Adélia Prado defende o poder da arte de motivar o cidadão para enfrentar a crise

Escritora é a primeira mulher a ganhar o Prêmio do Governo de Minas Gerais de Literatura e fala sobre sua perspectiva para o futuro

por Márcia Maria Cruz 30/06/2017 08:00

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Adélia Prado tem fé na mineiridade nas palavras de Guimarães Rosa. (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

O ano era 1973. Em Licença poética, Adélia Prado parafraseava Carlos Drummond de Andrade. Mãe de cinco filhos e professora do Ginásio Estadual Luiz Viana Sobrinho, a estudante de filosofia de Divinópolis reivindicava um lugar para a mulher na poesia. Provocava o itabirano, que, em Poema de sete faces, decretava: ''Vai, Carlos! Ser gauche na vida''.

 

Ao ler os versos (ainda nos originais) que abrem Bagagem, primeiro livro de Adélia, Drummond o indicou ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, que o publicou em 1976. O poeta consagrado escreveu no Jornal do Brasil: ''Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus.''

 

Adélia dizia que as trombetas para ela, mulher, foram tocadas por um anjo esbelto que anunciou: ''Vai carregar bandeira. (...) Ser coxo na vida era maldição pra homem.'' A jovem de 30 e poucos anos, quando escreveu aqueles versos, nem sequer de lampejo imaginaria que em 2017, precisamente no 28º dia de junho, sairia de sua casa, em Divinópolis, para ouvi-los declamados por jovens na Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, durante solenidade de premiação da sua obra. Meninas e meninos de cabelo black power, de tranças, com cabelos lisos até a cintura ou corte chanel – todos de preto – deram vida ao que Adélia escreveu ao longo de quatro décadas em sete livros de poesia e oito de prosa. A moçada faz parte do grupo Palavra Viva.


Com os cabelos brancos na altura dos ombros, a escritora escolheu uma echarpe dourada para receber dois prêmios no mesmo dia: à tarde, o Galo de Prata, concedido pelo Clube Atlético Mineiro a seus torcedores ilustres; à noite, o Prêmio do Governo de Minas Gerais de Literatura. Durante a última solenidade, ela pediu licença aos cruzeirenses e relembrou Tecendo amanhã, De João Cabral de Melo Neto, para falar da beleza do galo dar licença para a manhã nascer.

CRISE

Adélia lamentou a crise que o Brasil enfrenta. Disse não se lembrar de um momento ''tão cinza'' no país. ''Perdemos exatamente a qualidade simbólica. A política não simboliza mais. Está doído.'' Para ela, só há um caminho: ''Seguir a vida segundo sua convicção mais profunda. Temos que procurar a transcendência para dar conta da vida.''

 

Aos 81 anos, a professora Adélia ensinou que a poesia nos humaniza, convocando todo mundo a escrever. ''Quem não souber, reza um Pai Nosso'', disse. ''Precisamos buscar coisas que não servem para nada. É disso que precisamos. Na primeira aula de filosofia, meu professor disse que a filosofia não servia para nada. É como a arte. Não tem função utilitária e comercial.''

 

A poeta agradeceu a homenagem: ''Estou achando uma coisa muito importante, não porque recebi um prêmio, mas porque é o reconhecimento da minha terra, da minha história. Do estado onde tive minha primeira visão de vida, mamei no leite de minha mãe.'' E defendeu a mineiridade. ''Dizem que somos o jeca. Dizem que também somos os ingleses do Brasil por nossa reserva, discrição, elegância rural. Até nos esforçamos para fazer carnaval, mas somos quaresmais. É mais bonito Cristo na cruz do que ressuscitado'', afirmou. Ao falar da importância de Minas para a cultura do Brasil, citou Guimarães Rosa: ''Ele dizia que a gente tem que escrever com a barriga. Ou é a vida que se está escrevendo ou é nada.''

 

O Prêmio do Governo de Minas Gerais de Literatura contemplou os vencedores com R$ 258 mil. Adélia Prado recebeu R$ 150 mil; Silvio Rogério Silva, premiado na categoria ficção, R$ 30 mil; Tadeu de Melo Sarmento, em poesia, R$ 30 mil; e Jonathan Tavares Diniz, vencedor da categoria jovem escritor, R$ 48 mil.


Adélia foi a primeira mulher a receber o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 

 

Adélia Prado foi a primeira mulher a ganhar Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura pelo conjunto da obra. A divinopolitana foi escolhida por unanimidade pelo júri composto pelos professores Guiomar de Grammont (UFOP), Ruth Silviano Brandão (UFMG) e Luis Augusto Fischer (UFRS).

O nome de Adélia Prado foi levada ao júri pela professora Ruth Silviano Brandão, uma das fundadoras do programa de pós-graduação da Faculdade de Letras da UFMG. “Quando tomei conhecimento dos nomes dos antigos ganhadores do prêmio, na lista só tinha homens, aliás muito bem escolhidos. No entanto, temos tantas escritoras. Deveríamos pensar na hipótese, sem forçar a escolha numa escritora. A obra de Adélia é tão boa. Então, por que não?”

Ruth lembra que a obra de Adélia tem peso poético, além de ter grande divulgação no Brasil e em outros países. “Reli parte da obra e conclui que ela é uma grande poeta não só pelos temas que trata, mas pelo manejo com a língua poética.” Para a professora, obra de Adélia inaugura na literatura brasileira uma poesia que se abriu para o feminino, o erotismo e o místico. Tudo com muito humor.

Adélia trata do ambiente doméstico, fala como dona de casa, a partir da fé cristã. “Ela apresenta de uma forma como nunca tinha sido escrito antes. Tem um peso poético e novidade. Não é só porque tem uma mulher escrevendo”. A professora lembra que, em decorrência da importância literária, a obra da Adélia se tornou tema de teses de mestrado e doutorado.

Ruth lembra que Adélia também mostrou o Brasil, como pode ser visto no livro Terra de Santa Cruz (1981). “Ela trata não só das questões relativas à religião e à vida doméstica. Adélia também tem uma visão sobre o Brasil.” A professora destaca os versos de um dos poemas do livro: “É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos/ ao nosso Deus que é uma galinha grande/ Nos põe debaixo da asa e nos esquenta/ Antes, nos deixa desvalidos na chuva/ pra que aprendamos a ter confiança n’Ele/ e não em nós.”

Na avaliação da professora, ao comparar o Deus dos exércitos a uma grande galinha, Adélia propõe surrealismo. “Ela tem escrita pessoal, lúdica e uma forma onírica de ver o mundo. Qualquer página que você abrir em Terra de Santa Cruz, encontramos coisas surpreendentes. A poesia dela é grande, extraordinária”, avalia.

Nas edições anteriores, foram contemplados Fábio Lucas, Ferreira Gullar, Rui Mourão, Affonso Ávila, Silviano Santiago, Luis Fernando Verissimo, Sérgio Sant’Anna e Antonio Candido. 

 

DEPOIMENTOS

Adélia é o nosso ícone. Foi minha professora de filosofia. Escreveu no jornal literário de Divinópolis, chamado ‘Agora’. Quando adolescente colaborava com o jornal ‘Elo seráfico’, dos franciscanos. Publicava com o pseudônimo de Franciscana. A premiação de Adélia é um presente para nós. Reafirma o valor do nome dela não só na literatura brasileira, como na universal.” Osvaldo André de Mello – Secretário de Cultura de Divinópolis.

 

Adélia é a primeira mulher a ganhar o prêmio em Minas Gerais. É uma homenagem significativa. O maior prêmio literário de Minas contempla a poeta que tem profundo sentimento das Minas e dos Gerais. Ela foi imediatamente reconhecida por Carlos Drummond de Andrade. É uma grande expressão poética da mulher. Não diria poesia feminina, mas poesia da mulher” – Ângelo Oswaldo – secretário de Estado da Cultura 

 

A OBRA DE ADÉLIA

 

 Poesia

Bagagem (1976)

O coração disparado (1978)

Terra de Santa Cruz (1981)

O pelicano (1987)

A faca no peito (1988)

Oráculos de maio (1999)

A duração do dia (2010)

Misere (2013); Poesia Reunida (2016)

 

 

Prosa

Solte os cachorros (1979)

Cacos para um vitral (1980)

Os componentes da banda (1984)

O homem da mão seca (1994)

Manuscritos de Felipa (1999)

Filandras (2001)

Quero minha mãe (2005)

Quando eu era pequena (2006)

Carmela vai à escola (2011)

 

 

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