Garota de 13 anos relata a guerra na Síria em diário

Residente em Aleppo, Myriam Rawick escreveu num caderno o dia a dia dos combates, que destruíram seu bairro e puseram sua família em fuga

por AFP 24/06/2017 08:00

JOSEPH EID/AFP
(foto: JOSEPH EID/AFP)
A síria Myriam Rawick, de 13 anos, teve de fugir de seu bairro, sofreu bombardeios e virou refugiada em sua própria cidade. Um pesadelo de cinco anos que ela registrou em seu diário. O diário de Myriam conta a guerra síria vista por uma criança de uma família cristã de classe trabalhadora, de origem armênia, cuja vida foi alterada por “coisas de adultos”.


Myriam escrevia tudo que via: lemas revolucionários pintados nos muros, manifestações contra o governo, o sequestro do seu primo, o bloqueio e os combates. “Quando a guerra começou, minha mãe sugeriu que eu escrevesse um diário. Nele, contava tudo o que tinha feito no meu dia. Pensei que assim eu poderia um dia lembrar de tudo o que aconteceu”, conta Myriam, em Paris.

Em dezembro de 2016, o jornalista francês Philippe Lobjois ouviu falar sobre a menina e seu diário, um caderno de cerca de 50 páginas escritas em árabe, e pensou que era a ocasião de contar esta guerra de dentro. O diário, que cobre o período de novembro de 2011 a dezembro de 2016, foi traduzido para o francês e acaba de ser publicado pela editora Fayard na França.

Antes de se tornar o principal campo de batalha da guerra na Síria, Aleppo, uma das cidades mais antigas do mundo, transbordava tesouros declarados Patrimônio da Humanidade da Unesco. “Aleppo era um éden, era nosso éden”, conta Myriam, vestida com uma calça jeans e uma camiseta com a palavra “love” estampada. Mas este paraíso se transformou em um inferno.

Myriam diz que nunca conseguirá esquecer os dias sombrios de março de 2013, quando “homens vestidos de preto”, rebeldes islamitas, obrigaram sua família e ela a abandonar seu lar. “Acordei uma manhã com o barulho de coisas quebrando, pessoas gritando ‘Allauh Akbar’ (Deus é grande, em árabe). Senti tanto medo que fiquei com vontade de vomitar. Abracei forte minha boneca, dizendo ‘não tenha medo, não tenha medo, eu estou aqui com você’”, recorda.

BALA PERDIDA “Corri para colocar meus livros na mochila. Eu adoro os livros, não podia abandoná-los. Coloquei dois casacos de inverno, um por cima do outro, para me proteger das balas perdidas”, conta. “Na rua, vi um homem barbudo, vestido de preto e com uma arma na mão. Eu estava com muito medo. Nós andamos muito tempo até chegar a uma área mais segura.”

A família chegou à parte ocidental da cidade, que estava sob controle do governo, mas era regularmente alvo de bombas de rebeldes. “Os mísseis eram o que mais me assustava. Uma noite, eu estava indo me deitar quando o céu ficou vermelho e houve um barulho ensurdecedor. Um míssil tinha caído na rua ao lado da nossa. Para nos acalmar, meus pais nos deram açúcar, dizendo que isso nos ajudaria a ter menos medo. Mas eu não senti nenhuma diferença”, lembra. “Nós nos refugiamos na casa de uma vizinha e me colocaram em um colchão que ficava em frente a uma janela. Eu tinha medo de janelas, dos fragmentos de vidro. Não queria ficar desfigurada”, afirma.

A rendição dos rebeldes em dezembro de 2016 fez com que uma certa normalidade voltasse a Aleppo, embora o abastecimento de água e eletricidade tenha permanecido intermitente. “Já não temos medo de que bombas caiam nas nossas cabeças. Estou recuperando a minha infância, voltando a brincar com as crianças da vizinhança”, diz, sorridente.

Ela só voltou uma vez ao seu antigo bairro desde que os combates terminaram. “Era como se meu coração estivesse voltando a bater, tudo estava destruído, mas eu me lembrei de todos os momentos que vivi lá. Havia um perfume da felicidade passada. Mas eu não vou voltar a morar ali.” A adolescente, que sonha ser astrônoma “porque ama as estrelas”, continua escrevendo no seu diário. “Não quero me esquecer do que estou vivendo agora.” (Thibauld MALTERRE,  AFP)

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