Fotógrafo de Ipatinga vence o Prêmio FCW de Arte

Rodrigo Zeferino ganhou com o ensaio 'O grande vizinho', sobre a arquitetura urbana, seus moradores e uma grande siderúrgica

por Francelle Marzano 18/06/2017 09:00
 Rodrigo Zeferino/Divulgação
O contraste entre o particular e o geral, o uso de diferentes planos e a realidade social são destaques da série O grande vizinho (foto: Rodrigo Zeferino/Divulgação)
A 15ª edição do Prêmio FCW de Arte, promovido pela Fundação Conrado Wessel, uma das mais importantes do país, premiou o fotógrafo mineiro Rodrigo Zeferino, de 37 anos. Ele desbancou mais de 500 profissionais de fotografia do país com o ensaio O grande vizinho, produzido em Ipatinga, sua cidade natal. Conquistou o primeiro lugar no concurso e o prêmio de R$ 114,3 mil. A série traz imagens da cidade e seus moradores, tendo ao fundo a grande fábrica da siderúrgica Usiminas.

O segundo e o terceiro lugares ficaram, respectivamente, com Wagner Almeida, de Belém do Pará (PA), com o trabalho Luz vermelha, e com Lalo de Almeida, de São Paulo (SP), com ensaio Microcefalia as vítimas do zika vírus. Eles receberão R$ 42,8 mil cada um. Nos três trabalhos vencedores predominam as sombras e imagens trágicas da realidade brasileira.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Rodrigo diz que, apesar de cursar a faculdade, nunca se dedicou ao fotojornalismo.
“Quando comecei a estudar jornalismo, sabia que não era isso que sabia fazer de fato. Sempre me identifiquei mais com a fotografia contemplativa e artística e, então, comecei a direcionar meu olhar para isso, para trabalhos em galerias de arte e institucionais”, explica.

Depois de morar seis anos em Belo Horizonte, o fotógrafo voltou para Ipatinga em 2012, quando se assustou com a mistura entre as arquiteturas urbana e industrial. Começou a pensar numa forma de retratar os dois mundos. “Passei minha juventude olhando com naturalidade para essas estruturas colossais. Contudo, desde que voltei à cidade, esse cenário meio surreal, com uma usina monumental tão próxima da arquitetura urbana, do cotidiano das pessoas, me chamou atenção”, diz. Rodrigo conta que ficou com a ideia do ensaio incubada por um tempo, até que, em 2016, começou a fazer as fotos, concluindo o trabalho em 2017. “É muito impactante. Hoje, as pessoas até dizem que passaram a olhar de forma diferente para a cidade”, comemora.

O fotógrafo contou que o ensaio só foi possível devido à boa vontade dos moradores, que permitiram, de certo modo, a invasão de sua privacidade, fato que lhe permitiu aproximar o cotidiano social da atividade siderúrgica. Nas imagens, o primeiro plano destaca os personagens nas janelas e sacadas das construções e, ao fundo, estão as estruturas gigantes de chaminés e altos-fornos da usina. Rodrigo destaca a escolha em fotografar à noite, evidenciando o mito do “monstro noturno”. A lenda urbana  diz que, enquanto a cidade dorme, a fábrica lança na atmosfera quantidades multiplicadas de resíduos – uma suposta “tramoia”, estimulada pela suposição de que menos gente observaria aqueles resíduos.

Esta edição do Prêmio FCW de Arte contou com 510 ensaios fotográficos inscritos, entre publicados e inéditos, originários de 24 estados brasileiros. A cerimônia de premiação ocorrerá em 20 de setembro, em São Paulo, junto à entrega do Prêmio FCW de Ciência e Cultura. Os 16 primeiros colocados (os três premiados mais 13 finalistas) vão integrar uma edição especial do livro comemorativo do Prêmio FCW de Arte 2016. Criado em 2002 pela Fundação Conrado Wessel, o prêmio FCW reconhece anualmente talentos nos campos da arte, ciência, medicina e cultura. A primeira modalidade seleciona 100 trabalhos fotográficos por ano, oferecendo troféus e quantias em dinheiro aos primeiros colocados.

Zeferino diz que vencer o concurso foi uma surpresa, apesar de saber que seu trabalho tinha know how para ficar entre os 16 que fazem parte do livro comemorativo. “É difícil você se estabelecer como fotógrafo de arte. Fico feliz em saber que meu trabalho foi reconhecido por jurados tão consagrados. Sem dúvida, esse prêmio chancela meu trabalho. Não sei de fato como isso vai mudar minha vida, mas sei que vou ter mais visibilidade e uma tranquilidade imediata para continuar produzindo e estudando”, conclui.

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