Projeto de artes visuais vai colorir paredões de concreto na Região Central de Belo Horizonte

Em sua primeira edição, festival de arte urbana mineiro reunirá cinco artistas

por Márcia Maria Cruz 17/07/2017 20:03

Beto Novaes/EM/D.A PRES - 3/5/2016
A artista visual: "não tenho medo de altura, mas não sei como pode ser, pois nunca estive nessa situação" (foto: Beto Novaes/EM/D.A PRES - 3/5/2016)

Da Rua Sapucaí, no Bairro Floresta, avistam-se facetas que tornam Belo Horizonte cinza. São paredes de concreto, laterais externas de edifícios na Região Central. Sem aberturas, essas empenas, como são chamadas, estavam ali para receber outro edifício, a ser construído ao lado, o que não ocorreu. Mesmo sem qualquer funcionalidade, elas seguiram compondo a vista da cidade.

Com o tempo, muitos se acostumaram àqueles pontos cegos. Mas as empenas não se tornaram imperceptíveis aos olhos da artista visual Priscila Amoni e das produtoras Juliana Flores e Janaína Macruz. Da Rua Sapucaí, elas não avistavam apenas paredes sem graça, mas telas gigantescas à espera de pintores. Ao sonhar que o horizonte se tornasse digno do nome da cidade, o trio concebeu o Circuito Urbano de Arte (Cura).

Em sua primeira edição, o festival de arte urbana mineiro reunirá cinco artistas. De 25 de julho a 6 de agosto, eles pintarão as empenas de quatro edifícios – as “telas” chegam a 50 metros de altura por 37 de largura. “Todos os prédios são vistos da Rua Sapucaí, corredor cultural efervescente. Já vimos festivais semelhantes em outros lugares do mundo, queríamos fazer aqui, mas com algo que nos diferenciasse. Então, estamos propondo o recorte visual desse mirante da cidade”, explica Juliana Flores.

O Cura terá dois artistas de Belo Horizonte, Thiago Mazza e Priscila Amoni; a dupla Acidum Project, de Fortaleza, formada por Tereza Dequinta e Robézio Marqs; e a artista espanhola Marina Capdevilla. Murais com dimensões gigantescas podem ser vistos em várias cidades. No Rio de Janeiro, destaca-se o trabalho do brasileiro Kobra, realizado durante os Jogos Olímpicos. Ele assinou também o imenso retrato de Bob Dylan em Minneapolis, nos Estados Unidos. Em Valparaíso, no Chile, as dezenas de empenas se transformaram em atração turística.

Outro aspecto que chama a atenção no circuito belo-horizontino é o fato de o projeto ter sido concebido por mulheres. A presença feminina se dá também entre os autores: elas são três entre os cinco convidados. “Quando olhávamos para esses grandes murais, víamos que muitos eram feitos só por homens. Pensávamos sobre o porquê dessa limitação, se temos tantas mulheres incríveis”, questiona Juliana.

Com a pintura simultânea das quatro empenas em BH, o propósito é inserir a capital no cenário internacional de arte urbana. Todo o processo será acompanhado por uma rede de artistas e pessoas interessadas por meio do Instagrafite, o maior canal de divulgação de arte urbana do Instagram. Será possível acessar o processo pelas redes sociais ou ver tudo ao vivo, pois será montada uma base de apoio na Rua Sapucaí.

DESAFIO Cada artista terá 12 dias para cumprir a missão. Priscila Amoni, de 32 anos, ficará responsável pela empena do Hotel Rio Jordão, com 49 metros de altura. “Nunca pintei algo perto disso. Meu maior mural tem sete metros. A empena é sete vezes maior”, comenta. Um dos desafios é riscar o desenho. Priscila pretende usar a técnica de quadriculados. “Um centímetro quadrado equivale a um metro quadrado. Estamos calculando a quantidade de tinta que usaremos”, explica. O empoderamento feminino é o mote do trabalho da jovem pintora.

Quando fez o primeiro mural no quarto de casa, em novembro de 2011, Thiago Mazza não imaginava o desafio que teria seis anos depois: colorir a empena do Edifício Satélite, com cerca de 40 metros de altura e 10,5 metros de largura. “O maior que pintei tinha 20 metros de altura e 15 metros de largura, em um festival em La Bañeza, na Espanha, em agosto do ano passado. Também pintei um mural de 15 metros na Rússia”, conta.

Nascido em BH e criado em Ouro Branco, Thiago é ligado à natureza e trará essa temática para seu trabalho.  Autodidata, o jovem muralista acredita que usará pelo menos 200 litros de tinta. “As pinturas vão mudar muito a paisagem da cidade, além de abrir as portas para outros artistas”, acredita.

Enquanto as empenas forem pintadas, serão realizadas atividades sobre arte urbana. No dia 27, haverá debate sobre a história dessa modalidade artística em BH, com participação de Roger Dee, Debora Penacchini, Alan Academia e DMS. Na Benfeitoria, Mag Magrela (SP), Bolinho, Luiza Academia, Viber e Clara Valente discutirão a questão de gênero no universo do grafite. Manu Grossi vai apresentar um panorama sobre muralismo desde a Grécia Antiga. A relação entre arte e patrimônio público será tema do bate-papo dos grafiteiros Goma e Onesto com o secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, e Michele Arroyo, presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha/MG).

SEM MEDO Nos  últimos dias, artistas e produtores do Circuito Urbano de Arte (Cura) se dedicaram à logística do projeto. Pintores descerão pelas paredes com a ajuda de balancins, plataformas suspensas por meio de roldanas que permitem movimentação vertical. “Não tenho medo de altura, mas não sei como pode ser, pois nunca estive nessa situação”, revela Priscila Amoni.

Para se ter ideia do que será o mural, basta recordar a imagem de Tiradentes, que, até dezembro de 2014, enfeitava a empena do prédio da Rua Rio de Janeiro, 39, quase esquina com Avenida dos Andradas. “Aquela pintura de Tiradentes está na memória de todo mundo. Quando era criança, via aquela imagem do banco de trás do carro. Era um mistério, uma imagem meio fantasmagórica”, diz Priscila.

Como os prédios estão em área tombada, foi necessária a avaliação do projeto pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. A proposta foi aprovada por unanimidade. “O circuito trará uma visada totalmente nova para a cidade. O projeto contribui para o visual de BH”, diz Mariana Guimarães Brandão, arquiteta da Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura, que apresentou relatório técnico favorável ao circuito. Aos artistas foi solicitada uma contrapartida: fazer a manutenção das pinturas, de forma que elas não se deteriorem com o passar do tempo.

MURAIS CURA

 





• EDIFÍCIO RIO TAPAJÓS (FOTO)
Onde: Rua da Bahia, 325, Centro
Artistas: Acidum Project (Tereza Dequinta e Robézio Marqs)

• EDIFÍCIO SATÉLITE(FOTO)
Onde: Rua da Bahia, 478, Centro
Artista: Thiago Mazza


• EDIFÍCIO TRIANON
Onde: Rua da Bahia, 905, Centro
Artista: Marina Capdevilla


• HOTEL RIO JORDÃO
Onde: Rua Rio de Janeiro, 147, Centro
Artista: Priscila Amoni


•   De 25 de julho a 6 de agosto. Das 8h às 18h

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