilha de Moçambique, no norte de Moçambique, onde viveu e morreu o poeta mineiro Tomás Antônio Gonzaga. Conheço os descendentes dele. Como ele, também eu me apaixonei por uma mulher da Ilha.

O que você sonha para Angola e para o Brasil?
O mesmo: uma democracia avançada, liberta da corrupção. Com uma democracia autêntica, que não pudesse ser confundida com uma qualquer cleptocracia, tanto Angola quanto o Brasil poderiam prosperar rapidamente. Infelizmente, acho difícil que isso aconteça sem um investimento sério e continuado em educação e cultura. Sem que todos os angolanos e brasileiros possam ter, por exemplo, acesso aos livros.

“Os caminhos impossíveis, aqueles que dão medo, são os únicos que merecem ser explorados.” Quais caminhos, possíveis ou impossíveis, ainda há a percorrer na literatura? E na vida?
A vida é um imenso território, com infinitos caminhos por explorar. Sendo a literatura uma expressão da vida, haverá também caminhos com os quais ainda nem sequer sonhamos.

“Escrever – como toda viagem – é procurar o espanto”, você escreveu em sua coluna semanal em O Globo. Como continuar à procura do espanto sem se repetir?

O mundo é vastíssimo. A vida é vasta como o mundo. Tudo o que é vivo me espanta, tudo na vida me encanta. São muito mais as interrogações do que as respostas. Hão de ser sempre, é claro. No dia em que me deixar de espantar, nesse dia terei desistido de viver. Suponho que não corro o risco.

A literatura também é uma sociedade de sonhadores involuntários?
Talvez de sonhadores voluntários, ou seja, de pessoas que se treinam para sonhar. Profissionais do sonho, digamos assim. É isso que somos.

>> A sociedade dos sonhadores involuntários
>> Autor:
 José Eduardo Agualusa
>> Editora:  Tusquets/Planeta
>> 256 páginas
>> Preço sugerido:  
>> R$ 41,90

Sempre um Papo
Com José Eduardo Agualusa. Hoje, às 19h30, no auditório da Cemig (Rua Alvarenga Peixoto, 1.220, Santo Agostinho). Entrada franca.

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