Livro registra o nascimento e os bastidores da obra de diretor mineiro

'Imaginai! O teatro de Gabriel Villela' contempla 42 montagens do artista. Volume traz detalhes de sua parceria com o Grupo Galpão

por Silvana Arantes 23/07/2017 09:30
Guto Muniz/Divulgação
Os atores Eduardo Moreira e Fernanda Vianna em cena de Romeu e Julieta, que recorre à linguagem do circo para retratar o desequilíbrio dos personagens (foto: Guto Muniz/Divulgação)
Uma das montagens mais bem-sucedidas do teatro brasileiro, o Romeu e Julieta do Grupo Galpão é “a maior felicidade e a maior tristeza” na carreira do diretor Gabriel Villela. Ele descreve os dois lados da experiência e seus desdobramentos na relação que mantém com a trupe mineira no livro Imaginai! O teatro de Gabriel Villela, organizado por Dib Carneiro Neto e Rodrigo Audi e lançado neste mês pelo Selo Sesc.


Com relatos do próprio diretor sobre 42 montagens de seu currículo e textos adicionais de nove especialistas em distintos aspectos do fazer teatral – incluindo A dramaturgia da paixão, assinado por Eduardo Moreira –, o volume oferece uma visão íntima do nascimento e dos bastidores de cada criação.

Quando Villela e o Galpão se encontraram pela primeira vez, o momento era de turbulência para o grupo. “O ano era 1985, e o Galpão passava por uma de suas maiores crises. Vivíamos os tropeços de um processo confuso de direção coletiva, em que os papéis eram pouco precisos, faltando uma visão de fora que desse rumos ao grupo”, descreve Moreira em seu texto.

Alguns anos mais tarde veio a aproximação que resultou em Romeu e Julieta (1992), cujos ensaios foram concluídos ao ar livre na cidadezinha de Morro Vermelho, com a população servindo de público e termômetro da elaboração de um espetáculo entranhado nas “excelências mineiras”. O barroco era a grande referência e a linguagem circense, a roupagem ideal para o desequilíbrio emocional das personagens (os atores acomodavam seus corpos sobre pernas de pau) dessa “tragédia de precipitação”, a classificação preferida por Villela da obra de Shakespeare.

O sucesso foi enorme. “Não dávamos conta de tantos pedidos para apresentações, incluindo todos os principais festivais. Mas aí veio a grande tristeza, abatendo-se sobre nós em forma de tragédia”, lembra Villela, referindo-se à morte, em 1994, num acidente de automóvel, da atriz Wanda Fernandes, a Wandinha, intérprete de Julieta, mulher de Moreira e mãe de João, filho do casal. “Fiquei traumatizado para sempre. Foi pesado, trágico, agudamente dolorido. O grupo caiu em desânimo profundo, apatia enorme”, relata o diretor.

Villela, no entanto, decidiu não se deixar vencer pela apatia e pela dor. “Não chorei na frente deles. Tive que bancar o forte e sei quanto isso foi fundamental naquele momento.” Bancou não apenas o forte, como também o impiedoso para prosseguir com os ensaios de A rua da amargura. “Atuei de forma imperativa, arrombando cercas, não respeitando o limite emocional de ninguém. Virei um bicho atrás de ressurreição.”

DESAGRADO

O reencontro do diretor com o Galpão - em Os gigantes da montanha (2013) - levou quase duas décadas para ocorrer e não se deu sem sobressaltos. “Quando fizemos a primeira leitura com o grupo, a cara de desagrado da maioria era patente. De saída, já queriam lógica na intelecção. E isso mata a arte.” Superadas as diferenças entre diretor e atores, “a estreia foi absolutamente incrível, na Praça do Papa, com um público estimado em 10 mil pessoas”, lembra o primeiro.

Guto Muniz/Divulgação
Wanda Fernandes, a Wandinha, com Julieta; atriz morreu em 1994, num acidente de automóvel (foto: Guto Muniz/Divulgação)
Gostar de trabalhar com Gabriel Villela e desentender-se com ele não são coisas excludentes, como se depreende da leitura de Imaginai! “Ele nos mostrava enfaticamente, para não dizer que gritava, possuído por aquela ira não muito santa, como tinha que ser, o tom exato, o gesto forte, a ruptura, o não convencional. A vontade era de chorar, ir embora para sempre, mas ficávamos, porque sua raiva acaba se transformando num surto criativo”, confidencia a atriz Walderez de Barros em seu texto Quando há método na loucura...

Embora tenha conhecido de perto a “ira não muito santa” de Villela, Walderez tem por ele afeto e gratidão. “Considero o Gabriel responsável pelo meu renascimento como atriz, pois ele me reapresentou o prazer do fazer teatral, do jogo, da brincadeira, fez-me ultrapassar meus limites, sem qualquer rede de segurança.”

Autor e tradutor de textos encenados por Villela, Dib Carneiro Neto afirma que o processo de preparação do livro foi marcado pelo prazer de ouvir o diretor nascido em Carmo do Rio Claro (MG) prosear sobre sua obra. “Não sei se com outro diretor que não fosse mineiro e não tivesse esse jeito fantasioso de viver seria tão prazeroso. É um cara imaginativo à máxima potência, mesmo quando ele reconta, é com outro sabor, com mais detalhes.”

Carneiro Neto ouviu (e gravou) Villela a respeito de cada uma das montagens abordadas no livro, incluindo o apêndice sobre a direção de shows e óperas. A partir desse material, redigiu os textos que abrem cada capítulo com a voz do diretor em primeira pessoa. A pesquisa e seleção das fotos coube ao coautor Rodrigo Audi.

A influência das raízes mineiras no jeito de ser e na obra de Villela são aspectos abordados por Carneiro Neto em seu texto introdutório, Cores, texturas e prazeres de uma primavera ininterrupta. Em outro tom, o tema surge também nas palavras de Fausto Viana e Rosane Muniz, que escrevem sobre O figurino de Gabriel Villela: dramaturgia e poéticas têxteis. Viana e Muniz citam a relação precoce de Villela com tramas e tecidos, quando, ainda criança, era testemunha e ajudante do trabalho da mãe como costureira e bordadeira de vestidos de noiva. Eles recuperam ainda um trecho da entrevista do diretor para a TV Cultura, em 2011, no qual afirma: “Sou amigo e inimigo ao mesmo tempo (de Minas). Eu sou, na verdade, um expatriado. Minas é uma péssima mãe e uma excelente madrasta. Uma terra de culpa, de muita culpa”.

Profícuo, Villela já montou Peer Gynt, de Ibsen, após a conclusão do livro e se prepara para estrear sua versão de Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, no mês que vem. “Ele não para. Ainda bem!”, diz Carneiro Neto.

 

 

Edições Sesc/Reprodução
(foto: Edições Sesc/Reprodução)
Imaginai!
O teatro de Gabriel Villela
Autores: Dib Carneiro Neto e Rodrigo Audi
Edições Sesc São Paulo (340 págs.)
Preço sugerido: R$ 110

 

REPERTÓRIO DE TEATRO
Confira as montagens de Gabriel Villela abordadas no livro Imaginai!

Você vai ver o que você vai ver (1989)
O concílio do amor (1989)
Relações perigosas (1990)
Vem buscar-me que ainda sou teu (1990)
A vida é sonho (1991)
Romeu e Julieta (1992)
A guerra santa (1993)
A falecida (1994)
A rua da amargura (1994)
Torre de Babel (1995)
Mary Stuart (1996)
O mambembe (1996)
O sonho (1996)
Ventania (1996)
A aurora da minha vida (1997)
Morte e vida severina (1997)
Alma de todos os tempos (1999)
Replay (2000)
Ópera do malandro (2000)
Os saltimbancos (2001)
Gota d’Água (2001)
Sonho de uma noite de verão (2002)
A ponte e a água de piscina (2002)
Quarteto/Relações perigosas (2003)
Auto da liberdade (2003)
Fausto zero (2004)
(Re)Apareceu a Margarida (2005)
Esperando Godot (2006)
Leonce e Leona (2006)
Salmo 91 (2007) - Dib
Calígula (2008)
Vestido de noiva (2009)
O soldadinho e a bailarina (2010)
Sua incelença, Ricardo III (2010)
Crônica da casa assassinada (2011)
Hécuba (2011)
Macbeth (2012)
Os gigantes da montanha (2013)
Um réquiem para Antonio (2014)
Mania de explicação (2014)
tempestade (2015)
Rainhas do Orinoco (2016)

 

“Irmãos de sangue artístico, Gabriel e o Galpão se alinham na proposta de fundir clássico com popular, rua com palco, universalidade com brasilidade, numa miscelânea que faz parte da nossa raiz vira-lata de brasileiros, heróis e criadores sem caráter”

EDUARDO MOREIRA,
ator, dramaturgo e diretor

“Hoje posso dizer que Wandinha foi o nó-mãe que me amarrou para sempre ao Grupo Galpão nesta vida. Não chorei na frente deles. Tive que bancar o forte e sei quanto isso foi fundamental naquele momento”

GABRIEL VILLELA,
diretor

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